Se olharmos para o panorama atual europeu existem poucas marcas que surpreendem como a Ebro; para muitos condutores como eu com mais de 50 anos o nome foi sempre associado a camiões robustos, tratores agrícolas e veículos comerciais. E foram estes que ajudaram a desenvolver a Península Ibérica tanto nas décadas de 50 a 70. Para as gerações mais novas, trata-se de uma marca que ainda não lhes diz nada, mas que vende SUV.
Só que a Ebro não é apenas uma marca recuperada. Eu diria que é quase um caso raro de arqueologia industrial automóvel onde um símbolo histórico da Espanha que desapareceu há mais de 40 anos foi ressuscitado para servir toda uma estratégia global.
Mas é curioso que a história da marca está ligada à Ford e quando a atividade da marca em Espanha foi nacionalizada e transformada em Motor Ibérica foi necessário criar medidas para os veículos que eram produzidos localmente E por isso foi escolhida a marca Ebro inspirada num rio com o mesmo nome que é o maior exclusivamente espanhol.
Durante décadas foi muito mais importante do que se imagina pois foi com ela que se produziram tratores, camiões furões e maquinaria agrícola numa altura em que a Espanha precisava de se modernizar industrialmente.
A Motor Ibérica acabou por expandir a gama através da aquisição de tecnologias e fabricantes locais o que permitiu tornar-se na altura num dos maiores grupos industriais espanhóis. Só que na década de 1980 a Nissan começou a adquirir participações aumentando gradualmente o controlo da empresa, até que a marca se transformou na Nissan Ibérica e com isto o nome Ebro desapareceu oficialmente.
E durante quase quatro décadas permaneceu apenas na memória dos entusiastas, até que em 2021 a espanhola EV Motors adquiriu os direitos sobre a designação Ebro, sendo que o projeto inicial era construir SUV elétricos e até se falava de numa pickup elétrica desenvolvida em Espanha e que foi testada para o Dakar.
Com a entrada da Chery em 2024 quando esta gigante chinesa recuperou a antiga fábrica da Nissan em Barcelona, trouxe tecnologia com as plataformas, engenharia e capital.
Hoje encontramos produtos tão distintos como o Ebro S400, S700 e S800, produtos que são derivados dos Chery que existem nos mercados internacionais.
Mas com isto não se pensa que sejam somente caros chineses com outro símbolo. Não! A estratégia foi muito mais sofisticada. A produção vai ocorrer em Barcelona, numa fábrica europeia recuperada e com adaptação técnica industrial. Com isto a Chery ganha uma base dentro da União Europeia e a Ebro ganha acesso imediato à tecnologia moderna sem suportar custos gigantescos de desenvolvimento de uma nova geração de automóveis.
Parece evidente que o objetivo é recuperar uma marca histórica espanhola mas também existe sempre uma razão geopolítica e industrial que não convém descurar pois o facto de produzir automóveis em Barcelona vai reduzir a dependência das importações diretas da China e permite-lhe com isso aumentar a sua presença na Europa com produção local. Talvez o elemento que possa fascinar mais nesta história seja o local onde tudo acontece. a marca que desapareceu devido ao crescimento da Nissan regressou precisamente à antiga fábrica da Nissan em Barcelona em 2021.
E a nova Ebro não é apenas um fabricante de SUV mas uma combinação de património espanhol, tecnologia chinesa e uma estratégia industrial europeia.
Esta narrativa poderosa a de ser uma marca que desapareceu durante quase 40 anos sobreviveu na memória coletiva e regressou para ocupar um lugar da indústria automóvel europeu é deveras interessante mas mais importante é ressalvar a qualidade do produto que apresentam, desde o S400 até o S700; os dois modelos que ensaiei.
O primeiro trata-se de um SUV médio, mas com uma qualidade de construção bastante boa, um comportamento bastante eficaz e uma autonomia que lhe permite fazer praticamente 700 km sem reabastecer, com boa qualidade de construção e bom comportamento. O S700 eleva de tal modo o patamar em termos de qualidade e até construção que parece que estamos em presença de uma marca completamente diferente tal o nível de detalhe
E é precisamente isto que a marca chinesa trouxe para a Ebro: apresentar tecnologia de ponta num design que tem uma identidade muito própria – goste-se ou não – mas que é revelador do espírito empreendedor desta marca. E tem tudo para vencer no mercado português e no mercado europeu desde que alicerçada numa boa estratégia de comunicação.
Nas muitas conversas que tenho sobre automóveis com muitas pessoas que me pedem a opinião, um dos maiores problemas que deteto passa pela insegurança da assistência, algo que rebato com a explicação que isso não tem qualquer problema pois os chineses estão a fazer aquilo que nós europeus fizemos há uns anos. Ao enviarmos os produtos para a China associámo-nos a grupos industriais que já tinham a distribuição montada. Do mesmo modo as marcas chinesas replicaram para aqui o conceito e, com isso esvazia a dúvida.
O facto de fazermos a reparação em Portugal numa oficina de um grupo industrial forte e com distribuição pelo país permite-nos reduzir a ansiedade das próximas revisões e isso é extremamente importante. Se aliarmos isso à qualidade de construção, de materiais, preço, comportamento, temos mais um player importante, desta vez dos nossos vizinhos espanhóis.

















