Parece uma ideia retirada de um filme de James Bond: alguma coisa corre mal, ativa-se um comando e uma parte do veículo é ejetada.
Só que, desta vez, ninguém sai disparado do automóvel. É a bateria que sai.
A Stellantis registou nos EUA uma patente para um sistema capaz de desligar e libertar fisicamente a bateria de alta tensão de um automóvel elétrico caso esta esteja a sobreaquecer, numa tentativa de afastar do veículo um dos problemas mais difíceis de controlar quando ocorre numa bateria de iões de lítio: a fuga térmica.
A solução descrita pela fabricante de marcas como Jeep, Dodge, Chrysler, Fiat, Peugeot, Citroën ou Opel chega ao ponto de prever mecanismos de libertação rápida e até elementos pirotécnicos para separar a bateria do automóvel.
E há um detalhe particularmente curioso: depois de largar a bateria, o carro ainda poderia afastar-se dela pelos próprios meios.
A ideia é simples: se a bateria é o problema, afaste-a do carro
A patente, publicada pelo United States Patent and Trademark Office (USPTO), descreve um sistema de “ejeção” para a bateria de tração de um veículo eletrificado.
A lógica parte de um cenário extremo. Uma bateria de iões de lítio pode entrar num processo conhecido como fuga térmica, no qual o aumento descontrolado da temperatura numa célula pode propagar-se às restantes.
Uma vez iniciado, o processo pode tornar um incêndio particularmente difícil de controlar.
Em vez de tentar apenas conter o problema dentro do automóvel, a proposta da Stellantis explora uma abordagem diferente: separar fisicamente a bateria do resto do veículo.
Um botão, uma alavanca ou até o ecrã
Segundo a documentação da patente, o sistema poderia ser ativado pelo condutor através de diferentes comandos. A Stellantis contempla uma alavanca, um botão físico, um interruptor ou até um controlo através do ecrã do automóvel.
Recebida a ordem, um controlador desligaria eletricamente a bateria de alta tensão antes de acionar o mecanismo destinado a libertá-la fisicamente do veículo.
E é nesta parte que a patente se torna particularmente invulgar.
Entre as soluções descritas estão estruturas que permitiriam à bateria deslizar para fora do automóvel e dispositivos de fixação pirotécnicos capazes de se separar rapidamente para libertar o conjunto.
Em termos simples: o automóvel poderia literalmente deixar a sua bateria para trás.
Mas depois o elétrico fica imóvel ao lado de uma bateria em risco?
Seria o problema mais óbvio. Retirar uma bateria em sobreaquecimento debaixo do automóvel teria utilidade limitada se os ocupantes continuassem imediatamente ao lado dela dentro de um veículo sem energia para se deslocar.
A Stellantis também pensou nisso.
A patente prevê a utilização de uma segunda bateria, de baixa tensão, que poderia fornecer energia suficiente ao sistema de propulsão para permitir que o automóvel percorresse uma curta distância depois de a bateria principal ter sido desligada e libertada.
O objetivo seria criar separação entre o veículo — e os seus ocupantes — e a bateria potencialmente perigosa.
Há um problema bastante grande: onde fica a bateria?
É também aqui que uma ideia tecnicamente interessante começa a enfrentar o mundo real.
Uma bateria de tração pode pesar centenas de quilos. E uma bateria suficientemente quente para justificar uma ejeção não é exatamente um objeto que se queira abandonar no meio de uma estrada.
A utilização de um sistema deste género teria, portanto, de resolver questões importantes: quando poderia ser ativado, onde poderia a bateria ser libertada e como impedir que a solução para proteger os ocupantes criasse um novo perigo para outros condutores, peões ou propriedades próximas.
A própria existência da patente não significa que a Stellantis tenha decidido colocar o sistema nos seus automóveis.
Uma patente não significa que o seu próximo Jeep vá fazer isto
Os fabricantes automóveis registam regularmente patentes para proteger ideias e soluções técnicas que nunca chegam à produção.
Este caso não é diferente. A documentação mostra que a Stellantis estudou e procurou proteger juridicamente o conceito, não que tenha anunciado um modelo de produção equipado com uma bateria ejetável.
Também não significa que os incêndios sejam uma ocorrência normal nos automóveis elétricos.
A questão relevante está na dificuldade específica que uma bateria em fuga térmica pode colocar aos meios de emergência quando um incidente efetivamente acontece.
E a Stellantis não é a primeira a imaginar que, perante esse cenário, talvez a solução mais radical seja simplesmente afastar a bateria do automóvel.
Na China já foram demonstrados conceitos que exploram precisamente a ejeção rápida de baterias perante uma emergência.
Parece ficção científica. Mas a patente existe
É pouco provável que alguém compre um elétrico nos próximos meses e encontre no tablier um botão vermelho com a inscrição “EJETAR BATERIA”.
Mas a patente mostra até onde os fabricantes estão dispostos a levar a procura de soluções para um dos cenários mais complexos associados às baterias de alta tensão.
A ideia é simultaneamente simples e extraordinária: se não conseguir afastar rapidamente os ocupantes de uma bateria em risco, afaste a bateria dos ocupantes.
Se algum dia chegar à produção, restará resolver uma questão nada pequena. Onde deixar, em segurança, centenas de quilos de bateria acabados de ser ejetados de um automóvel?






