A China prepara novas regras de segurança para carros elétricos, num mercado onde já circulam cerca de 44 milhões de veículos deste tipo. A partir de julho, os fabricantes terão de cumprir duas novas normas destinadas a reduzir o risco de incêndios em baterias e a facilitar a intervenção dos serviços de emergência em caso de acidente, avança o ‘L’Automobile Magazine’.
A medida surge depois de vários incêndios envolvendo carros elétricos terem recebido forte atenção mediática no país. Embora os veículos elétricos não sejam, em termos estatísticos, mais propensos a incêndios do que os modelos com motor de combustão, os fogos em baterias de alta tensão são mais difíceis de extinguir e levantam preocupações específicas para bombeiros, condutores e seguradoras.
A primeira mudança será visível dentro do habitáculo. A nova regulamentação chinesa exige a instalação de um mecanismo físico, de fácil acesso, capaz de desligar o circuito de alta tensão do sistema de armazenamento de energia com uma única ação.
Até agora, muitos fabricantes recorriam sobretudo a procedimentos digitais ou sequências de software no painel de instrumentos para colocar o veículo em modo de segurança. O problema é que, após um impacto grave, esses sistemas podem ficar inacessíveis, instáveis ou danificados. Com um comando físico, um condutor, um passageiro ou um bombeiro poderá, em teoria, desligar a bateria sem ter de navegar por menus.
A segunda norma vai diretamente ao coração do problema: o comportamento das baterias em situações de falha, sobreaquecimento ou acidente. As regras anteriores exigiam que o veículo emitisse um alerta pelo menos cinco minutos antes de um eventual incêndio ou explosão da bateria, permitindo aos ocupantes abandonar o carro.
A nova abordagem é mais exigente. A bateria terá de permanecer sem incêndio ou explosão mesmo em caso de incidente interno, continuando a emitir sinais de alerta. O texto também determina que os gases libertados não devem ser prejudiciais para a saúde dos ocupantes.
Para garantir que estas exigências não ficam apenas no papel, a China vai introduzir testes mais rigorosos. Um deles avalia a resistência da bateria a impactos na parte inferior do veículo, cenário possível quando um automóvel embate num obstáculo na estrada. Outro teste analisa o comportamento da bateria depois de 300 ciclos de carregamento rápido: concluídos esses ciclos, o sistema terá de resistir a um curto-circuito sem pegar fogo nem explodir.
Os grandes fabricantes chineses de baterias afirmam já estar preparados. Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, a CATL indica que toda a sua gama de baterias passou por novos testes desde o ano passado, enquanto a BYD garante que a segunda geração da sua bateria Blade supera os limites mínimos exigidos pelas novas normas.
As regras chegam num momento decisivo para a indústria chinesa. Em maio de 2026, a China produziu 1,554 milhões de veículos elétricos e híbridos plug-in e vendeu 1,496 milhões apenas nesse mês. O mercado tornou-se gigantesco, mas também altamente competitivo, com uma guerra de preços que tem pressionado margens e escolhas técnicas.
Ao apertar os requisitos de segurança, Pequim poderá estar também a fazer uma seleção dentro da própria indústria. Fabricantes com menor capacidade tecnológica ou financeira terão mais dificuldade em cumprir as novas exigências, enquanto empresas capazes de investir em baterias mais seguras poderão sair reforçadas.
Há ainda uma consequência económica potencial. Com normas mais rigorosas e testes melhor documentados, as seguradoras passam a ter uma base mais sólida para avaliar o risco dos veículos elétricos. Em teoria, carros com baterias mais seguras e sistemas de corte mais claros poderão beneficiar de prémios de seguro mais competitivos.
O debate, ainda assim, deve ser colocado em perspetiva. Um estudo do Conselho Nacional de Segurança no Transporte dos Estados Unidos citado no artigo mostra que os veículos elétricos registam muito menos incêndios do que os modelos a combustão: 25 casos por 100 mil veículos, contra 1.530 por 100 mil veículos com motor térmico.
A questão não é, portanto, apenas a frequência dos incêndios, mas a sua complexidade. Quando uma bateria de alta tensão entra em combustão, o combate às chamas pode ser mais difícil, mais demorado e exigir procedimentos específicos. É precisamente esse risco que a China quer reduzir com baterias certificadas e um botão físico capaz de cortar rapidamente a alimentação de alta tensão.
A decisão chinesa pode acabar por elevar a fasquia internacional. Se o maior mercado mundial de carros elétricos passar a exigir normas mais apertadas, outros países e regiões poderão ser pressionados a seguir o mesmo caminho. Depois de liderar a produção e venda de elétricos, a China quer agora mostrar que também pode definir o novo padrão de segurança.






