À primeira vista, parece um comando de videojogos. Tem botões de várias cores, seletores rotativos, pequenas alavancas e um ecrã digital. Mas estamos a falar do volante de um Fórmula 1, uma das peças mais importantes de um monolugar, onde cada comando pode fazer a diferença entre ganhar ou perder uma corrida.
E não serve apenas para virar as rodas. Enquanto conduz a velocidades que podem ultrapassar os 300 km/h, o piloto utiliza o volante para ajustar o comportamento do carro, gerir a energia, controlar determinados parâmetros de travagem e comunicar com a equipa.
Segundo o ‘Motor1’, os volantes de Fórmula 1 transformaram-se em verdadeiros centros de controlo, reunindo funções que permitem adaptar o monolugar às condições da pista e às exigências de cada momento da corrida.
Mas como conseguem os pilotos utilizar tantos comandos sem perder a concentração?

Muito mais do que virar à esquerda e à direita
Embora cada equipa desenvolva o seu próprio volante, existem funções comuns à maioria dos monolugares.
Uma das mais importantes é a regulação da distribuição da força de travagem entre as rodas dianteiras e traseiras. Este ajuste permite adaptar o equilíbrio do automóvel às características das curvas, às condições de aderência e ao desgaste dos pneus.
Outro comando está relacionado com o diferencial, que influencia a forma como as rodas motrizes distribuem o esforço e, consequentemente, o comportamento do carro à entrada e à saída das curvas.
Há também seletores destinados à gestão da energia elétrica, permitindo ao piloto adaptar a sua utilização às necessidades da corrida, dentro dos limites estabelecidos pelo regulamento.
E, naturalmente, existem funções mais familiares: o botão de rádio para falar com a equipa, o limitador de velocidade para a via das boxes e os comandos utilizados nas mudanças de velocidade.
Tudo isto está concentrado num espaço relativamente pequeno, ao alcance dos dedos do piloto.
Cada curva pode exigir uma decisão diferente
A complexidade do volante não resulta apenas da quantidade de tecnologia instalada num Fórmula 1.
O verdadeiro desafio está na necessidade de alterar determinadas configurações enquanto o carro está em movimento.
Ao longo de uma corrida, os pneus desgastam-se, a quantidade de combustível diminui e as temperaturas variam. O comportamento do monolugar também muda, obrigando o piloto a adaptar a condução.
Uma configuração de travagem que funciona bem numa determinada curva pode não ser a mais adequada para outra.
O mesmo acontece com o diferencial ou com a gestão da energia elétrica, especialmente quando é necessário preparar uma ultrapassagem, defender uma posição ou preservar o desempenho do carro.
Por isso, os pilotos podem realizar vários ajustes ao longo de uma única volta, muitas vezes seguindo indicações transmitidas pelos engenheiros através do rádio.
O volante permite-lhes executar essas alterações sem retirar as mãos das zonas de apoio, embora continuem a ter de dividir a atenção entre a condução e os comandos.
E se carregar no botão errado?
Com tantos comandos disponíveis, os erros também acontecem. E alguns podem ter consequências bastante desagradáveis.
Um dos exemplos mais conhecidos ocorreu no Grande Prémio do Azerbaijão de 2021, quando Lewis Hamilton se preparava para disputar a vitória ao volante do seu Mercedes.
Durante o recomeço da corrida, depois de uma interrupção com bandeira vermelha, o piloto acionou inadvertidamente um comando que alterou a configuração do sistema de travagem.
O resultado foi desastroso.
Ao chegar à primeira curva, Hamilton bloqueou as rodas dianteiras, seguiu em frente pela escapatória e perdeu a oportunidade de lutar pela vitória.
Um pequeno gesto no volante acabou por ter consequências enormes.
O episódio demonstrou que, mesmo para os melhores pilotos do mundo, a quantidade de comandos disponíveis exige uma atenção extraordinária.
Como conseguem decorar tantos botões?
A resposta está no treino e na repetição.
Os pilotos passam inúmeras horas nos simuladores, onde não treinam apenas as trajetórias e os pontos de travagem. Também praticam a utilização dos comandos do volante, procurando tornar cada movimento o mais automático possível.
A disposição dos botões, as cores e as identificações ajudam a reconhecer rapidamente as diferentes funções.
Além disso, os volantes podem ser adaptados às preferências dos pilotos, permitindo que determinados comandos fiquem posicionados nos locais mais intuitivos.
O objetivo é desenvolver uma espécie de memória muscular, para que o piloto consiga realizar ajustes sem precisar de olhar constantemente para o volante.
Mesmo assim, não é uma tarefa simples.
Imagine tentar selecionar uma configuração específica enquanto trava para uma curva, suporta elevadas forças laterais e tem outro monolugar a poucos metros de distância.
É precisamente por isso que os comandos precisam de ser acessíveis e fáceis de identificar.
Um volante que pode fazer a diferença entre ganhar e perder
Os volantes de Fórmula 1 são muito diferentes daqueles que encontramos nos automóveis de estrada, mas a sua complexidade responde a uma necessidade concreta.
Num desporto em que pequenas diferenças de desempenho podem decidir uma corrida, permitir que o piloto ajuste o comportamento do carro em tempo real representa uma vantagem importante.
O volante tornou-se, assim, uma ligação direta entre o piloto e os sistemas do monolugar, reunindo informação, comunicação e controlo numa única peça.
E, da próxima vez que vir um piloto de Fórmula 1 a mexer rapidamente nos botões durante uma corrida, já sabe que não está apenas a procurar mais velocidade.
Pode estar a corrigir o equilíbrio do carro, a gerir a energia disponível ou a preparar a próxima ultrapassagem.
Porque, apesar de tantos botões e funções diferentes, o objetivo continua a ser apenas um: chegar à frente dos adversários.
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