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O carro é elétrico, mas o preço do extra parece de combustão: Porsche cobra 109 mil euros por kit de pista

Automonitor

A pergunta é inevitável: o que pode existir num extra de mais de 100 mil euros para um elétrico?

Há extras caros. E depois há uma opção para um carro elétrico que custa praticamente tanto como outro Porsche Taycan novo. A Porsche passou para a Taycan Turbo GT o kit Manthey, até aqui mais associado aos modelos de combustão, sobretudo à 911 GT3 RS, e criou uma das opções mais exclusivas — e difíceis de justificar — do catálogo elétrico da marca.

O valor, avançado pela ‘L’Automobile Magazine’, impressiona por si só: em França, o kit Manthey para a Taycan Turbo GT custa 109.816 euros. É mais do que o preço de entrada de uma Taycan nova. Com esta opção instalada, a berlina elétrica da Porsche ultrapassa os 357 mil euros.

A pergunta é inevitável: o que pode existir num extra de mais de 100 mil euros para um elétrico?

A resposta começa no carbono. Muito carbono. O kit Manthey acrescenta um novo difusor dianteiro com afinação da força descendente, flaps laterais, lâmina dianteira em carbono visível, entradas de ar junto às cavas das rodas e lâminas laterais. Não são apenas peças decorativas para o habitáculo. São componentes estruturais, feitos em pequena série, com acabamento visual rigoroso e produzidos com muita intervenção manual.

Esse detalhe ajuda a explicar parte do preço. O carbono estrutural exige mão de obra qualificada, tempo e precisão. Não basta que a peça funcione: num Porsche deste nível, também tem de parecer perfeita. O alinhamento das fibras, o recorte e o acabamento contam quase tanto como a função aerodinâmica.

A traseira também muda. O banco traseiro desaparece e dá lugar a um espaço específico em carbono para guardar capacetes. A mensagem é clara: esta Taycan não foi pensada para levar a família ao jantar. Foi afinada para quem quer levar um elétrico de mais de 1.000 cv para circuito.

A Porsche trabalhou ainda as suspensões, instalou jantes ultraleves de 21 polegadas e travões compósitos específicos. Tudo foi orientado para maximizar a eficácia em pista, melhorar a aderência e extrair mais desempenho de uma berlina que já era, por si só, extrema.

Há também alterações no grupo motopropulsor. No modo ‘Attack’, a Porsche conseguiu ganhar até 41 cv adicionais, aumentando a amperagem máxima de saída da bateria para 1.300 A, contra 1.100 A na Taycan Turbo GT convencional.

Para apresentar o kit, a marca levou a Taycan Turbo GT equipada com o pacote Manthey ao Nürburgring e conseguiu um novo recorde. É o tipo de argumento que a Porsche domina: transformar uma opção caríssima num número de circuito, e um número de circuito numa peça de comunicação global.

Ainda assim, a comparação deixa perguntas. Segundo a ‘L’Automobile Magazine’, o mesmo kit Manthey custa cerca de 30 mil euros menos na 911 GT3 RS. A Taycan recebe peças específicas, materiais caros e desenvolvimento próprio, mas a diferença continua a ser difícil de ignorar.

O caso também mostra como a eletrificação não tornou automaticamente os carros de luxo mais baratos. Em teoria, um elétrico tem menos peças do que um automóvel com motor de combustão. Na prática, entre baterias, potência, eletrónica, materiais leves e opções de performance, os preços no topo do mercado continuam a subir.

A Porsche Taycan vive ainda outro paradoxo. A berlina elétrica tem perdido força em alguns mercados importantes para os elétricos premium, mas recebe agora uma opção ultrarrara, ultracara e feita para clientes que procuram precisamente o contrário da racionalidade: exclusividade, tempo em pista e a sensação de ter algo que quase ninguém mais terá.

É possível achar o preço desmedido. Mas também é isso que este kit vende. Não apenas carbono, travões, jantes ou mais 41 cv. Vende a ideia de que um elétrico também pode entrar no território quase absurdo dos extras de seis dígitos — aquele lugar onde a lógica já não é transporte, mas estatuto, coleção e cronómetro.