A Comissão Europeia apelou aos Estados-membros para adotarem medidas concretas de redução do consumo de petróleo e gás, numa altura em que cresce o receio de uma perturbação prolongada no abastecimento energético global, especialmente devido à instabilidade no estreito de Ormuz.
Num documento enviado aos ministros da Energia, o comissário europeu Dan Jørgensen solicitou aos governos nacionais que apresentem planos detalhados para reduzir a procura, sobretudo no setor dos transportes, e avaliem a capacidade atual dos mercados energéticos.
O apelo surge na véspera de uma reunião de emergência dos responsáveis europeus pela energia, convocada para discutir o impacto de uma escassez global estimada em cerca de 11 milhões de barris de petróleo por dia e mais de 300 milhões de metros cúbicos diários de gás natural liquefeito.
A preocupação não se limita à Europa. Os ministros da Energia e das Finanças do G7 afirmaram estar a acompanhar de perto os efeitos do conflito com o Irão nos mercados energéticos e na estabilidade económica global, garantindo que estão preparados para adotar “todas as medidas necessárias” para assegurar o funcionamento dos mercados.
Para já, não foram anunciadas decisões concretas, como a libertação de reservas estratégicas, mas as discussões internacionais indicam um cenário de crescente pressão sobre o sistema energético global.
Dependência do Golfo preocupa Europa
Apesar de o abastecimento geral de petróleo ainda ser considerado controlado, Bruxelas identifica vulnerabilidades críticas, nomeadamente no fornecimento de gasóleo e combustível de aviação.
A União Europeia continua fortemente dependente de importações provenientes de países do Golfo, como a Arábia Saudita e o Kuwait. Estima-se que cerca de 20% do gasóleo consumido na UE e no Reino Unido tenha origem nesta região.
Além disso, a limitada capacidade de refinação dentro do espaço europeu e a escassez de fornecedores alternativos agravam o risco de disrupções.
Menos viagens e mais eficiência energética
Entre as medidas sugeridas pela Comissão Europeia está a redução do consumo no setor dos transportes, incluindo menos deslocações rodoviárias e aéreas, bem como o reforço da eficiência energética.
Bruxelas recomenda ainda o adiamento de paragens técnicas em refinarias, de forma a manter os níveis de produção, e incentiva o recurso a biocombustíveis como alternativa parcial aos combustíveis fósseis.
Os dados mais recentes indicam já sinais de pressão no mercado: as importações europeias de combustível de aviação e querosene caíram para 1,064 milhões de toneladas em março, face a 1,111 milhões no mês anterior.
Uma fonte do setor da aviação europeia alertou que, caso a situação se prolongue, “no verão estaremos todos em dificuldades — os cancelamentos de voos serão a única solução”.
Preços da energia disparam com conflito no Irão
O impacto do conflito já se faz sentir nos mercados. O preço do petróleo Brent subiu para cerca de 119 dólares por barril, quando antes da guerra rondava os 70 dólares. Analistas admitem que, em cenários mais extremos, o valor possa atingir os 200 dólares.
Também o gás natural poderá registar aumentos significativos, aproximando-se dos níveis verificados durante a crise energética de 2022, quando a Europa perdeu cerca de 45% das importações provenientes da Rússia após a invasão da Ucrânia.
A pressão sobre o mercado é agravada pela concorrência global, com vários carregamentos de gás natural liquefeito inicialmente destinados à Europa a serem desviados para a Ásia, onde os preços são mais elevados.
UE pede preparação para cenário prolongado
Apesar das tensões, a Comissão Europeia considera que o fornecimento energético imediato permanece “contido”. Ainda assim, alerta para a necessidade de preparar respostas atempadas face a uma possível crise prolongada.
A União Europeia dispõe atualmente de reservas estratégicas de petróleo suficientes para cerca de 90 dias e de uma rede de abastecimento diversificada. No total, as reservas europeias — incluindo Reino Unido e Suíça — rondam os 100 milhões de toneladas, equivalentes a aproximadamente um ano de consumo da Alemanha.
Além disso, a Agência Internacional de Energia coordenou recentemente a libertação de mais de 400 milhões de barris de reservas de emergência, com os países europeus a contribuírem com cerca de 20%.
Unidade entre Estados-membros é crucial
Bruxelas sublinha que a eficácia da resposta dependerá da coordenação entre os Estados-membros. Medidas isoladas, como restrições ao comércio transfronteiriço ou políticas que aumentem o consumo de combustíveis, poderão agravar ainda mais a situação.
Dan Jørgensen apelou a uma atuação conjunta, defendendo que a União Europeia deve funcionar como um sistema único, com monitorização contínua do mercado e respostas coordenadas para conter a volatilidade.
A mensagem é clara: perante um cenário de incerteza crescente e risco de disrupção prolongada, a Europa precisa de agir rapidamente para garantir a segurança energética e evitar um novo choque económico.






