A futura regulamentação europeia sobre veículos em fim de vida útil poderá dificultar significativamente o acesso ao automóvel para quem tem menores rendimentos, ao tornar mais complexa — e potencialmente mais cara — a compra e venda de carros usados, avançou esta quinta-feira o ‘L’Automobile Magazine’.
A União Europeia está a preparar novas regras para reforçar a reciclagem automóvel e impedir a exportação de veículos considerados irrecuperáveis. O objetivo é garantir maior controlo sobre o ciclo de vida dos automóveis e reter matérias-primas dentro do espaço europeu.
No entanto, a publicação especializada alertou que esta reforma poderá ter efeitos colaterais relevantes no mercado de usados, nomeadamente ao exigir provas mais rigorosas de que um carro vendido não é considerado um veículo em fim de vida útil. Essa comprovação poderá passar por inspeções técnicas válidas ou avaliações independentes por especialistas.
Carros mais baratos podem desaparecer do mercado
Na prática, esta exigência poderá penalizar sobretudo os veículos mais antigos e acessíveis, muitas vezes vendidos por valores entre 1.500 e 3.000 euros. Estes carros, apesar de necessitarem de pequenas reparações, continuam a ser funcionais e representam uma solução viável para milhares de famílias.
Mais adiante no ‘L’Automobile Magazine’, é sublinhado que, para veículos de baixo valor, o custo de uma avaliação técnica pode não compensar economicamente. Como consequência, muitos destes automóveis poderão deixar de ser vendidos, não por estarem inutilizáveis, mas por se tornarem demasiado caros ou burocráticos de transacionar.
Menos oferta, preços mais altos
O setor automóvel teme que esta dinâmica reduza a oferta de carros usados mais baratos, provocando um aumento generalizado dos preços. Segundo Thomas Peckruhn, presidente da associação alemã ZDK, existe o risco de veículos ainda recuperáveis serem classificados prematuramente como sucata, saindo do mercado antes do tempo.
Este cenário poderá ter impacto direto no acesso à mobilidade, sobretudo num contexto em que o preço dos carros novos — incluindo elétricos — continua elevado. Para muitas famílias europeias, o mercado de usados não é uma alternativa, mas sim a única forma possível de ter carro.
Impacto social: carro pode tornar-se menos acessível
A questão deixa assim de ser apenas ambiental e passa a ter uma dimensão social. Com menos veículos acessíveis disponíveis, os consumidores com menores rendimentos poderão enfrentar maiores dificuldades em adquirir um automóvel, ficando mais dependentes de soluções mais caras ou limitadas.
Ao mesmo tempo, a idade média dos carros na Europa tem vindo a aumentar, o que demonstra a importância deste segmento para a mobilidade quotidiana. A eventual redução da oferta poderá agravar ainda mais as desigualdades no acesso ao transporte individual.
Entre ambiente e acessibilidade
Embora a intenção da União Europeia seja reforçar a economia circular e melhorar a rastreabilidade dos veículos, o equilíbrio entre sustentabilidade e acessibilidade levanta dúvidas no setor.
Além disso, a regulamentação poderá também introduzir novas exigências ligadas à cibersegurança e ao suporte digital ao longo do ciclo de vida dos veículos, o que poderá influenciar ainda mais o valor e a longevidade dos automóveis.
Para já, vários detalhes da proposta continuam em discussão, mas uma coisa parece clara: as novas regras poderão alterar profundamente o mercado de carros usados na Europa — e tornar mais difícil, sobretudo para quem tem menos recursos, o acesso a um automóvel.






