O comércio internacional de veículos usados está a revelar riscos cada vez mais graves para os compradores europeus, com organizações criminosas a serem investigadas por recuperarem carros declarados como perda total fora da União Europeia e por os reintroduzirem no mercado europeu com reparações superficiais, noticia o ‘El Economista’.
Em causa estão veículos gravemente danificados, muitos deles importados dos Estados Unidos, que terão sido vendidos na Europa com o histórico real ocultado. O risco não é apenas financeiro: as autoridades documentaram casos de automóveis com danos estruturais graves, sistemas de segurança adulterados e até airbags em falta.
A operação internacional “Nimmersatt”, conduzida com a participação da Procuradoria Europeia e apoio da Europol, mobilizou mais de 1.000 polícias, agentes alfandegários e fiscais entre abril de 2025 e fevereiro de 2026. A investigação permitiu desmantelar uma organização criminosa internacional especializada na importação de carros severamente danificados dos Estados Unidos.
Estes veículos eram alvo de reparações superficiais antes de serem revendidos no mercado europeu. O problema, segundo as autoridades, é que os compradores desconheciam completamente o passado dos automóveis, incluindo acidentes graves e danos que poderiam comprometer a segurança rodoviária.
Carros sem airbags e com danos estruturais
A investigação identificou veículos com danos estruturais relevantes provocados por acidentes, sistemas de segurança manipulados e airbags ausentes, depois de terem sido acionados em colisões anteriores.
Na prática, tratava-se de automóveis que tinham sido considerados perda total por seguradoras americanas, mas que, depois de atravessarem o Atlântico, voltavam a aparecer à venda na Europa com uma aparência suficientemente recuperada para iludir muitos compradores.
A dimensão do fenómeno é significativa. De acordo com a CarFax, especialista em histórico de veículos citada pelo ‘El Economista’, quase 303.000 veículos usados foram exportados dos Estados Unidos para a Europa em 2024. Desse total, cerca de 220.000 tinham sido declarados perda total por seguradoras americanas.
Como estes carros não podiam ser novamente registados nos Estados Unidos, eram alvo de reparações ligeiras e colocados no mercado europeu. Só a Lituânia terá recebido 16.500 destes veículos americanos.
Certificados falsos e inspeções sob suspeita
Um dos pontos mais preocupantes é que muitos destes automóveis chegaram a circular com certificados europeus de inspeção técnica, apesar do histórico de danos. Na Alemanha, as autoridades documentaram mais de 30 casos em que profissionais do setor emitiram relatórios falsos.
Vários inspetores de centros de inspeção técnica foram condenados por crimes ligados a suborno e falsificação de documentos, tendo recebido penas de prisão.
O caso mostra como a fraude no mercado de usados pode ultrapassar a simples ocultação de quilometragem ou de acidentes anteriores. Quando um carro com danos estruturais graves ou sistemas de segurança comprometidos recebe documentação aparentemente válida, o comprador perde a capacidade de avaliar o risco real.
O que devem fazer os compradores?
Para quem compra um usado importado, a principal recomendação é verificar o histórico do veículo com o máximo detalhe possível. Saber se o automóvel foi declarado perda total, se esteve envolvido num acidente grave ou se passou por diferentes países antes de chegar ao stand pode ser decisivo.
A documentação de inspeção técnica, embora importante, pode não ser suficiente. O caso investigado pelas autoridades europeias mostra que até certificados oficiais podem ser falsificados ou obtidos através de práticas corruptas.
Na compra de um usado, sobretudo importado dos Estados Unidos ou de mercados com regras diferentes das europeias, deve haver atenção redobrada a sinais de reparação estrutural, substituição de airbags, desalinhamentos, histórico de leilão, registos de seguradoras e eventuais diferenças entre o estado real do veículo e a documentação apresentada.
O risco para o comprador é duplo. Por um lado, pode pagar por um carro cujo valor real é muito inferior ao anunciado. Por outro, pode circular num veículo que já não oferece o nível de proteção esperado em caso de novo acidente.
O mercado europeu de usados tornou-se mais internacional, mas também mais vulnerável a esquemas complexos. E, neste caso, a aparência de um carro reparado pode esconder precisamente aquilo que mais importa: se continua a ser seguro.






