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“Podem copiar-nos, mas não roubar a nossa história”: novo responsável da Fiat responde às marcas chinesas e revela a estratégia para o futuro

“Podem copiar-nos, mas não roubar a nossa história”: novo responsável da Fiat responde às marcas chinesas e revela a estratégia para o futuro
Francisco Laranjeira

Arnaud Belloni, novo responsável pelas marcas Fiat, Abarth e Lancia e diretor de Marketing da Stellantis para a Europa, falou durante o Salão Automóvel de Paris

A concorrência das marcas chinesas está a obrigar os fabricantes europeus a repensar as suas estratégias. Mas a Fiat acredita que tem uma vantagem que os novos rivais não conseguem reproduzir: uma história construída ao longo de décadas e automóveis que continuam a fazer parte da memória de várias gerações.

“Podem copiar-nos, mas não podem roubar o nosso legado”, afirmou Arnaud Belloni, novo responsável pelas marcas Fiat, Abarth e Lancia e diretor de Marketing da Stellantis para a Europa, durante o Salão Automóvel de Paris.

Em declarações citadas pelo jornal espanhol ‘El Economista’, o executivo defendeu que o design e a identidade italiana podem ajudar a Fiat a distinguir-se dos fabricantes chineses. Mas deixou também um aviso: uma marca não pode viver apenas do passado.

A história pode ser uma vantagem, mas não chega para vender carros

Belloni considera que o património de uma marca permite estabelecer uma ligação emocional com os clientes, algo particularmente importante num mercado onde surgem cada vez mais fabricantes e modelos.

No entanto, essa ligação não substitui a necessidade de desenvolver automóveis competitivos.

“É preciso libertarmo-nos do original; caso contrário, ficamos presos ao original”, explicou.

A estratégia passa por recuperar elementos que tornaram determinados modelos reconhecíveis, sem transformar os novos automóveis em simples cópias dos antigos.

O Grande Panda é um dos exemplos apontados pelo executivo. O modelo recupera referências visuais do Panda original, mas adapta-as às necessidades e tecnologias atuais.

O mesmo acontece com o Topolino, que utiliza uma designação histórica da Fiat para apresentar uma proposta de mobilidade urbana completamente diferente.

Para Belloni, é precisamente esta combinação entre tradição e inovação que poderá ajudar as marcas italianas a enfrentar a concorrência chinesa.

A Fiat quer recuperar os automóveis familiares que os SUV deixaram para trás

Uma das ideias defendidas pelo novo responsável da Fiat é o regresso de automóveis familiares que privilegiem o espaço e a versatilidade, em vez de seguirem obrigatoriamente a fórmula dos SUV.

O tema ganhou destaque com a apresentação do conceito Multiplay no Salão Automóvel de Paris, um projeto que recupera parte da filosofia do histórico Fiat Multipla.

Belloni considera que a popularidade dos SUV reduziu as alternativas para as famílias que procuram automóveis verdadeiramente espaçosos.

Na sua perspetiva, muitos monovolumes ofereciam um melhor aproveitamento do habitáculo, apesar de terem dimensões exteriores mais contidas.

A eletrificação poderá ajudar a recuperar esse conceito, uma vez que as plataformas elétricas permitem reorganizar os componentes e explorar novas configurações interiores.

O executivo admitiu que um futuro automóvel inspirado no Multipla, eventualmente com seis lugares, poderia fazer sentido.

Contudo, esclareceu que ainda não existe uma decisão definitiva sobre o desenvolvimento de um modelo de produção.

Novos elétricos mais acessíveis, mas não antes de 2028

A Fiat também está a preparar uma nova geração de automóveis elétricos urbanos, com o objetivo de oferecer alternativas mais acessíveis aos consumidores europeus.

Belloni revelou que a marca trabalha numa plataforma destinada a veículos da categoria M1, correspondente aos automóveis de passageiros.

A intenção é desenvolver modelos pequenos, práticos e competitivos em preço, recuperando uma das áreas em que a Fiat construiu grande parte da sua reputação.

No entanto, estes novos automóveis não deverão chegar ao mercado antes de 2028.

O responsável não revelou características técnicas nem preços, mas indicou que a marca pretende voltar a competir com força no segmento dos pequenos elétricos.

Entre os projetos em estudo encontra-se também um novo automóvel urbano associado à fábrica italiana de Mirafiori, cuja filosofia poderá privilegiar a simplicidade e a funcionalidade.

O Fiat 500 vai mudar, mas continuará a ser um Fiat 500

Outro dos modelos centrais nesta estratégia é o Fiat 500.

Belloni confirmou que a marca já está a trabalhar na próxima geração, embora ainda não exista uma data de apresentação anunciada.

O executivo rejeitou uma transformação radical da identidade do modelo.

“Será certamente um Cinquecento. Não vamos revolucionar o ícone da Fiat”, garantiu.

Para explicar a importância de preservar essa identidade, comparou o Fiat 500 ao Porsche 911: dois automóveis que evoluíram ao longo do tempo sem abandonar as características que os tornaram imediatamente reconhecíveis.

A atual geração continuará a contar com propostas elétricas e híbridas, procurando responder às diferentes preferências dos mercados europeus.

Segundo Belloni, os elétricos têm maior aceitação em vários países do norte da Europa, enquanto os motores de combustão continuam a ter um peso importante nos mercados do sul.

A Lancia também terá de provar que a história vende

A defesa do legado italiano estende-se à Lancia, mas Belloni reconhece que esta marca enfrenta um desafio ainda mais exigente.

O executivo admite que a Lancia tem mais admiradores do que compradores, uma situação que pretende inverter com o Ypsilon e o novo Gamma.

A prioridade é recuperar as vendas e garantir a sustentabilidade comercial da marca antes de avançar com novos projetos.

Por essa razão, o responsável evitou confirmar o regresso do Delta, anteriormente apontado para 2028.

Belloni considera que o futuro poderá passar também por pequenos automóveis sofisticados, inspirados na tradição de modelos como o Autobianchi A112 e o Lancia Y10.

Mas, para já, não existe um terceiro modelo confirmado.

A mensagem deixada pelo responsável da Fiat, Abarth e Lancia em Paris resume uma estratégia que procura distinguir as marcas italianas num mercado cada vez mais competitivo: os fabricantes chineses podem aproximar-se do design, da tecnologia e das características dos seus rivais europeus, mas não conseguem reproduzir décadas de história.

O desafio para a Fiat será transformar essa vantagem emocional em automóveis que os consumidores continuem a querer comprar.

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