O cheiro a carro novo pode deixar de ser apenas uma sensação associada à compra de um automóvel acabado de sair do concessionário. A qualidade do ar no interior dos veículos está a ganhar atenção na Europa, depois de um estudo alemão ter analisado a presença de compostos químicos libertados por materiais usados nos habitáculos, como colas, espumas, plásticos, tecidos e revestimentos, noticia a ‘L’Automobile Magazine’.
Em causa estão os compostos orgânicos voláteis, conhecidos pela sigla COV, que podem acumular-se no ar dentro do veículo, sobretudo quando o carro está estacionado ao sol e a temperatura no interior aumenta. Estas substâncias ajudam a explicar o chamado “cheiro a carro novo”, mas também estão a ser acompanhadas com maior atenção pelas autoridades europeias.
O estudo foi conduzido pela organização alemã ADAC em parceria com o Instituto Fraunhofer e avaliou quatro modelos recentes: Volkswagen Golf eTSI, Dacia Spring, Hyundai Kona Hybrid e BYD Seal 6 DM-i Touring. Os investigadores analisaram o ar no interior dos veículos em diferentes condições, incluindo temperatura ambiente, exposição a calor intenso e utilização do sistema de ventilação.
As conclusões apontam para uma subida acentuada das concentrações quando os carros ficam expostos ao calor. Entre as substâncias analisadas está o formaldeído, composto químico usado em algumas resinas, colas e espumas, que pode tornar-se mais presente no ar do habitáculo nessas condições.
A questão já entrou no radar regulatório europeu. A partir de 6 de agosto de 2027, deverá entrar em vigor um novo limite mais rigoroso para o formaldeído em veículos novos na Europa. O valor passará para 0,062 mg/m³, abaixo do nível de referência atualmente usado na Alemanha, de 0,10 mg/m³. A preocupação prende-se com o potencial efeito irritante do formaldeído nas vias respiratórias quando surge em concentrações elevadas.
Ainda assim, o estudo não aponta para risco imediato para a saúde em condições normais de utilização. À temperatura ambiente, todos os modelos analisados ficaram abaixo do futuro limite europeu para formaldeído. O problema surge sobretudo em situações de calor intenso, em que alguns veículos ultrapassaram temporariamente determinados valores de referência recomendados na Alemanha.
Entre os modelos testados, o BYD Seal 6 DM-i Touring registou níveis mais elevados de certos solventes voláteis, como xilenos, bem como uma concentração geral de COV superior à dos restantes veículos analisados. A L’Automobile Magazine sublinha, no entanto, que esses níveis baixaram rapidamente quando o ar condicionado foi ligado.
Esse é um dos pontos centrais do estudo: a ventilação faz diferença. Assim que o ar começa a circular no interior do veículo, as concentrações de compostos como formaldeído e benzeno diminuem de forma clara, o que reforça a importância de arejar o habitáculo, especialmente em carros novos ou depois de longos períodos estacionados ao sol.
A discussão surge numa altura em que a indústria automóvel tem concentrado grande parte dos seus esforços na redução das emissões exteriores dos veículos. Agora, a atenção começa também a deslocar-se para o ar que condutores e passageiros respiram dentro do carro.
A evolução dos habitáculos ajuda a explicar essa preocupação. Os interiores dos automóveis tornaram-se mais sofisticados, com mais materiais sintéticos, superfícies suaves ao toque, componentes eletrónicos e elementos de conforto. Ao mesmo tempo, nos veículos elétricos, os ocupantes podem passar mais tempo dentro do carro parado, por exemplo durante carregamentos.
Segundo a ‘L’Automobile Magazine’, a questão deverá obrigar os fabricantes a olhar com mais atenção para os materiais usados nos interiores e para as emissões químicas que estes libertam ao longo do tempo. O “cheiro a carro novo” pode continuar a fazer parte da experiência de compra, mas poderá deixar de ser tratado apenas como uma questão de gosto. Em breve, poderá ser também uma questão regulamentar.






