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Uma moto de dois tempos com 280 cv? Há quem esteja a tentar ressuscitar uma tecnologia quase esquecida

Uma moto de dois tempos com 280 cv? Há quem esteja a tentar ressuscitar uma tecnologia quase esquecida
Automonitor

O resultado chama-se Veloce Aperion, uma moto de inspiração café racer desenvolvida pela Veloce Motorcycles, sediada em Oxfordshire, no Reino Unido. E o mais surpreendente não é apenas a potência. É a forma como os engenheiros decidiram organizar o motor

Numa altura em que a indústria das duas rodas procura motores mais eficientes, emissões mais baixas e soluções elétricas, uma pequena empresa britânica decidiu seguir exatamente na direção contrária. Recuperou o conceito dos motores de dois tempos, praticamente desaparecidos das motos de estrada de grande cilindrada, e levou-o a um extremo pouco habitual: oito cilindros, 1.000 cc e uma potência anunciada de 280 cv.

O resultado chama-se Veloce Aperion, uma moto de inspiração café racer desenvolvida pela Veloce Motorcycles, sediada em Oxfordshire, no Reino Unido. E o mais surpreendente não é apenas a potência. É a forma como os engenheiros decidiram organizar o motor.

Oito cilindros dispostos em X. Sim, numa moto

Em vez das configurações habituais em linha, em V ou boxer, a Veloce escolheu uma arquitetura praticamente desconhecida no mundo das motos: um motor X8.

São oito cilindros distribuídos em quatro grupos, numa disposição que, vista de frente, faz lembrar a letra X. O conjunto tem 1.000 cc de cilindrada e, segundo a fabricante, é capaz de desenvolver 280 cv às 12.000 rotações por minuto.

Para perceber a dimensão da aposta, basta recordar que os motores de dois tempos realizam uma fase de combustão útil a cada volta da cambota, ao contrário dos motores de quatro tempos, que necessitam de duas voltas para completar o ciclo.

Essa característica ajuda a explicar a elevada potência específica que tornou os dois tempos tão populares nas antigas motos desportivas e de competição.

Mas também existem desvantagens: os sistemas convencionais de dois tempos enfrentam maiores dificuldades no controlo das emissões e no consumo de combustível e óleo, razões que contribuíram para o seu desaparecimento de grande parte do mercado de motos de estrada.

A Veloce decidiu recuperar essa arquitetura sem esconder a sua natureza mecânica.

Um motor com ADN de uma Aprilia de 125 cc

A origem de parte da mecânica é outro dos aspetos curiosos da Aperion.

De acordo com a publicação especializada ‘Autocar India’, o projeto utiliza cilindros derivados dos motores Rotax associados à Aprilia RS125, uma das motos de dois tempos mais conhecidas entre os entusiastas.

A alimentação recorre a oito carburadores Dellorto, numa solução deliberadamente afastada dos sistemas eletrónicos de injeção utilizados pela generalidade das motos modernas.

A arquitetura reúne os oito cilindros em torno de um conjunto central que integra o motor e a transmissão. A Veloce afirma que esta disposição permite equilibrar naturalmente diferentes forças e vibrações geradas durante o funcionamento.

O conjunto motopropulsor tem um peso anunciado de 105 kg e integra uma caixa de seis velocidades com embraiagem hidráulica.

Há ainda um pormenor particularmente invulgar: o sistema de escape utiliza componentes em liga metálica produzidos por sinterização a laser, uma técnica de fabrico que permite criar geometrias complexas.

Uma moto que não quer ser convencional

O desenho da Aperion acompanha a extravagância da mecânica.

A estética mistura referências clássicas das café racers com elementos técnicos expostos, deixando o motor e o sistema de escape assumirem grande parte do protagonismo visual.

A estrutura foi concebida para integrar motor, transmissão e chassis num conjunto rígido, enquanto a suspensão traseira utiliza um sistema próprio, desenvolvido pela Veloce, com amortecedor acionado por tirante.

A fabricante defende que esta arquitetura permite combinar estabilidade com agilidade, embora o comportamento dinâmico e as prestações reais ainda não estejam demonstrados por ensaios independentes.

Também os 280 cv devem ser entendidos como um valor anunciado pela marca, e não como uma potência confirmada através de testes externos.

Só serão fabricadas 24 unidades

A Veloce não pretende transformar a Aperion numa moto de produção em massa.

O plano anunciado prevê uma série limitada a apenas 24 exemplares, com encomendas previstas para 2027.

Segundo a fabricante, as unidades serão preparadas para cumprir o processo britânico de aprovação individual de veículos, mas isso não significa que exista homologação automática para circulação em todos os mercados europeus.

Mais do que uma alternativa comercial às motos atuais, a Aperion apresenta-se como uma demonstração de engenharia e uma homenagem a uma época em que os motores de dois tempos dominavam o imaginário de muitos motociclistas.

A diferença é que, desta vez, em vez de um pequeno monocilíndrico ou de um motor de competição de quatro cilindros, há oito cilindros dispostos em X e uma potência que, pelo menos no papel, promete tornar esta moto difícil de esquecer.