A Itália esperou 73 anos para voltar a ter um campeão mundial de Fórmula 1. Kimi Antonelli conseguiu-o ao volante de um Mercedes e está a provocar uma situação inesperada: até os adeptos mais apaixonados da Ferrari celebram os triunfos de um piloto da sua grande rival. Em Maranello, o fenómeno levanta uma questão inevitável: durante quanto tempo conseguirá a Scuderia ficar longe do novo herói italiano?
A consagração do piloto de 20 anos aconteceu no Grande Prémio do México, onde o terceiro lugar foi suficiente para assegurar matematicamente o título mundial de 2026, quando ainda faltavam quatro corridas para terminar a temporada.
Segundo o jornal alemão ‘Bild’, o triunfo de Antonelli está a provocar uma mudança significativa na relação dos italianos com a Fórmula 1. Durante décadas, apoiar um piloto de outra equipa, sobretudo quando competia diretamente com a Ferrari, era quase uma contradição para muitos adeptos. Agora, essa fronteira parece estar a desaparecer.
O jornal desportivo italiano ‘La Gazzetta dello Sport’ resumiu a situação com uma provocação: Antonelli tornou-se campeão graças ao seu talento, ao automóvel que conduz e ao facto de não ter precisado de correr pela Ferrari.
Uma observação que dificilmente terá agradado em Maranello, mas que ajuda a perceber a dimensão do fenómeno.
Um campeão italiano que não precisa de vestir vermelho
A Itália não conquistava um título mundial de pilotos desde 1953, quando Alberto Ascari se sagrou campeão pela segunda vez consecutiva, então ao volante de um Ferrari.
Desde então, vários pilotos italianos conseguiram vitórias na Fórmula 1, incluindo Riccardo Patrese, Jarno Trulli e Giancarlo Fisichella. Nenhum, porém, conseguiu repetir o feito de Ascari.
Antonelli não só terminou essa espera como se tornou o campeão mundial mais jovem da história da modalidade, aos 20 anos.
E fê-lo numa equipa que representa uma das maiores rivais da Ferrari.
O mais surpreendente é que muitos dos tradicionais adeptos da Scuderia não parecem particularmente incomodados com essa circunstância.
Em setembro, quando Antonelli venceu o Grande Prémio de Itália, em Monza, foi aplaudido por adeptos vestidos de vermelho, com bandeiras e símbolos da Ferrari.
A imagem tornou-se particularmente simbólica: um piloto da Mercedes celebrado no circuito onde a paixão pela Ferrari costuma dominar as bancadas.
Para muitos italianos, a explicação é simples. Antonelli pode não conduzir um Ferrari, mas representa a Itália.
Até em Maranello se celebra o piloto da Mercedes
O entusiasmo pelo jovem piloto chegou inclusivamente à cidade onde está instalada a sede da Ferrari.
De acordo com o ‘Bild’, uma reportagem da televisão pública italiana Rai mostrou, ainda em março, adeptos da Scuderia a manifestarem abertamente o seu apoio a Antonelli.
A mensagem era clara: a Ferrari continua a ser a grande paixão, mas isso não impede os italianos de celebrarem as vitórias de um compatriota.
O fenómeno ultrapassou entretanto o universo do automobilismo.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, destacou a conquista do título como um motivo de orgulho nacional. Também o tenista Jannik Sinner já tinha elogiado Antonelli após a sua primeira vitória na Fórmula 1, conquistada na China, em março.
O entusiasmo ganhou uma dimensão que vai muito além das preferências por uma equipa.
E é precisamente aí que surge o desafio para a Ferrari.
Durante décadas, a marca italiana beneficiou de uma identificação quase automática entre o orgulho nacional e os seus resultados na Fórmula 1. Antonelli está a demonstrar que um piloto italiano pode conquistar esse mesmo sentimento de pertença sem precisar de vestir vermelho.
Bernie Ecclestone acredita que a Ferrari terá de contratar Antonelli
A possibilidade de ver Kimi Antonelli ao volante de um Ferrari já alimenta especulações sobre o futuro do jovem campeão.
Bernie Ecclestone, antigo responsável máximo pela Fórmula 1, acredita que essa mudança acabará por acontecer.
Em declarações ao ‘F1-Insider’, citadas pelo ‘Bild’, o britânico defendeu que a Ferrari acabará por ter de procurar a contratação do piloto italiano, caso este continue a vencer.
Na perspetiva de Ecclestone, a ligação de Antonelli ao seu país poderá pesar numa eventual decisão futura.
Mas importa distinguir o desejo de alguns adeptos e as previsões do antigo dirigente da realidade contratual: não existe qualquer anúncio de uma transferência de Antonelli para a Ferrari.
Por enquanto, o italiano é a principal figura da Mercedes, equipa com a qual conquistou nove vitórias em Grandes Prémios e o título mundial de 2026.
O dilema da Ferrari
O sucesso de Antonelli coloca a Ferrari perante uma situação invulgar.
Por um lado, a Scuderia continua a ser uma das instituições desportivas mais importantes de Itália e mantém uma ligação emocional extraordinária aos seus adeptos.
Por outro, o novo campeão mundial italiano está a construir uma relação igualmente forte com o público, apesar de competir por uma equipa adversária.
O ‘Bild’ considera que esta realidade poderá aumentar a pressão para que a Ferrari procure contratar Antonelli no futuro.
Não significa que a Mercedes esteja disposta a perdê-lo, nem que o piloto pretenda abandonar a equipa que lhe permitiu chegar ao topo da Fórmula 1.
Mas a hipótese de juntar o primeiro campeão mundial italiano em 73 anos à marca mais emblemática do automobilismo do país será inevitavelmente um tema recorrente.
Até lá, os adeptos italianos parecem ter encontrado uma forma de conciliar duas paixões que durante muito tempo pareciam incompatíveis: continuar a apoiar a Ferrari e celebrar um campeão mundial que conduz um Mercedes.
O título mundial de Kimi Antonelli é também uma história de confiança no talento jovem. No artigo de opinião “A lição da Mercedes: liderar é assumir riscos”, Jorge Farromba analisa a decisão de Toto Wolff de apostar no italiano para substituir Lewis Hamilton e explica porque considera que esta escolha representa uma importante lição de liderança.






