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O carro afinal tinha mais 93 mil km: maioria dos compradores nem sabe onde denunciar a fraude

Automonitor

Inquérito da carVertical identifica que 75,8% dos compradores europeus afirmam não saber onde denunciar um automóvel com o conta-quilómetros adulterado e 87,3% têm pouca ou nenhuma confiança em conseguir recuperar o dinheiro perdido

Descobrir que o carro usado que acabou de comprar tem muito mais quilómetros do que aqueles que aparecem no painel já é um problema. Descobrir que não sabe a quem denunciar a situação nem se conseguirá recuperar o dinheiro torna-o ainda maior.

É precisamente esse desconhecimento que um novo inquérito da carVertical identifica entre os compradores europeus: 75,8% dos participantes afirmam não saber onde denunciar um automóvel com o conta-quilómetros adulterado e 87,3% têm pouca ou nenhuma confiança em conseguir recuperar o dinheiro perdido.

E Portugal não escapa ao problema.

Segundo o Índice de Transparência 2025 da carVertical, 3,78% dos veículos verificados pelos utilizadores da plataforma em Portugal apresentavam sinais de adulteração do conta-quilómetros. Quando a manipulação existia, tinham sido retirados, em média, 92.900 quilómetros.

Quase 93 mil quilómetros que desaparecem do painel

Os dados resultam da análise dos relatórios de histórico adquiridos pelos clientes da carVertical entre setembro de 2024 e agosto de 2025 e colocam Portugal na 16.ª posição do índice elaborado pela empresa.

Os números dizem respeito aos automóveis consultados na plataforma e não à totalidade dos carros usados vendidos em Portugal.

Já o novo inquérito, realizado entre julho e agosto deste ano junto de 7.800 pessoas em 18 países europeus, mostra até que ponto o problema é conhecido pelos próprios compradores.

Quase um terço dos participantes, 30,3%, afirma já ter comprado um automóvel com a quilometragem adulterada ou conhecer alguém a quem isso aconteceu. Outros 31,8% nem sequer têm a certeza.

“Um direito legal só nos protege se sabemos que existe. Neste momento, a maior parte dos compradores simplesmente não sabe onde se dirigir quando se apercebe de que comprou um veículo com quilometragem adulterada”, afirma Matas Buzelis, especialista em mercado automóvel da carVertical.

É fraude e pode dar até três anos de prisão

O desconhecimento estende-se às próprias consequências legais.

Segundo o inquérito, 45,1% dos participantes não sabem qual poderá ser a penalização aplicável e 7,1% acreditam que adulterar a quilometragem nem sequer é ilegal.

Em Portugal, uma manipulação deliberada do conta-quilómetros utilizada para enganar um comprador pode enquadrar-se no crime de burla previsto no artigo 217.º do Código Penal, punível com pena de prisão até três anos ou multa.

A existência da lei não significa, contudo, que todos os casos sejam simples de provar. É necessário demonstrar o engano e o prejuízo patrimonial e, em determinados casos, identificar quando e por quem foi alterada a quilometragem.

Para a carVertical, o problema torna-se particularmente difícil nos veículos importados, devido à fragmentação dos registos entre diferentes países.

Importados continuam a ser o ponto mais difícil

Um automóvel que tenha circulado por vários mercados pode acumular informações sobre quilometragem, inspeções ou outros acontecimentos em diferentes bases de dados nacionais.

Segundo a empresa, essa fragmentação facilita a passagem de veículos com históricos incompletos entre fronteiras e dificulta a deteção de alterações antes da venda.

A carVertical aponta para o Pacote de Inspeção Técnica de Veículos em discussão na União Europeia como uma oportunidade para melhorar a partilha de dados entre Estados-membros.

Até lá, a empresa recomenda que os compradores verifiquem o histórico disponível antes de fechar negócio.

Os números ajudam a perceber o risco: entre os carros analisados pela carVertical em Portugal nos quais foram encontrados sinais de adulteração, não desapareceram apenas alguns milhares de quilómetros do conta-quilómetros. A diferença média aproximou-se dos 93 mil.