Kevin Thomas não comprou propriamente um carro de Fórmula 1 pronto a andar. Comprou os restos de um. Por cerca de 6.700 dólares – aproximadamente 6.200 euros -, este eletricista britânico conseguiu ficar com o chassis em fibra de carbono de um Caterham F1 praticamente destruído. O que veio depois foi muito mais difícil: 10 anos de trabalho, procura por peças, compromissos técnicos e uma conta final de seis dígitos.
A história, contada pelo site ‘Supercar Blondie’, começa com um acidente. O carro em causa ficou severamente danificado no Grande Prémio da Hungria de 2014, depois de um despiste a alta velocidade do piloto Marcus Ericsson. Pouco depois, a Caterham F1 entrou em falência e o ‘tub’ destruído do monolugar, a célula central em fibra de carbono, acabou em leilão.
Foi aí que Kevin Thomas, de Burgess Hill, uma localidade do Reino Unido situada a cerca de 64 quilómetros a sul de Londres, viu uma oportunidade rara. Muitos carros de Fórmula 1 acabam em museus, coleções privadas ou guardados pelas equipas para proteger propriedade intelectual. Poucos chegam ao mercado. E menos ainda chegam ao mercado antes de serem enviados para destruição.
O britânico pagou 5.000 libras, cerca de 5.800 euros, pelo chassis. Parecia uma pechincha. Mas, no mundo da Fórmula 1, comprar barato é apenas o início da despesa.
Durante a década seguinte, Kevin procurou peças originais dentro e fora do Reino Unido. Algumas eram difíceis de encontrar, outras tinham preços difíceis de justificar fora do universo da alta competição. O volante, por exemplo, custou-lhe 10.000 libras, cerca de 11.600 euros — o dobro do valor pago pelo chassis.
O maior problema foi o motor. Usar uma unidade motriz oficial da Renault, compatível com o carro, estava praticamente fora de questão. Segundo contou ao canal ‘Driver61’ – pode ver o vídeo aqui -, a Renault terá admitido alugá-la por 2 milhões de euros por trimestre, mas com uma condição adicional: a presença de técnicos da marca, também pagos por Kevin, para acompanhar e reconstruir a unidade depois desse período.
A solução foi aceitar um compromisso: em vez de um verdadeiro motor de F1, o projeto recebeu um motor mais pequeno de Fórmula Renault. Não era a escolha perfeita, mas era a única forma realista de fazer o carro andar.
Mesmo assim, a adaptação estava longe de ser simples. Num Fórmula 1, o motor não é apenas uma peça aparafusada ao chassis, como acontece num automóvel comum. É parte estrutural do carro. Funciona como elemento resistente, suportando a secção traseira. Sem motor, o monolugar perderia integridade estrutural.
Depois veio outro desafio: cablagem, eletrónica e sistemas de funcionamento. Reconstruir um F1 não é apenas montar peças raras; é fazer com que componentes pensados para operar num ambiente de equipa, com engenheiros, computadores e protocolos específicos, consigam funcionar numa garagem doméstica.
O primeiro teste em movimento aconteceu no final de 2024. Agora, em 2026, o carro está pronto para pista. No total, Kevin terá gasto entre 174 e 232 mil euros. É muito dinheiro, mas continua a ser bastante menos do que custaria comprar um Fórmula 1 usado completo e funcional.






