Portugal chega ao Dia Mundial do Ambiente com um retrato que mistura boas notícias e sinais de alerta. O país está entre os que menos emitem gases com efeito de estufa por habitante na União Europeia e aparece acima da média europeia nas energias renováveis. Mas há um ponto onde a transição ambiental continua a esbarrar: a mobilidade.
Os dados sistematizados pela Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, mostram que Portugal foi, em 2024, o terceiro país da União Europeia com menos emissões de gases com efeito de estufa por habitante, com 4,8 toneladas de CO2 equivalente per capita. Só Malta e Suécia apresentaram valores mais baixos.
A boa posição, porém, tem uma leitura menos confortável. Entre 1990 e 2024, Portugal foi também um dos países europeus que menos reduziu emissões por habitante. Luísa Loura, diretora da Pordata, explica que o país “partiu de uma posição muito boa”, uma vez que “sempre teve poucas emissões” e não tinha setores particularmente poluentes quando comparado com outros Estados-membros. Ainda assim, sublinha que Portugal “não contribuiu especialmente para o esforço de redução das emissões ao nível da União Europeia”.
A comparação com a Suécia ajuda a perceber o problema. Segundo Luísa Loura, em exclusivo à ‘Executive Digest’, ambos os países partiram de uma situação semelhante em 1990, mas a Suécia conseguiu ficar entre os dez países que mais reduziram emissões. Portugal, pelo contrário, manteve-se quase estável. “Portugal ainda tem caminho para reduzir estas emissões”, resume a responsável.
O travão está na estrada
O setor dos transportes é hoje o principal responsável pelas emissões nacionais de gases com efeito de estufa. Em 2024, representou 34,4% do total, o quarto valor mais elevado da União Europeia e nove pontos percentuais acima da média comunitária. Cerca de 20% das emissões nacionais estão associadas à combustão de gasolina e gasóleo no parque automóvel português.
Mais do que um problema abstrato, este é o ponto onde os dados ambientais se cruzam com a vida quotidiana. Portugal tinha, em 2024, mais de 6,1 milhões de veículos ligeiros de passageiros registados, o equivalente a 574 automóveis por cada mil habitantes. Em 1990, eram 185 carros por mil habitantes. Em pouco mais de três décadas, o parque automóvel mais do que triplicou.
Luísa Loura evita colocar o problema como uma acusação direta aos condutores. Na sua leitura, a dependência do automóvel não é tanto um “bloqueio ambiental”, mas está claramente a “bloquear a melhoria”. O setor dos transportes é um dos que mais emite e, ao mesmo tempo, um daqueles onde a intervenção pública pode ter efeito mais direto.
“O automóvel, a utilização do automóvel, comparativamente com outros países da União Europeia, não só o número de carros que temos per capita, como a própria utilização do automóvel, é maior do que nos outros países”, explica a diretora da Pordata. Por isso, acrescenta, “há com certeza algum trabalho que se consegue fazer no sentido de reduzir a utilização do automóvel” e esse trabalho pode ser eficaz na redução das emissões.
Não é só comodismo: é falta de alternativa
O dado mais expressivo talvez esteja na evolução da mobilidade. Entre 1990 e 2023, o uso dos transportes públicos em Portugal caiu de 29% para 12%, enquanto a utilização do carro subiu de 72% para 88%. Em 2023, 88,2% dos quilómetros percorridos por passageiros em Portugal foram feitos de automóvel, o terceiro valor mais elevado da União Europeia.
No comboio e no autocarro, a trajetória foi inversa. Portugal passou de quarto país com maior uso do comboio para quarto país com menor utilização, entre os países com dados comparáveis desde 1990. A extensão da linha férrea também recuou, de 3.126 quilómetros em 1990 para 2.526 quilómetros em 2024.
Para Luísa Loura, esta evolução tem uma explicação que vai além da preferência individual. A responsável aponta para mudanças profundas na habitação, no mercado de trabalho e nos movimentos pendulares. Muitas pessoas passaram a viver cada vez mais longe dos centros urbanos onde estudam ou trabalham, por pressão dos preços da habitação, e essa alteração não foi acompanhada por uma rede de transportes suficientemente eficaz.
“As pessoas mais novas, as que entram de novo para o mercado de trabalho, são de certa forma forçadas a ir procurar casa longe”, explica. O problema, acrescenta, é que este movimento “não está a ser acompanhado pelas infraestruturas”, nem por comboios, nem por autocarros, nem por redes articuladas entre municípios.
É aqui que a leitura se torna mais política e territorial. Não se trata apenas de convencer os portugueses a deixarem o carro em casa. Trata-se de lhes dar uma alternativa real. “Eu não colocaria o ónus nas pessoas que, por comodismo, preferem usar o carro. Não acho isso de todo”, afirma Luísa Loura. Em muitos casos, diz, as alternativas são tão demoradas que “não chegam a ser alternativas”.
