Houve um tempo em que o Dakar começava em Lisboa, atravessava Portugal perante milhares de espectadores e seguia em direção às dunas africanas. Aconteceu em 2006 e 2007, mas a terceira partida, prevista para 2008, nunca chegou a realizar-se. Agora, duas décadas depois, a maior aventura do todo-o-terreno mundial prepara-se para voltar ao país. E esta é uma história que merece ser recordada.
O anúncio do regresso, feito pela Amaury Sport Organisation (ASO), responsável pela competição, recuperou um capítulo especial do desporto motorizado português. Em janeiro de 2027, o Algarve será o ponto de partida da 49.ª edição do Dakar, numa ligação a Marrocos que assinalará também o regresso da prova ao continente africano.
Segundo o historial oficial da organização, a relação entre Portugal e o Dakar começou com duas edições que levaram a competição até Lisboa e mobilizaram centenas de milhares de adeptos.
Pelo meio houve vitórias portuguesas, máquinas improváveis, algumas das maiores figuras do todo-o-terreno mundial e um cancelamento que mudaria para sempre o percurso da prova.
2006: o dia em que Lisboa abriu as portas ao Dakar
A 31 de dezembro de 2005, enquanto Portugal se preparava para celebrar a passagem de ano, a Praça do Império, em Lisboa, transformava-se no centro mundial do todo-o-terreno.
Era o início do Lisboa-Dakar 2006, a 28.ª edição da competição e a primeira com partida da capital portuguesa.
Centenas de motos, automóveis e camiões concentraram-se junto ao Mosteiro dos Jerónimos, perante uma multidão que queria ver de perto as máquinas destinadas a atravessar alguns dos terrenos mais exigentes do planeta.
A caravana percorreu depois território nacional, com duas especiais cronometradas antes de seguir para Espanha e, posteriormente, para África.
A primeira etapa ligou Lisboa a Portimão, enquanto a segunda, disputada no primeiro dia de 2006, marcou a despedida dos concorrentes de Portugal.
O entusiasmo foi enorme. De acordo com o AutoSport, mais de 300 mil pessoas acompanharam a passagem do Dakar pelo país. Entre elas esteve Jorge Sampaio, então Presidente da República, que marcou presença na partida.
Mas Portugal não se limitou a assistir.
Rúben Faria venceu a segunda etapa nas motos, proporcionando um dos momentos mais memoráveis daquela estreia. Para os adeptos portugueses, foi a demonstração de que os pilotos nacionais também podiam brilhar perante os maiores nomes da modalidade.
A competição prosseguiu até ao Senegal, onde o francês Luc Alphand conquistou a vitória nos automóveis, ao volante de um Mitsubishi, enquanto o espanhol Marc Coma triunfou nas motos, com uma KTM.
O Dakar tinha passado por Portugal e deixado uma marca difícil de esquecer.
2007: o Dakar voltou a Lisboa e a festa repetiu-se
O sucesso da estreia abriu caminho a uma segunda partida consecutiva.
A 6 de janeiro de 2007, Lisboa voltou a receber a caravana do Dakar, desta vez para a 29.ª edição da prova.
Segundo os registos oficiais da organização, alinharam à partida 231 motos, 14 quads, 181 automóveis e 85 camiões.
O cenário era familiar: a Praça do Império, os concorrentes preparados para enfrentar milhares de quilómetros e os adeptos portugueses a acompanhar de perto uma competição que, habitualmente, apenas conheciam através da televisão.
Entre os protagonistas estavam nomes como Stéphane Peterhansel, Carlos Sainz, Cyril Despres e Carlos Sousa.
E os portugueses voltaram a dar motivos para celebrar.
Carlos Sousa terminou o Dakar na sétima posição da classificação geral dos automóveis, enquanto Hélder Rodrigues alcançou um notável quinto lugar nas motos.
A edição ficou também marcada pela nona vitória de Stéphane Peterhansel, que já tinha conquistado seis triunfos nas motos e somou então o terceiro nos automóveis, ao volante de um Mitsubishi.
Nas duas rodas, Cyril Despres venceu com uma KTM.
Houve ainda espaço para uma das histórias mais curiosas daquele ano: a Fiat decidiu levar dois Panda preparados para enfrentar o deserto africano.
O projeto, conhecido como Pandakar, pretendia demonstrar as capacidades dos pequenos automóveis em condições extremas. A aventura, contudo, terminou prematuramente em Marrocos.
Para Portugal, o balanço parecia confirmar uma relação de sucesso. Lisboa tinha recebido duas partidas consecutivas e preparava-se para repetir a experiência.
Só que a terceira seria completamente diferente.
2008: o Dakar estava pronto para arrancar, mas foi cancelado na véspera
Imagine centenas de concorrentes, equipas de assistência e veículos de competição concentrados em Lisboa, com tudo preparado para uma aventura de milhares de quilómetros.
E, de repente, a organização anunciar que ninguém vai partir.
Foi precisamente isso que aconteceu em janeiro de 2008.
