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O homem que mudou a Fórmula 1 pegou depois num pequeno Mini… e criou um dos carros mais famosos da história

Francisco Laranjeira

A história começa com Charles Newton Cooper, apaixonado por automóveis, que depois da Primeira Guerra Mundial comprou uma pequena oficina em Surbiton, no Reino Unido. O filho John cresceu praticamente entre motores e começou a trabalhar com o pai ainda adolescente

Antes de o nome Cooper aparecer na traseira de milhões de pequenos automóveis britânicos, já tinha ajudado a mudar para sempre a Fórmula 1.

E antes de existir a John Cooper Works, houve uma pequena oficina em Inglaterra, carros construídos quase artesanalmente e uma ideia que parecia estranha aos gigantes das corridas: colocar o motor atrás do piloto.

A história começa com Charles Newton Cooper, apaixonado por automóveis, que depois da Primeira Guerra Mundial comprou uma pequena oficina em Surbiton, no Reino Unido. O filho John cresceu praticamente entre motores e começou a trabalhar com o pai ainda adolescente.

Depois da II Guerra Mundial, pai e filho decidiram construir os próprios carros de competição. Um dos primeiros utilizava componentes do Fiat Topolino e um pequeno motor JAP de motocicleta com 498 cc, colocado atrás do piloto sobretudo porque aquela era a solução mais simples para utilizar uma transmissão por corrente.

Era uma escolha pragmática.

Acabaria por ajudar a desencadear uma revolução.

Um pequeno construtor começou a incomodar os gigantes

Os primeiros Cooper eram leves, relativamente simples e eficazes. Entre os jovens pilotos atraídos por aquelas máquinas estava Stirling Moss, que mais tarde se tornaria um dos maiores nomes da história do automobilismo.

A evolução foi rápida. Surgiram carros de Fórmula 2 e modelos desportivos e, em meados da década de 1950, a Cooper percebeu que a arquitetura com motor colocado atrás do piloto tinha vantagens que iam muito além da facilidade de construção.

Em 1957, Jack Brabham já experimentava esta solução na Fórmula 1.

Numa época dominada por grandes máquinas com motor dianteiro, a pequena equipa britânica estava a seguir na direção contrária.

E funcionou.

Em 1958 começou a revolução

No Grande Prémio da Argentina de 1958, Stirling Moss venceu ao volante de um Cooper-Climax inscrito pela equipa privada de Rob Walker.

Maurice Trintignant repetiu a proeza no Mónaco.

Os pequenos monolugares de motor traseiro tinham acabado de demonstrar que era possível derrotar as máquinas mais convencionais da época.

A confirmação definitiva chegaria pouco depois.

Em 1959, Jack Brabham sagrou-se campeão mundial ao volante de um Cooper-Climax. A Cooper conquistou igualmente o Campeonato de Construtores.

Em 1960, Brabham e Cooper voltaram a conquistar os dois títulos.

A Fórmula 1 tinha mudado.

A própria Fórmula 1 recorda a Cooper como uma das equipas que ajudaram a levar a modalidade para a era moderna através da arquitetura de motor traseiro. Em pouco tempo, os grandes monolugares de motor dianteiro desapareceriam praticamente das grelhas.

Mas John Cooper ainda estava longe de terminar.

Depois apareceu um pequeno automóvel chamado Mini

Quando Alec Issigonis criou o Mini, a intenção original não era fazer um carro de competição.

A British Motor Corporation queria um automóvel pequeno, económico, barato e extraordinariamente eficiente na utilização do espaço.

John Cooper viu outra coisa.

Amigo de Issigonis e já profundamente ligado às corridas, percebeu que aquele pequeno carro tinha ingredientes invulgares: baixo peso, dimensões compactas, tração dianteira e uma enorme agilidade.

Cooper acreditava que podia transformá-lo numa máquina de competição.

A administração da BMC não ficou propriamente convencida.

John Cooper insistiu.

E voltou a ter razão.

O pequeno carro que começou a derrotar gigantes

Cooper trabalhou no motor, nos travões e no comportamento do Mini e, no início da década de 1960, começaram a surgir as versões que levariam o seu nome.

O verdadeiro momento de consagração chegaria em janeiro de 1964.

No Rali de Monte Carlo, Paddy Hopkirk e Henry Liddon enfrentaram automóveis muito maiores e mais potentes, incluindo o Ford Falcon V8.

