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“Quem o avisa…” deixou de avisar: PSP termina publicação dos radares num país em alerta nas estradas

Automonitor

Não há, para já, uma explicação oficial detalhada sobre o motivo da decisão, nem indicação pública sobre se a campanha foi suspensa, reformulada ou definitivamente encerrada

Durante meses, a PSP publicou regularmente a lista mensal dos locais onde iria realizar ações de controlo de velocidade. A campanha tinha um nome fácil de fixar — “Quem o avisa…” — e uma lógica assumida de prevenção: informar os condutores, aumentar a perceção de fiscalização e tentar reduzir comportamentos de risco.

Agora, a lista desapareceu.

Questionada pela ‘Executive Digest’, a PSP limita-se a responder que “já não publicamos”.

Não há, para já, uma explicação oficial detalhada sobre o motivo da decisão, nem indicação pública sobre se a campanha foi suspensa, reformulada ou definitivamente encerrada.

O fim dos avisos surge, porém, num momento particularmente sensível para a segurança rodoviária em Portugal.

Depois de uma Semana Santa marcada por pelo menos 20 mortos nas estradas portuguesas, o Governo assumiu que era “tempo de agir” e prometeu apertar a malha contra comportamentos de risco.

A coincidência temporal é evidente: a PSP deixa de publicar a lista mensal dos radares numa altura em que o Ministério da Administração Interna quer mais fiscalização, menos pré-avisos e punições mais pesadas para quem não cumpre as regras.

De campanha preventiva a silêncio oficial

A campanha “Quem o avisa…” assentava numa ideia simples: divulgar antecipadamente alguns locais de controlo de velocidade para levar os condutores a moderar a condução.

A comunicação não indicava todos os radares existentes, nem impedia ações de fiscalização noutros locais, mas funcionava como aviso público e como instrumento de sensibilização.

A mensagem implícita era clara: a PSP não queria apenas multar; queria prevenir.

Essa lógica tem sido usada por várias forças de segurança em diferentes países: tornar a fiscalização visível pode levar os condutores a reduzir a velocidade antes mesmo de serem apanhados em infração.

Mas o novo contexto parece apontar noutra direção.

O Governo quer reforçar uma fiscalização “implacável”, nas palavras do ministro da Administração Interna, Luís Neves, e acabar com operações anunciadas com antecedência.

Governo quer fiscalização sem aviso prévio

O pacote de segurança rodoviária anunciado pelo Ministério da Administração Interna parte de um diagnóstico duro: a fiscalização aumentou nos últimos anos, mas isso não tem sido suficiente para reduzir a sinistralidade.

Luís Neves defendeu que a fiscalização tem de ser mais visível, eficaz, inabalável e intransigente.

Uma das medidas mais simbólicas é o fim das operações stop anunciadas com antecedência.

“Connosco não haverá mais qualquer operação stop que seja avisada previamente. A prevenção é a nossa prioridade”, afirmou o ministro.

A frase marca uma mudança de tom.

Se antes a comunicação pública de operações e radares podia ser apresentada como parte da prevenção, a nova orientação parece privilegiar o fator surpresa e a imprevisibilidade da fiscalização.

A intenção é apertar a malha aos condutores que continuam a circular em excesso de velocidade, sob efeito de álcool ou com comportamentos reincidentes.

Luís Neves foi direto: “Nas estradas não morrem números, morrem pessoas.”

Radares vão aumentar de norte a sul

O desaparecimento da lista mensal da PSP acontece também quando o Governo anuncia mais radares de velocidade em todo o país.

Atualmente, existem 123 locais com radares, dos quais 100 medem velocidade instantânea e 23 controlam velocidade média.

O Executivo quer reforçar sobretudo estes últimos.

Os radares de velocidade média calculam o tempo que um veículo demora a percorrer determinado troço e permitem perceber se o limite foi excedido ao longo da distância, e não apenas num ponto específico.

O ministro deu como exemplo a Ponte Vasco da Gama, em Lisboa, onde disse ter deixado de haver vítimas graves desde a instalação deste tipo de fiscalização.

Em 2024, no primeiro mês após a instalação dos radares naquela ponte, a GNR detetou um condutor a circular a 246 quilómetros por hora.

O Governo quer agora aumentar o número de radares em vias estruturantes como a A1, entre Lisboa e Porto, e a A2, entre Lisboa e o Algarve.

