A nova escalada dos preços dos combustíveis – impulsionada pela tensão no Médio Oriente e pela instabilidade no mercado energético – voltou a colocar a energia no centro das preocupações económicas.
Depois de um aumento recorde nos últimos dias, os combustíveis voltam a subir em força na próxima semana, com previsões que apontam para aumentos na ordem dos dois dígitos por litro.
Para perceber o momento atual, é preciso olhar para a última década. Os números mostram que o preço pago pelos consumidores em Portugal tem sido moldado por três fatores principais: crises geopolíticas, oscilações do preço internacional do petróleo e decisões fiscais do Estado.
Entre 2016 e 2026, a evolução da gasolina e do gasóleo revela uma narrativa clara: um período de relativa estabilidade, um choque energético histórico em 2022 e uma reposição gradual dos impostos que voltou a aproximar os preços dos níveis anteriores à crise.
O período de estabilidade antes das grandes turbulências
Entre 2016 e 2018, o sistema fiscal sobre os combustíveis em Portugal manteve-se relativamente estável.
O Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP) da gasolina situava-se num patamar elevado, variando aproximadamente entre 0,51895 e 0,57895 euros por litro em 2016, estabilizando depois perto de 0,55 euros por litro em 2017 e 2018.
Nos anos seguintes registou-se uma descida moderada. Entre 2019 e 2021, o ISP da gasolina estabilizou em cerca de 0,52664 euros por litro, um nível ainda elevado, mas ligeiramente inferior ao registado no início da década.
O gasóleo manteve sempre um imposto inferior. Entre 2016 e 2021, o ISP deste combustível situou-se aproximadamente na zona dos 0,34 euros por litro, consolidando uma diferença fiscal estrutural entre os dois combustíveis.
Essa diferença mantém-se até hoje.
Em 2026, por exemplo, o ISP da gasolina situa-se em 0,49752 €/l, enquanto o do gasóleo é de 0,36160 €/l, uma diferença de cerca de 13,6 cêntimos por litro.


2022: o ano em que o mercado energético entrou em choque
A verdadeira rutura na série histórica surge em 2022.
O mercado energético global enfrentou uma das maiores turbulências das últimas décadas e os preços dos combustíveis reagiram com subidas semanais sem precedentes.
As maiores subidas registadas na última década concentram-se quase todas nesse período.
No caso da gasolina simples, a maior subida ocorreu a 10 de outubro de 2022, quando o preço aumentou 12,44 cêntimos por litro numa única semana.
Outras semanas do mesmo ano registaram aumentos igualmente expressivos:
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+11,59 cêntimos a 6 de junho de 2022
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+11,09 cêntimos a 14 de março de 2022
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+10,01 cêntimos a 28 de março de 2022
O gasóleo apresentou oscilações ainda mais violentas.
A maior subida semanal da década aconteceu a 14 de março de 2022, com um aumento de 16,68 cêntimos por litro.
Seguiram-se aumentos igualmente significativos:
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+14,86 cêntimos a 28 de março de 2022
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+13,74 cêntimos a 7 de março de 2022
A intervenção do Estado e a queda abrupta do imposto
Perante esta escalada histórica, o Governo decidiu reduzir temporariamente o ISP para aliviar a pressão sobre consumidores e empresas.
Na gasolina, o imposto caiu de 0,50664 euros por litro para 0,31314 euros por litro, uma redução de 0,19350 euros por litro, equivalente a cerca de 38%.
No gasóleo, a redução foi ainda mais profunda. O ISP desceu de cerca de 0,33 euros por litro para aproximadamente 0,13 euros por litro, uma descida próxima de 60%.
Foi uma medida excecional que marcou claramente 2022 como um dos anos mais turbulentos da história recente dos combustíveis em Portugal.
A reposição gradual dos impostos
Depois do período mais agudo da crise energética, iniciou-se um processo de reposição gradual do imposto.
Em 2023, o ISP da gasolina voltou rapidamente para níveis próximos da normalidade. No início do ano situava-se em 0,47164 €/l, descendo ligeiramente ao longo do ano até 0,45036 €/l.
Em 2024, manteve-se praticamente inalterado nesse valor.
Nos anos seguintes voltou a subir:
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2025: 0,48126 €/l
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2026: 0,49752 €/l
Desde o mínimo registado durante a crise de 2022, o ISP da gasolina recuperou 0,18438 euros por litro, quase anulando a redução extraordinária aplicada durante o choque energético.
O impacto direto no preço pago pelos consumidores
Cada variação no imposto tem impacto direto no preço final dos combustíveis.
Um aumento de 0,01 euros por litro no ISP traduz-se normalmente em cerca de 1,2 cêntimos adicionais no preço final, devido à aplicação do IVA sobre o imposto.
Entre 2024 e 2026, por exemplo, o imposto sobre a gasolina subiu de 0,45036 para 0,49752 euros por litro, uma diferença de 0,04716 €/l.
Na prática, isto representa cerca de 4,7 cêntimos adicionais por litro para os consumidores.
Num depósito de 50 litros, o impacto corresponde a cerca de 2,36 euros a mais.
O peso dos impostos no preço final
Apesar de as oscilações do preço internacional do petróleo explicarem grande parte das variações nos combustíveis, a fiscalidade continua a ter um peso significativo.
Além do ISP, o preço final inclui também IVA a 23% e a taxa de carbono.
Com valores aproximados de:
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1,70 euros por litro para a gasolina
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1,63 euros por litro para o gasóleo
em 2026, o ISP representa cerca de 29% do preço da gasolina e aproximadamente 22% do preço do gasóleo.
Nova escalada volta a pressionar os preços
Com o aumento das tensões no Médio Oriente e a instabilidade no mercado energético global, os combustíveis voltam agora a entrar num novo ciclo de incerteza.
A história recente mostra que sempre que ocorre um choque geopolítico – como aconteceu em 2022 – o impacto chega rapidamente ao preço pago nas bombas.
Mesmo quando os impostos são temporariamente reduzidos, o principal motor das grandes oscilações continua a ser o mercado internacional do petróleo.
E quando esse mercado entra em turbulência, o efeito acaba inevitavelmente por chegar ao bolso dos consumidores.