O Mini Cooper S parecia o intruso numa batalha de gigantes.

Mas era precisamente nas estradas sinuosas, na neve e no gelo que as suas pequenas dimensões, baixo peso e agilidade faziam a diferença.

Hopkirk venceu.

O pequeno Mini acabava de se transformar num fenómeno internacional.

Monte Carlo tornou o nome Cooper imortal

A vitória de 1964 não foi um episódio isolado.

Timo Mäkinen voltou a vencer o Rali de Monte Carlo em 1965.

Em 1966, os Mini que ocupavam as primeiras posições acabaram desclassificados devido a uma controversa questão relacionada com a iluminação.

E, em 1967, Rauno Aaltonen voltou a colocar o Mini no primeiro lugar.

Três vitórias em Monte Carlo transformaram definitivamente aquele pequeno automóvel económico num ícone do desporto motorizado.

Era a mesma filosofia que já tinha aparecido nos Cooper de Fórmula 1: não tentar ganhar apenas através de mais potência, mas construir algo mais leve, ágil e eficiente.

Brabham e McLaren também passaram por aquela pequena equipa

A influência da Cooper não se mede apenas pelos automóveis que construiu.

Jack Brabham venceu dois campeonatos mundiais com a equipa antes de criar a sua própria marca e acabar por se tornar o único piloto a conquistar o Mundial de Fórmula 1 num automóvel com o seu próprio nome.

Bruce McLaren também correu pela Cooper antes de fundar a equipa que ainda hoje leva o seu apelido.

A pequena empresa de Surbiton tornou-se, assim, um dos lugares onde passaram alguns dos homens que ajudariam a escrever os capítulos seguintes da Fórmula 1.

Mas o seu próprio ciclo nas corridas estava a aproximar-se do fim.

Depois dos títulos de 1959 e 1960, a concorrência absorveu rapidamente a solução que tinha tornado a Cooper revolucionária. A equipa perdeu competitividade e, perante dificuldades financeiras, encerrou o departamento de competição no final da década de 1960.

O nome, contudo, encontrou outra forma de sobreviver.

Nascia uma ligação que ainda hoje existe

John Cooper continuou ligado ao Mini e às versões de maior desempenho.

Morreu em dezembro de 2000, precisamente quando começava uma nova era para o pequeno automóvel britânico sob a propriedade da BMW.

O filho Michael Cooper prosseguiu o caminho da família e desenvolveu a John Cooper Works, especializada em componentes e versões de elevado desempenho.

Hoje, a sigla JCW continua a identificar os MINI mais desportivos.

E a ligação familiar também não desapareceu: Charlie Cooper, bisneto de Charles Cooper e neto de John, continua envolvido no universo MINI e no automobilismo.

O JCW atual ainda tenta carregar essa história

É precisamente esse legado que o atual MINI John Cooper Works tenta transportar para uma época muito diferente daquela em que John Cooper convenceu a BMC a deixá-lo mexer no pequeno Mini.

A versão a gasolina mantém um motor 2.0 turbo de quatro cilindros com 231 cv, agora acompanhado por 380 Nm de binário e exclusivamente por uma caixa de dupla embraiagem de sete velocidades.

Cumpre os 0 aos 100 km/h em 6,1 segundos.

Mas mudou.

Está mais pesado, mais confortável e tecnologicamente muito mais sofisticado. A direção elétrica e a ausência de uma caixa manual afastam-no inevitavelmente da experiência mecânica dos seus antepassados, embora a traseira ágil e o comportamento continuem a procurar aquela sensação que durante décadas ficou associada ao nome Mini.

Existe até uma versão elétrica John Cooper Works com 258 cv.

É talvez a melhor demonstração de como o nome Cooper conseguiu sobreviver a mundos completamente diferentes.

Começou numa pequena oficina. Ajudou a colocar o motor atrás do piloto na Fórmula 1. Ganhou campeonatos mundiais. Transformou um carro económico num vencedor de Monte Carlo. E chegou à era elétrica.

Mais de 70 anos depois, talvez seja essa a parte mais extraordinária da história: a Cooper deixou de fabricar carros de Fórmula 1 há décadas, mas o nome do homem que ajudou a revolucionar as corridas continua num pequeno automóvel que vemos todos os dias na estrada.