Os carros usados importados continuam a ganhar peso no mercado português, mas os dados da ‘carVertical’ mostram que essa opção pode trazer riscos acrescidos para os compradores. Entre janeiro de 2025 e março de 2026, 55,4% dos veículos importados verificados em Portugal apresentavam registo de danos, face a 25,3% dos carros usados nacionais. Ou seja, os importados tinham 2,2 vezes mais probabilidade de apresentar histórico de danos.
A análise surge num contexto em que mais de metade dos carros verificados pela ‘carVertical’ em Portugal eram provenientes do estrangeiro. Ao todo, 56,5% dos veículos analisados no mercado nacional tinham origem externa, uma proporção muito próxima da registada em Espanha, onde os importados representaram 56,6% das verificações.
Segundo a empresa especializada em dados automóveis, a ausência de um sistema europeu unificado de partilha de informação sobre veículos cria uma zona cinzenta para quem compra usados importados. Muitos registos de danos não são digitalizados ou ficam bloqueados em bases de dados nacionais, fazendo com que um automóvel possa chegar a outro país com um histórico incompleto ou aparentemente limpo.
“Os países têm leis de proteção de dados diferentes. Ao não existir um sistema unificado que garanta que o histórico de um carro importado esteja acessível a todos os condutores, a qualidade dos veículos usados sofre. Ao importar um carro para outro país, o histórico do veículo é muitas vezes reiniciado: os defeitos são ocultados e a quilometragem é adulterada”, afirma Matas Buzelis, especialista em mercado automóvel da ‘carVertical’.
O risco não se limita aos danos estruturais. A ‘carVertical’ recorda que, em estudos anteriores sobre fraude no conta-quilómetros, os veículos importados surgem como duas a cinco vezes mais propensos a terem quilometragem adulterada do que os veículos nacionais. Para os compradores, isto aumenta a exposição a transações menos transparentes e torna mais difícil avaliar o verdadeiro estado do automóvel.
A empresa alerta ainda que carros danificados no estrangeiro podem ser reparados com peças mais baratas ou não originais antes de serem revendidos. Mesmo quando apresentam bom aspeto exterior e preço competitivo, estes veículos podem esconder problemas relevantes, incluindo danos estruturais com impacto potencial na segurança.
“Os carros importados são sempre uma compra mais arriscada. Particulares e empresas envolvidos no comércio automóvel compram frequentemente veículos sinistrados e reparam-nos da forma mais barata possível para os voltar a vender. A alta proporção de danos entre veículos importados significa que o risco de adquirir um carro com defeito está longe de ser negligenciável”, sublinha Buzelis.
A transparência é uma prioridade clara para os consumidores. Num inquérito realizado pela ‘carVertical’ a 14 mil condutores em 22 países europeus, 92,2% dos compradores defenderam que os vendedores devem ser obrigados a revelar qualquer sinistro anterior. Além disso, 75,6% disseram preferir um carro sem histórico de danos, enquanto apenas 9,6% apontaram o preço como o critério mais importante.
A gravidade dos danos é outro fator decisivo. Segundo o estudo, 60,7% dos condutores não comprariam um carro que tivesse sofrido um acidente grave, mesmo que estivesse visualmente em bom estado. Ao mesmo tempo, 63,9% admitiram estar dispostos a pagar mais por um veículo se pudessem ter a garantia de que nunca sofreu um acidente. Para 86,7% dos inquiridos, a gravidade dos danos anteriores é extremamente importante.
Para a ‘carVertical’, estes dados mostram uma contradição no mercado europeu de usados: os compradores exigem mais transparência, mas o acesso a dados técnicos sobre veículos continua limitado por diferentes interpretações legais e pela falta de harmonização entre países.
“A ironia disso é que, embora os consumidores exijam mais transparência, a atual leitura do RGPD cria obstáculos para as empresas que a tentam disponibilizar. Definições vagas de interesse legítimo obrigam as empresas a passar por um dispendioso labirinto legal, país a país, para provar que o tratamento de dados é legítimo. Um acesso mais aberto a dados técnicos despersonalizados sobre os veículos europeus eliminaria estas barreiras, fomentaria a inovação e daria aos consumidores a proteção que claramente exigem”, explica Buzelis.
A ‘carVertical’ opera em 37 países europeus, bem como nos EUA, México e Austrália, recolhendo informação de mais de mil registos e bases de dados em todo o mundo para produzir relatórios históricos de veículos usados.






