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Elétricos chineses desvalorizam quase o dobro, revela estudo: o preço baixo pode sair caro no leasing

Automonitor

No início de 2024, os elétricos e híbridos plug-in chineses ainda mantinham, em média, 61% do seu valor inicial. Em pouco mais de dois anos, perderam quase 14 pontos percentuais

Os carros elétricos e híbridos plug-in de marcas chinesas continuam a ganhar terreno na Europa, mas enfrentam um problema que pode pesar cada vez mais nas decisões de compra e de renting: a forte desvalorização em segunda mão. De acordo com dados da ‘Deutsche Automobil Treuhand’ citados pelo ‘Motor1’, estes modelos conservavam, em abril de 2026, apenas 47% do preço original de catálogo na Alemanha.

A diferença é significativa. No início de 2024, os elétricos e híbridos plug-in chineses ainda mantinham, em média, 61% do seu valor inicial. Em pouco mais de dois anos, perderam quase 14 pontos percentuais. No restante mercado elétrico, a queda foi bastante menor, de cerca de sete pontos no mesmo período.

A questão é particularmente sensível porque não afeta apenas o mercado de usados. A chamada ‘valor residual’ é um dos elementos centrais no cálculo das mensalidades de leasing e renting. Quanto menor for o valor esperado do automóvel no fim do contrato, maior tende a ser o risco financeiro para fabricantes, locadoras e clientes.

A confiança ainda pesa mais do que o produto

O problema não está necessariamente na qualidade dos carros. Muitas marcas chinesas têm chegado à Europa com modelos competitivos, bem equipados, tecnologicamente avançados e, em vários casos, com preços agressivos.

Mas, segundo Martin Weiss, responsável pela avaliação de veículos na DAT, lançar um bom automóvel não basta. É preciso criar as condições certas à volta da marca. Ou seja, rede de assistência, disponibilidade de peças, estabilidade comercial, notoriedade e confiança do consumidor.

É aqui que muitas marcas chinesas ainda enfrentam resistência na Europa. O ‘DAT Report 2026’ indica que quase metade dos inquiridos na Alemanha espera que várias marcas chinesas abandonem o mercado nos próximos cinco anos. Essa perceção alimenta dúvidas sobre assistência pós-venda, peças, garantia e capacidade de preservar valor a longo prazo.

Para quem compra um carro, esta incerteza pode ser desconfortável. Para quem financia, aluga ou coloca centenas de viaturas em frota, torna-se um problema económico concreto.

Porque isto afeta o leasing?

No leasing, a prestação mensal depende em grande parte do valor que se espera que o carro tenha no final do contrato. Se uma viatura nova custa 40 mil euros e se prevê que valha muito menos passados três ou quatro anos, essa perda tem de ser refletida no preço pago ao longo do contrato.

Por isso, uma marca com baixa confiança no mercado de usados pode acabar por ter mensalidades mais altas, mesmo que o preço inicial do carro seja competitivo.

Christian Schüssler, dirigente da Arval Alemanha, descreve a questão do valor residual como um “problema de confiança”. Sem procura consistente no mercado de usados, torna-se difícil sustentar cotações estáveis.

A reação das empresas de leasing tem sido mais prudente. Muitas estão a aumentar rendas ou a usar valores residuais mais conservadores para reduzir o risco. Na prática, isso pode tornar alguns modelos chineses menos competitivos no renting e no leasing, apesar do preço de entrada mais baixo.

O efeito das frotas e dos contratos curtos

Há outro fator a pressionar a desvalorização: a forte presença de carros chineses em canais de curto prazo, como frotas empresariais, rent-a-car e serviços por subscrição.

Estes veículos regressam rapidamente ao mercado de usados, muitas vezes com quilometragem elevada e históricos de manutenção menos completos. Quando muitos carros semelhantes entram no mercado ao mesmo tempo, a pressão sobre os preços aumenta.

Este fenómeno não é exclusivo das marcas chinesas, mas pode ser mais penalizador para construtores que ainda estão a construir reputação na Europa. Se a confiança é limitada e a oferta em segunda mão cresce depressa, a desvalorização tende a acelerar.

A ‘China speed’ também pode jogar contra as marcas

A velocidade de desenvolvimento das marcas chinesas tem sido uma das suas maiores vantagens. Novos modelos, novas baterias, mais autonomia, mais tecnologia e atualizações frequentes chegam ao mercado a um ritmo muito superior ao de muitos fabricantes tradicionais.

Mas essa ‘China speed’ também tem um lado menos favorável. Quando uma marca renova a gama demasiado depressa, os modelos anteriores podem parecer ultrapassados em pouco tempo. Isso prejudica o valor em segunda mão e cria dúvidas adicionais para quem compra hoje.

Para os consumidores, a promessa de tecnologia rápida é atrativa. Para o mercado de usados, pode ser um risco: o carro que parece avançado no momento da compra pode perder interesse rapidamente quando surge uma versão mais recente, com melhor bateria, mais autonomia ou software atualizado.

O que isto significa para a Europa?

A queda do valor residual não significa que os carros chineses estejam condenados no mercado europeu. Pelo contrário, várias marcas poderão consolidar-se nos próximos anos, ganhar rede, aumentar notoriedade e provar fiabilidade junto dos consumidores.

Se isso acontecer, a confiança poderá melhorar e a desvalorização tenderá a estabilizar. Mas, por agora, o mercado alemão mostra que preço baixo e tecnologia forte não chegam para conquistar o fator mais difícil: confiança a longo prazo.

Para empresas de leasing, gestores de frota e compradores particulares, a pergunta deixa de ser apenas quanto custa o carro novo. Passa a ser quanto valerá quando chegar a altura de o vender.