O país mudou mais depressa do que os transportes
A diretora da Pordata identifica uma desadaptação entre a velocidade das mudanças sociais e a resposta das infraestruturas. Os movimentos pendulares aumentaram, as famílias foram empurradas para fora dos centros urbanos e a organização dos transportes não acompanhou esse novo mapa do país.
O problema torna-se ainda mais evidente quando envolve vários municípios. Horários que não coincidem, redes que não comunicam e fronteiras administrativas que dificultam deslocações simples ajudam a explicar porque é que, na análise custo-benefício, muitos portugueses continuam a escolher o carro.
Luísa Loura dá o exemplo da região Oeste, onde os municípios procuraram articular respostas e criar condições para circular dentro da região com passe gratuito. Para a responsável, este tipo de solução mostra que há margem para políticas públicas capazes de responder à nova realidade da mobilidade.
A tendência, no entanto, continua a agravar-se. Segundo a diretora da Pordata, a utilização do carro “tem vindo a piorar desde 2015”. Ou seja, o problema não pertence apenas ao passado. Continua ativo e, em alguns indicadores, está a intensificar-se.
Carros elétricos ajudam, mas não resolvem tudo
Há uma mudança positiva no parque automóvel: os carros elétricos estão a crescer. Em 2024, venderam-se em Portugal mais de 40 mil novos automóveis elétricos, cerca de 20% das novas matrículas, acima da média europeia de 13,5% e mais do dobro do valor registado em 2022.
Do ponto de vista das emissões diretas, a eletrificação é relevante. Luísa Loura reconhece que os carros elétricos podem contribuir muito para reduzir gases com efeito de estufa, uma vez que não há combustão de gasolina ou gasóleo. “Os carros elétricos são limpos no aspeto das emissões de gases com efeito de estufa”, afirma.
Mas há duas cautelas. A primeira é temporal: mesmo que a compra de carros novos seja cada vez mais elétrica, o peso destes veículos no total do parque automóvel continuará a ser reduzido durante vários anos, porque as pessoas não trocam de carro de um momento para o outro. A segunda é estrutural: trocar carros a combustão por carros elétricos reduz emissões, mas não resolve, por si só, a dependência do automóvel.
A responsável admite ainda que os elétricos têm outras contrapartidas ambientais que devem ser consideradas. Por isso, embora veja a eletrificação como parte do caminho, insiste que a prioridade deve passar também por tornar os transportes públicos mais atrativos, mais úteis e mais compatíveis com as necessidades reais das pessoas.
Renováveis são a força de Portugal, mas o petróleo continua a pesar
O paradoxo português fica mais claro quando se olha para a energia. Portugal está entre os países da União Europeia com maior peso de renováveis no consumo e na produção. Mais de 95% da energia produzida no país tem origem em fontes renováveis, uma proporção que coloca Portugal entre os melhores desempenhos europeus.
Ainda assim, no consumo final de energia, os produtos petrolíferos continuam a dominar. Em 2024, representavam 42,9% do consumo final de energia em Portugal, acima da média europeia de 37,3%. O setor dos transportes absorve 80% desse consumo no país.
Isto significa que Portugal tem uma base forte na produção renovável, mas continua preso a uma estrutura de consumo muito dependente do petróleo, sobretudo por causa da mobilidade. A eletricidade limpa ajuda, mas não chega enquanto a deslocação diária continuar tão centrada no automóvel.
Também nas famílias há diferenças face à Europa. Em Portugal, os agregados familiares pesam menos no consumo de energia do que a média europeia e dependem sobretudo da eletricidade e das renováveis. Na União Europeia, o gás natural tem um papel muito mais forte no consumo doméstico. Essa diferença ajuda Portugal no retrato energético geral, mas não compensa o peso dos transportes.
A transição ambiental decide-se também fora da energia
Os dados da Pordata mostram que Portugal não parte de uma posição frágil. Pelo contrário: tem poucas emissões por habitante, uma produção de energia fortemente renovável e menor dependência doméstica do gás natural do que muitos parceiros europeus.
Mas a leitura de Luísa Loura acrescenta uma nuance essencial: estar bem posicionado não é o mesmo que estar a transformar-se depressa. Portugal reduziu pouco desde 1990 e continua a ter nos transportes a principal margem de melhoria.
O desafio, por isso, não está apenas em produzir energia mais limpa ou vender mais carros elétricos. Está em reorganizar a mobilidade num país onde a habitação empurrou muitas pessoas para longe dos centros, onde os movimentos pendulares aumentaram e onde os transportes públicos perderam peso precisamente quando mais precisariam de ganhar escala.
Enquanto quase nove em cada dez quilómetros percorridos por passageiros forem feitos de carro, a transição ambiental portuguesa continuará incompleta. Portugal pode ser um bom aluno nas renováveis e nas emissões per capita, mas a estrada continua a ser o seu teste mais difícil.













