A estreia do Ferrari Luce, o primeiro modelo 100% elétrico da marca italiana, provocou críticas ferozes ao design, queda em bolsa e até reparos de antigos responsáveis da empresa. Mas, segundo o ‘Electrek’, a Ferrari garante agora que o modelo já está a receber encomendas de clientes atuais e novos, com a carteira de pedidos a estender-se até ao final de 2027.
O anúncio foi feito por Benedetto Vigna, CEO da Ferrari, poucos dias depois da apresentação do Luce em Roma ter desencadeado uma queda de 6% nas ações da marca e uma vaga de comentários negativos nas redes sociais. Luca di Montezemolo, antigo presidente da Ferrari, chegou a dizer à imprensa italiana que, perante o desenho do carro, a marca devia “ao menos tirar-lhe o cavallino rampante”.
O Luce tem preço de 640 mil dólares, cerca de 590 mil euros, e começará a ser entregue em outubro de 2026. Trata-se de um elétrico de cinco lugares e quatro portas, com quatro motores, 1.050 cv, autonomia WLTP de 530 quilómetros e arquitetura de 800 volts. A ficha técnica é ambiciosa, mas o visual dividiu opiniões desde o primeiro momento.
A reação online foi particularmente dura. O ‘Electrek’ recorda que o modelo foi comparado a tudo, de um Honda Accord a uma torradeira de luxo, enquanto Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro italiano, o classificou como “escandalosamente caro”. As ações da Ferrari chegaram a cair até 8% nos dias seguintes à revelação, antes de recuperarem mais de 3%.
Apesar do ruído, Vigna encontrou nos primeiros pedidos um sinal positivo para a estratégia elétrica da Ferrari. Para o responsável, o Luce é o resultado de cinco anos de trabalho e assenta numa plataforma elétrica de alto desempenho, com motores derivados do F80 em cada roda, vetorização independente de binário, suspensão ativa sem barras estabilizadoras, direção traseira e um centro de gravidade 95 milímetros mais baixo do que o Purosangue.
O ponto central, porém, é saber se estas encomendas representam verdadeiro entusiasmo pelo primeiro Ferrari elétrico ou apenas a lógica própria do universo de colecionadores da marca. O Electrek lembra que muitos clientes compram novos modelos, mesmo os mais polémicos, para manter estatuto junto de Maranello e garantir acesso futuro a edições limitadas e hiperexclusivas.
Por isso, os primeiros sinais comerciais devem ser lidos com cautela. O facto de haver encomendas até 2027 não prova, por si só, que o Luce tenha conquistado os puristas. Mas dá margem à Ferrari para continuar a apostar na eletrificação, numa altura em que marcas como Porsche e Lamborghini têm moderado alguns dos seus planos elétricos.
A dúvida fica para a estrada. A própria Ferrari tem defendido que o Luce precisa de ser conduzido para ser compreendido. Se a experiência ao volante convencer mesmo os clientes mais céticos, a polémica inicial poderá acabar por ser apenas mais um exemplo de como a indignação online nem sempre antecipa o desempenho real de um automóvel no mercado.






