A guerra no Irão e a tensão no Estreito de Ormuz estão a criar obstáculos à Ferrari no Médio Oriente, uma região historicamente importante para a marca italiana. O problema está sobretudo no risco associado ao tráfego marítimo, que levou o construtor de Maranello a recorrer a uma solução pouco comum: entregar automóveis por via aérea em vez de marítima, escreve a ‘L’Automobile Magazine’.
A região do Golfo tem sido, ao longo de décadas, um mercado natural para os modelos do Cavallino Rampante, impulsionado por clientes de elevado poder de compra e por uma forte tradição de procura por automóveis de luxo. Mas o agravamento da instabilidade geopolítica no Médio Oriente está a afetar a logística e a obrigar a Ferrari a adaptar a sua estratégia comercial.
De acordo com informações citadas pelo ‘Financial Times’, a marca já recorre a entregas aéreas para o Médio Oriente há algum tempo, procurando contornar as dificuldades criadas pelo tráfego marítimo na zona. Ao mesmo tempo, a Ferrari tem redirecionado parte do foco comercial para outras regiões, nomeadamente a Ásia e as Américas, onde a procura continua elevada.
Entregas caem 4,4% no primeiro trimestre
No primeiro trimestre, as entregas globais da Ferrari caíram 4,4% face ao mesmo período do ano passado, para 3463 veículos novos. A queda foi mais acentuada na Europa e no Médio Oriente, onde as entregas recuaram 14%.
A Ferrari atribui esta quebra sobretudo à renovação da gama de produtos, numa fase em que tem atualizado alguns dos seus modelos, incluindo o lançamento do Amalfi e da respetiva variante Spider.
Ainda assim, o impacto no Médio Oriente é sensível, precisamente por se tratar de uma região tradicionalmente relevante para a marca. A resposta passou por compensar a quebra com outros mercados. Na China e na Ásia, as matrículas aumentaram 7,6%, ajudando a equilibrar a redução observada noutras geografias.
Benedetto Vigna, CEO da Ferrari, assegurou que a situação no Médio Oriente está “sob controlo” e que não há cancelamentos de encomendas. A marca sustenta que a procura global continua suficientemente forte para compensar eventuais dificuldades regionais.
Carteira de encomendas cheia até ao final de 2027
Apesar das dificuldades logísticas e da queda nas entregas, a Ferrari mantém um discurso otimista. A empresa afirma ter a carteira de encomendas preenchida em todo o mundo até ao final de 2027, um sinal de resiliência num momento em que o mercado de luxo enfrenta sinais de abrandamento.
Os resultados financeiros também continuam sólidos. A Ferrari apresentou um lucro antes de impostos de 722 milhões de euros e receitas acima das expectativas dos investidores.
Ainda assim, os mercados financeiros reagiram de forma negativa. As ações da Ferrari caíram mais de 3% após a apresentação dos resultados e acumulam uma descida superior a 11% desde o início do ano.
Para os investidores, a quebra nas entregas parece ter pesado mais do que a solidez dos resultados financeiros. A ‘L’Automobile Magazine’ nota que o mercado de luxo como um todo atravessa um período menos favorável, com dificuldades também sentidas por marcas premium alemãs na China.
Tarifas nos Estados Unidos podem pesar
Além da guerra no Irão e das dificuldades no Médio Oriente, a Ferrari enfrenta outro risco: o aumento das tarifas sobre veículos produzidos na Europa e importados para os Estados Unidos.
A marca italiana será diretamente afetada por este agravamento, embora o impacto final nos clientes seja ainda incerto. Tratando-se de uma marca de luxo, com compradores menos sensíveis ao preço do que os clientes de construtores generalistas, a Ferrari poderá ter maior margem para absorver ou repercutir esses custos.
Ainda assim, o tema é relevante porque os Estados Unidos continuam a ser um mercado essencial para a marca.
Primeiro Ferrari elétrico continua envolto em expectativa
Entre os próximos grandes momentos da Ferrari está a chegada do primeiro modelo totalmente elétrico da marca, o Luce, que deverá ser apresentado em breve.
A carteira de encomendas para este modelo é vista como uma possível boa notícia para o construtor, que avança para a eletrificação antes de rivais como Lamborghini, Aston Martin ou Bentley neste segmento.
O projeto continua, no entanto, envolto em mistério. Para a Ferrari, o desafio passa por entrar no universo elétrico sem perder aquilo que distingue a marca: desempenho, exclusividade, som, emoção e identidade mecânica.
Para já, a prioridade passa por manter a estabilidade num contexto internacional mais difícil. A guerra no Irão tornou o Médio Oriente mais complexo para a Ferrari, mas a marca tenta responder com logística aérea, redistribuição da procura e uma carteira de encomendas que continua cheia até 2027.






