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XPENG escolhe Munique para mostrar que já quer ser muito mais do que uma marca de automóveis

Jorge Farromba

Jorge Farromba esteve na Alemanha para assistir a um evento que classifico como “disruptor” para a indústria automóvel

Munique já foi palco de algumas das maiores revoluções da indústria automóvel europeia. Desta vez, recebeu a apresentação mundial do novo XPENG L03, num evento – que contou com a presença da ‘Executive Digest’ – em que o automóvel foi apenas a parte mais visível de uma ambição bastante maior.

Mais do que revelar um novo SUV, a XPENG quis apresentar uma visão integrada do futuro, na qual automóveis elétricos, inteligência artificial, condução autónoma, robôs humanoides, robotáxis e veículos voadores pertencem ao mesmo ecossistema tecnológico.

A dimensão do evento correspondia à importância da mensagem. A apresentação foi transmitida em simultâneo para 65 mercados, num esforço logístico que demonstrou a crescente maturidade operacional e internacional da marca chinesa.

O palco, os conteúdos, as demonstrações tecnológicas e a cadência das apresentações transmitiram uma imagem de confiança e ambição. A organização foi irrepreensível e Munique não foi escolhida por acaso: além de ser um dos grandes centros europeus da indústria automóvel, acolhe também o centro europeu de investigação e desenvolvimento da XPENG.

Mas o mais interessante foi a narrativa construída ao longo da apresentação. O automóvel deixou de ser o protagonista único para surgir como uma das várias manifestações de uma plataforma tecnológica mais abrangente.

De fabricante automóvel a empresa de “Physical AI”

O lançamento do L03 era importante, mas a verdadeira mensagem foi a transformação da XPENG numa empresa de “Physical AI”, ou inteligência artificial aplicada ao mundo físico.

A marca procura afastar-se da definição tradicional de fabricante automóvel e posicionar-se como uma plataforma capaz de desenvolver veículos elétricos, sistemas autónomos, robôs humanoides, carros voadores e infraestruturas inteligentes através de uma arquitetura tecnológica comum.

Esta estratégia assenta na reutilização de competências em áreas como inteligência artificial, eletrificação, computação, sensores, baterias e controlo de movimento. Em teoria, cada avanço alcançado no desenvolvimento de um humanoide poderá beneficiar os automóveis, da mesma forma que os algoritmos criados para a condução autónoma poderão ser aplicados a futuras plataformas robóticas.

É uma visão ambiciosa e uma das mais abrangentes atualmente apresentadas fora do ecossistema da Tesla.

“Na Europa, para a Europa”

A XPENG pretende adaptar esta estratégia ao continente através da abordagem “in Europe, for Europe” — na Europa, para a Europa.

Isso implica desenvolvimento local, cumprimento do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados e adaptação dos sistemas de inteligência artificial às particularidades das estradas, da legislação e dos hábitos de condução europeus.

A presença do centro de investigação e desenvolvimento em Munique assume, por isso, um papel central. Não se trata apenas de vender automóveis no continente, mas de desenvolver tecnologia pensada desde o início para os clientes europeus.

O automóvel como parte de um sistema maior

Um dos momentos mais simbólicos da apresentação foi a comparação entre a inteligência artificial moderna e a obra de Leonardo da Vinci.

A referência à Mona Lisa não foi apenas estética. Leonardo combinava arte, engenharia, ciência e observação humana numa visão integrada do conhecimento. A XPENG procura aplicar uma lógica semelhante, unindo diferentes áreas tecnológicas numa única plataforma.

Nesta visão, o automóvel é apenas um elemento de um sistema mais vasto que reúne inteligência, mobilidade e interação física com o mundo real. A mensagem foi clara: a inovação do século XXI já não resulta de especializações isoladas, mas da convergência entre várias disciplinas.

Uma empresa que pensa para além do automóvel

A XPENG afirma já contar com mais de 60 mil famílias clientes na Europa e está a reforçar a sua presença no continente. Ao mesmo tempo, mantém ambições declaradas nos campos da robótica, dos robotáxis e dos veículos voadores.

O L03 foi a estrela do palco, mas o verdadeiro protagonista da apresentação de Munique foi a visão da empresa.

Numa indústria que ainda discute sobretudo motores, baterias e autonomia, a XPENG apresentou uma narrativa mais abrangente: a criação de uma plataforma de inteligência física em que automóveis, robôs humanoides e veículos voadores são diferentes aplicações da mesma base tecnológica.

A grande questão será agora a execução. Caso a XPENG consiga transformar esta aposta numa vantagem competitiva real, poderá construir um ecossistema difícil de replicar pelos fabricantes tradicionais.

Talvez, daqui a alguns anos, esta apresentação em Munique não seja recordada apenas como o lançamento de mais um SUV, mas como o momento em que uma marca chinesa decidiu desafiar a própria definição de empresa automóvel.