A capital portuguesa preparava-se para receber, pelo terceiro ano consecutivo, o arranque do Dakar. A partida estava marcada para 5 de janeiro e teria um significado especial: seria a 30.ª edição da competição.
Os concorrentes já se encontravam em Lisboa, onde decorriam as verificações técnicas e administrativas.
Mas, a 4 de janeiro, a organização anunciou uma decisão sem precedentes: o Dakar estava cancelado.
A razão foi a deterioração das condições de segurança na Mauritânia, país que integrava o percurso da prova.
Segundo o historial oficial do Dakar, o cancelamento ocorreu depois do assassinato de quatro cidadãos franceses e três militares mauritanos, num contexto de ameaças terroristas que levaram as autoridades francesas a desaconselhar deslocações à região.
A organização considerou que não estavam reunidas as condições necessárias para garantir a segurança dos participantes.
A decisão deixou centenas de concorrentes sem prova e transformou Lisboa no cenário de um dos episódios mais inesperados da história do Dakar.
Os motores que deveriam partir em direção a África ficaram parados.
E aquela seria, afinal, a última vez que Portugal se prepararia para receber o início da competição durante quase duas décadas.
O cancelamento em Lisboa mudou o futuro do Dakar
O que aconteceu em 2008 teve consequências muito para além de Portugal.
Perante os problemas de segurança associados ao percurso africano, a organização decidiu procurar uma alternativa.
Em 2009, o Dakar mudou-se para a América do Sul, onde encontrou novos desertos, montanhas e desafios, passando por países como a Argentina, o Chile, o Peru e a Bolívia ao longo das diferentes edições.
A competição permaneceu naquele continente até 2019.
Em 2020, voltou a mudar de cenário, desta vez para a Arábia Saudita, que passou a receber a prova.
O nome Dakar, contudo, nunca desapareceu.
Apesar de a competição já não terminar na capital do Senegal, a designação manteve-se como símbolo de uma das aventuras mais exigentes do desporto motorizado.
Portugal continuou a ter pilotos e equipas presentes na prova, mas deixou de assistir às partidas que tinham transformado Lisboa num ponto de encontro dos apaixonados pelo todo-o-terreno.
Até que surgiu o anúncio de 2027.
2027: o Dakar regressa a Portugal, mas desta vez a aventura começa no Algarve
O regresso acontecerá 20 anos depois da última partida efetivamente realizada em território português.
Desta vez, o cenário será diferente.
Em vez de Lisboa, será o Algarve a receber o início da competição, com o Estádio Algarve, na zona de Faro e Loulé, a servir de centro de operações.
Segundo a ASO e o Automóvel Club de Portugal (ACP), as primeiras atividades decorrerão a partir de 5 de janeiro, incluindo verificações técnicas, testes e preparativos para a partida.
O prólogo está marcado para 9 de janeiro, enquanto a primeira etapa será disputada no dia seguinte, com passagem pelo Algarve e Baixo Alentejo.
Depois, a caravana seguirá para Marrocos, onde decorrerá a maior parte da competição.
A 49.ª edição terá um prólogo e 12 etapas, num percurso de 7.824 quilómetros, dos quais 4.341 serão cronometrados.
A chegada está prevista para 23 de janeiro, em Marraquexe, depois de uma travessia que levará os concorrentes a diferentes regiões marroquinas e incluirá um dia de descanso em Agadir.
A alteração de percurso resulta da situação de segurança na Arábia Saudita, que levou a organização a transferir excecionalmente a edição de 2027 para Portugal e Marrocos.
O regresso ao território saudita está previsto para 2028, quando a competição celebrará a sua 50.ª edição.
As datas anunciadas para 2027 permanecem sujeitas à aprovação do Conselho Mundial do Desporto Automóvel da Federação Internacional do Automóvel (FIA).
Duas partidas, uma terceira que nunca aconteceu e uma história que ainda não terminou
Para quem esteve nas estradas portuguesas em 2006 e 2007, o regresso do Dakar será também um reencontro com memórias de uma época em que Lisboa era o ponto de partida para uma aventura que terminava do outro lado do deserto.
Para os mais novos, será a oportunidade de ver de perto as máquinas, os pilotos e as equipas que fazem desta competição uma das mais exigentes do mundo.
Mas há um detalhe que torna este regresso particularmente simbólico.
Em 2006, Portugal recebeu o Dakar pela primeira vez. Em 2007, repetiu a experiência. Em 2008, tudo estava preparado para uma terceira partida, mas a competição foi cancelada antes de começar.
Agora, 20 anos depois da última edição disputada em solo português, o Dakar regressa ao país e volta também a África.
E, desta vez, a história começará no Algarve.
O Dakar está de regresso a Portugal e a Automonitor já acompanhou os principais desenvolvimentos desta história. Descubra todos os detalhes da partida confirmada para o Algarve e Baixo Alentejo em 2027 e recorde como a saída da Arábia Saudita abriu caminho ao regresso da prova ao nosso país.






