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Antes do DeLorean, Marty McFly ia viajar no tempo dentro de um frigorífico… até perceberem o perigo

Automonitor

Nas primeiras versões da história escrita por Robert Zemeckis e Bob Gale, Doc Brown não tinha construído a máquina do tempo dentro de um automóvel

É difícil imaginar Marty McFly sem um DeLorean. As portas em asa de gaivota a abrirem-se, a carroçaria em aço inoxidável, os cabos e luzes espalhados pelo habitáculo e aqueles 88 mph — cerca de 142 km/h — necessários para desaparecer no tempo tornaram-se tão importantes para “Regresso ao Futuro” como algumas das personagens.

Mas o carro mais famoso do filme quase não existiu.

Nas primeiras versões da história escrita por Robert Zemeckis e Bob Gale, Doc Brown não tinha construído a máquina do tempo dentro de um automóvel.

Tinha-a colocado num velho frigorífico.

E Marty McFly teria de entrar lá para viajar no tempo.

A primeira máquina do tempo precisava de uma carrinha para andar

A ideia surgiu nas primeiras versões do argumento, escritas no início da década de 1980.

Em vez do DeLorean DMC-12 que acabaria por entrar para a história do cinema, Doc Brown tinha construído uma espécie de câmara temporal dentro de um frigorífico antigo.

Havia, porém, um pequeno problema.

A máquina do tempo não se movia.

Sempre que Doc precisava de a transportar, tinha de colocar o frigorífico na traseira de uma carrinha. Bob Gale recordaria mais tarde que essa solução sobreviveu às duas primeiras versões do argumento.

Tudo mudou quando o projeto entrou finalmente em pré-produção, em 1984.

Zemeckis deixou de olhar apenas para a história e começou a pensar em como iria filmá-la.

E fez uma pergunta bastante simples: se Doc Brown era suficientemente inteligente para construir uma máquina do tempo, porque não haveria de construí-la dentro de algo que pudesse deslocar-se sozinho?

A resposta mudou para sempre “Regresso ao Futuro”.

Havia ainda outro problema com o frigorífico

A equipa tinha outra preocupação.

Para utilizar a primeira versão da máquina do tempo, Marty teria de entrar no frigorífico e fechar a porta.

Zemeckis contou posteriormente que os responsáveis pelo filme começaram a recear que crianças tentassem imitar aquilo que viam no ecrã e acabassem por se fechar dentro de frigoríficos.

O frigorífico desapareceu. A máquina do tempo teria rodas. Faltava apenas escolher quais.

Porque um DeLorean?

A escolha não aconteceu porque o DMC-12 fosse o melhor desportivo disponível em 1985.

Havia uma razão cinematográfica muito melhor. Parecia uma nave espacial.

Zemeckis explicou anos mais tarde que o DeLorean era um dos poucos automóveis disponíveis com portas em asa de gaivota e tinha exatamente o aspeto necessário para que alguém em 1955 pudesse confundi-lo com uma máquina extraterrestre.

É precisamente isso que acontece quando Marty chega acidentalmente ao passado.

O DeLorean atravessa o celeiro da família Peabody e, quando as enormes portas se levantam, quem o encontra não vê simplesmente um automóvel estranho vindo do futuro.

Vê aquilo que parece ser uma nave espacial.

O desenho do DMC-12 permitiu assim transformar uma característica real do automóvel numa das piadas do filme.

E havia outra razão para toda a gente conhecer o nome DeLorean

Quando “Regresso ao Futuro” estava a ser preparado, John DeLorean estava constantemente nas notícias dos EUA.

A DeLorean Motor Company já tinha entrado em colapso e o empresário enfrentava um mediático processo relacionado com tráfico de cocaína, do qual acabaria absolvido.

Bob Gale explicou posteriormente que o caso contribuiu para tornar o automóvel ainda mais interessante aos olhos dos responsáveis pelo filme.

O DeLorean já não era apenas um desportivo futurista. Tinha-se tornado um automóvel estranho, controverso e ligado a uma história empresarial que parecia saída de Hollywood.

De certa forma, encaixava perfeitamente na garagem de Doc Brown.

Depois foi preciso transformar um carro numa máquina do tempo

Escolhido o DMC-12, começava outro problema: fazê-lo parecer uma máquina construída por um inventor excêntrico numa garagem.

Os responsáveis pelo filme não queriam simplesmente um automóvel futurista. A intenção era que todo o equipamento instalado no DeLorean parecesse funcional e, ao mesmo tempo, improvisado.

O desenho da máquina do tempo passou por nomes como Ron Cobb e Andrew Probert, enquanto Kevin Pike e a equipa de efeitos especiais ficaram responsáveis pela construção dos automóveis utilizados nas filmagens, com Michael Scheffe envolvido na supervisão artística.

Foram acrescentados cabos, tubos, luzes, componentes eletrónicos e, claro, o equipamento fictício necessário para fazer funcionar o condensador de fluxo.

O resultado tornou praticamente impossível separar o DMC-12 do filme.

Um fracasso automóvel que Hollywood transformou num ícone

Há uma ironia particularmente boa nesta história. O DeLorean DMC-12 não teve uma carreira comercial especialmente feliz.

A produção começou em 1981 e terminou poucos anos depois, com a empresa em dificuldades e um número relativamente reduzido de automóveis construídos. Mas Hollywood deu-lhe uma segunda vida que provavelmente nenhum plano de negócios conseguiria prever.

Quatro anos depois de começar a ser produzido, aquele desportivo de aço inoxidável tornou-se uma máquina do tempo.

E uma decisão tomada essencialmente para resolver problemas práticos de um argumento transformou um automóvel de uma fabricante falida num dos carros mais reconhecíveis da história do cinema.

Hoje parece impossível imaginar “Regresso ao Futuro” sem as portas em asa de gaivota a abrirem-se e Doc Brown a explicar que, quando se constrói uma máquina do tempo, mais vale fazê-lo com estilo.

Mas estivemos muito perto de passar os últimos 40 anos a recordar Marty McFly a viajar no tempo dentro de um frigorífico.