Há cidades que nasceram junto a rios, portos ou antigas rotas comerciais. Outras cresceram à volta de castelos ou mercados. Mas existe uma cidade alemã cuja história começou praticamente ao contrário: primeiro surgiu o projeto de uma gigantesca fábrica de automóveis e só depois foi construída a cidade destinada a acolher os seus trabalhadores. Quase 90 anos mais tarde, essa fábrica ocupa 6,5 milhões de metros quadrados, tem dezenas de quilómetros de estradas próprias e continua a definir a identidade do lugar.
Chama-se Wolfsburg, fica na Baixa Saxónia, na Alemanha, e é a sede da Volkswagen.
Segundo o ‘Motor1’, a ligação entre a cidade e o fabricante é tão profunda que Wolfsburg dificilmente existiria na forma atual sem a decisão de construir ali uma fábrica destinada à produção de um automóvel acessível às famílias alemãs.
Hoje, além das instalações industriais, a cidade recebe visitantes de todo o mundo que querem conhecer uma das maiores fábricas de automóveis do planeta e explorar um complexo turístico inteiramente dedicado ao universo automóvel.
Primeiro veio a fábrica. Depois nasceu a cidade
A história começou em 1938, durante o regime nazi.
A localidade foi criada com o nome de Stadt des KdF-Wagens, ou “Cidade do Automóvel KdF”, numa referência à organização nazi Kraft durch Freude, conhecida como “Força pela Alegria”.
O objetivo era construir uma fábrica para produzir um automóvel relativamente acessível à população alemã, projeto que acabaria por dar origem ao Volkswagen Carocha.
À volta das instalações industriais foram planeadas habitações, estradas, infraestruturas e espaços verdes destinados aos trabalhadores.
Mas a Segunda Guerra Mundial alterou profundamente os planos. Em vez de se concentrar na produção de automóveis para famílias, a fábrica passou a produzir equipamento militar.
Durante o conflito, as instalações recorreram também a trabalho forçado, incluindo prisioneiros de guerra e pessoas deportadas pelo regime nazi.
É uma parte incontornável da história da Volkswagen e da própria cidade.
Depois da guerra, em 1945, a localidade recebeu o nome de Wolfsburg, inspirado num castelo próximo. Sob administração britânica, a fábrica continuou a funcionar e tornou-se uma das bases da recuperação industrial alemã.
Uma fábrica tão grande que tem estradas e caminhos de ferro próprios
A dimensão atual das instalações é difícil de imaginar.
O complexo industrial da Volkswagen em Wolfsburg ocupa aproximadamente 6,5 milhões de metros quadrados, o equivalente a cerca de 910 campos de futebol com as dimensões de 105 por 68 metros.
No interior existem grandes pavilhões de produção, armazéns, instalações logísticas e uma rede de circulação que inclui cerca de 75 quilómetros de estradas e 60 quilómetros de linhas ferroviárias.
É praticamente uma pequena cidade industrial dentro da própria cidade.
Em 2023, segundo os números divulgados pela Volkswagen e citados pelo Motor1, trabalhavam no complexo cerca de 70 mil pessoas.
A fábrica continua a ser uma das principais unidades de produção do grupo e tem vindo a adaptar-se às mudanças da indústria automóvel, incluindo a eletrificação e a utilização de novas plataformas de veículos.
Mas Wolfsburg não vive apenas de linhas de montagem.
Há um parque dedicado aos automóveis que parece saído do futuro
Junto à fábrica encontra-se o Autostadt, um complexo turístico inaugurado a 1 de junho de 2000.
O nome significa, aproximadamente, “Cidade do Automóvel”, e o espaço foi concebido para aproximar os visitantes da história, da tecnologia e das marcas do Grupo Volkswagen.
Em vez de um museu convencional, o Autostadt combina exposições de veículos, pavilhões temáticos, jardins, arquitetura contemporânea, restaurantes e experiências relacionadas com a indústria automóvel.
Uma das suas imagens mais conhecidas são duas torres de vidro utilizadas para armazenar automóveis novos antes da entrega aos clientes.
Alguns compradores podem mesmo deslocar-se ao complexo para levantar o seu novo Volkswagen, transformando um momento normalmente passado num concessionário numa experiência turística.
Os visitantes podem ainda conhecer automóveis de diferentes épocas e descobrir como a tecnologia e o design evoluíram ao longo das décadas.
E é possível entrar na fábrica?
Sim, embora existam algumas condições.
O Autostadt disponibiliza visitas guiadas a determinadas áreas da fábrica da Volkswagen, permitindo observar parte dos processos envolvidos na produção de automóveis.
Consoante o percurso e a atividade industrial, as visitas podem realizar-se a pé ou em veículos próprios para transportar visitantes.
É uma oportunidade para conhecer de perto máquinas, robôs, trabalhadores e diferentes etapas de produção, desde a construção das carroçarias até à montagem.
No entanto, as visitas dependem da disponibilidade da fábrica, podem estar sujeitas a restrições de idade e exigem confirmação prévia. Nem todas as áreas industriais estão abertas ao público.
Para muitos entusiastas, esta possibilidade de entrar numa fábrica de tamanha dimensão é um dos principais motivos para visitar Wolfsburg.
Uma cidade que continua ligada ao destino da Volkswagen
Apesar da presença dominante da fábrica, Wolfsburg é hoje uma cidade completa, com bairros residenciais, escolas, parques, comércio, equipamentos culturais e instalações desportivas.
Ainda assim, a Volkswagen continua a ter um peso extraordinário na economia local.
Essa dependência também representa um desafio. As alterações na procura de automóveis, a transformação das fábricas e a transição para a mobilidade elétrica podem ter consequências diretas para a cidade e para os seus habitantes.
Wolfsburg é, por isso, muito mais do que um destino para apaixonados por automóveis.
É um exemplo invulgar de como uma decisão industrial pode dar origem a uma cidade inteira, influenciar a sua identidade durante gerações e continuar a condicionar o seu futuro.
E talvez seja essa a característica mais surpreendente: em Wolfsburg, não foi a cidade que atraiu uma grande fábrica. Foi uma fábrica que ajudou a criar a cidade.