A mensagem política é clara: menos previsibilidade para quem infringe e mais capacidade de controlo nas estradas com maior circulação.

O regresso da Brigada de Trânsito

Outra das medidas anunciadas é a reativação da Brigada de Trânsito da GNR, extinta em 2007 durante o Governo de José Sócrates.

Na altura, as suas funções passaram para a Unidade Nacional de Trânsito, mas a decisão foi criticada por várias associações profissionais.

Luís Neves defende agora que a extinção da Brigada de Trânsito fez perder a “essência de uma fiscalização rodoviária contínua”.

Para o ministro, o controlo operacional de trânsito deve ser assegurado por um comando nacional.

Ainda não são conhecidos os moldes concretos do regresso da Brigada, nem o calendário exato, mas o governante admitiu que serão necessários mais meios.

A medida surge como parte de uma tentativa de reconstruir uma presença mais constante e especializada nas estradas portuguesas.

Punições mais pesadas e combate às prescrições

O Governo quer também rever o quadro sancionatório.

Luís Neves anunciou a intenção de alargar os critérios para a cassação de cartas de condução, agravar penas para reincidentes e endurecer a resposta a quem conduz sob o efeito de álcool ou drogas.

O ministro sublinhou que a condução sob o efeito de álcool continua a ter um peso elevado na sinistralidade.

Segundo os dados citados pelo governante, em dois terços dos acidentes com vítimas os condutores tinham excesso de álcool. Um em cada três condutores que morreram em acidentes tinha álcool a mais no sangue.

O Executivo quer ainda travar a prescrição de multas de trânsito.

Luís Neves acusou alguns condutores de recorrerem a “formas ardilosas”, “estratagemas” e até “esquemas mafiosos” para escaparem às punições.

“Haverá tolerância zero à prescrição”, avisou.

Em 2025, o Estado arrecadou cerca de 87 milhões de euros em multas de trânsito, mais 22% do que em 2024, mas uma fatia relevante dos processos continua a prescrever.

O Governo admite contratar advogados para trabalhar com a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, numa tentativa de reduzir esse problema.

Novo Código da Estrada em preparação

O pacote anunciado pelo Governo inclui ainda a elaboração de um novo Código da Estrada.

O ministro rejeita a ideia de uma simples atualização e fala numa reescrita integral, que reúna diplomas dispersos e responda às mudanças na mobilidade.

Luís Neves lembrou que a última revisão de fundo do Código da Estrada tem mais de três décadas.

Desde então, as estradas e as cidades mudaram: há mais motociclos, bicicletas, trotinetas, novas formas de mobilidade e novos conflitos no espaço público.

O ministro não detalhou ainda as medidas concretas que poderão entrar no novo código, mas garantiu que o processo não será para durar anos.

O Governo diz querer ouvir especialistas e avançar num prazo de meses.

Autarquias chamadas ao combate

A estratégia do Executivo não se limita às autoestradas ou às operações policiais.

Luís Neves classificou a sinistralidade rodoviária como uma “chaga nacional” e chamou as câmaras municipais à responsabilidade.

Mais de metade das mortes na estrada ocorre dentro das localidades.

Por isso, o Governo quer que as autarquias criem ou reforcem planos municipais de segurança rodoviária.

Entre as medidas possíveis estão soluções de acalmia de tráfego, como zonas de circulação limitada a 30 quilómetros por hora, redesenho de arruamentos, melhoria de passadeiras e proteção de peões.

A ideia é tratar a segurança rodoviária como uma responsabilidade partilhada entre Estado central, forças de segurança, autarquias e cidadãos.

O que muda para os condutores

Para já, há uma mudança concreta: a PSP deixou de publicar a lista mensal de radares da campanha “Quem o avisa…”.

O Governo quer menos avisos prévios, mais radares, mais fiscalização, maior controlo sobre reincidentes e punições mais eficazes.

O desaparecimento da lista da PSP encaixa nesse novo tempo: o tempo em que a prevenção passa a conviver com uma lógica mais dura de imprevisibilidade.

Durante anos, muitos condutores habituaram-se a consultar antecipadamente onde estariam alguns radares.

Agora, a mensagem parece ser outra: o radar pode estar em qualquer lado, a qualquer hora.