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Explicador. As marcas querem pôr peças usadas no seu carro. É seguro? E quanto pode poupar?

Automonitor

Volkswagen e Stellantis estão entre os grupos que veem nas peças usadas uma forma de baixar a fatura das reparações, prolongar a vida dos automóveis e recuperar materiais que, de outra forma, poderiam deixar de ser aproveitados

Durante décadas, recorrer a uma peça usada para reparar um automóvel esteve sobretudo associado aos centros de abate, oficinas independentes e proprietários que procuravam gastar o mínimo possível num carro já com alguns anos. Mas uma tendência que está a ganhar força na Europa pode começar a mudar essa realidade — e acabar por chegar também às oficinas e aos automobilistas portugueses.

Grandes fabricantes estão a acelerar a aposta na reutilização de componentes. Volkswagen e Stellantis estão entre os grupos que veem nas peças usadas uma forma de baixar a fatura das reparações, prolongar a vida dos automóveis e recuperar materiais que, de outra forma, poderiam deixar de ser aproveitados.

Para Portugal, não significa que amanhã vá entrar numa oficina oficial e encontrar automaticamente uma peça usada como alternativa à nova. Mas o crescimento deste mercado a nível europeu e a entrada direta dos fabricantes mostram uma mudança que poderá progressivamente alargar-se a outros países.

E levanta uma pergunta importante para qualquer automobilista: é realmente seguro reparar um carro com peças usadas? E quanto se pode poupar?

Porque estão as marcas a olhar para as peças usadas?

O ‘L’Automobile Magazine’ chama a atenção para a transformação que está a acontecer no pós-venda europeu. O Grupo Volkswagen anunciou uma parceria com a Global PRE, especialista em peças provenientes da economia circular, para aumentar a disponibilidade destes componentes.

O acordo pretende responder a três objetivos: melhorar a disponibilidade de peças para reparações, reduzir o impacto ambiental associado à manutenção dos automóveis e oferecer uma alternativa economicamente mais atrativa às peças novas.

A legislação também está a empurrar este mercado em alguns países. Em França, por exemplo, as oficinas estão sujeitas a regras que promovem a disponibilização de determinadas peças provenientes da economia circular aos consumidores.

Essa obrigação específica não deve ser automaticamente transposta para Portugal. O que interessa ao automobilista português é perceber a tendência mais ampla: à medida que fabricantes e grandes redes europeias desenvolvem cadeias de fornecimento de peças reutilizadas, aumenta também a possibilidade de estas soluções chegarem progressivamente a mais mercados.

E a Volkswagen está longe de estar sozinha.

A Stellantis criou toda uma atividade dedicada à economia circular, denominada SUSTAINera, e já comercializa peças originais usadas recuperadas de veículos em fim de vida. Em 2025, o negócio de reutilização do grupo cresceu 51%.

Algumas dessas peças são vendidas através da B-Parts e de canais online. Só o centro de desmantelamento de Mirafiori, em Turim, alimenta um catálogo com milhares de componentes usados.

A Stellantis garante que as peças provenientes destes circuitos são identificadas, inspecionadas, limpas e sujeitas a avaliação antes de regressarem ao mercado.

E há um argumento particularmente importante para quem paga a conta: segundo o grupo, determinadas peças originais usadas podem custar até 70% menos do que as equivalentes novas.

Porque pode interessar especialmente a quem tem um carro mais velho?

É provavelmente aqui que esta tendência poderá fazer maior diferença.

Imagine um automóvel com 10, 12 ou 15 anos que precisa de um retrovisor, uma porta, um farol ou determinado componente eletrónico. Uma peça original nova pode representar uma despesa difícil de justificar perante o próprio valor comercial do veículo.

É também uma das razões pelas quais muitos carros deixam progressivamente as redes oficiais à medida que envelhecem.

Uma peça original proveniente de outro veículo, corretamente identificada, verificada e vendida por uma fração do preço pode mudar as contas da reparação.

Para os fabricantes existe igualmente uma vantagem: permite tentar recuperar clientes que, devido ao custo das peças e da manutenção, passaram há muito para oficinas independentes.

Então posso reparar o carro inteiro com peças usadas?

Não.

É precisamente aqui que convém separar aquilo que pode representar uma boa poupança daquilo em que poupar pode não compensar.

Há componentes nos quais uma peça reutilizada pode fazer bastante sentido. Elementos de carroçaria como portas, capôs, guarda-lamas ou tampas da bagageira são exemplos evidentes. O mesmo acontece com vários componentes interiores, faróis, retrovisores, comandos e determinados elementos eletrónicos ou mecânicos, desde que tenham origem conhecida, sejam compatíveis e tenham sido devidamente verificados.

Partiu um retrovisor num automóvel com dez anos? Um conjunto original novo pode ser caro. Uma unidade equivalente retirada de outro veículo e em boas condições pode cumprir exatamente a mesma função por muito menos dinheiro.

O mesmo princípio pode aplicar-se a uma porta, a determinados componentes do habitáculo ou a outras peças que não sejam consumíveis.

E onde não deve tentar poupar desta forma?

Nem tudo deve ganhar uma segunda vida.

Componentes de desgaste e elementos diretamente relacionados com a segurança exigem muito mais cautela.

Pastilhas e discos de travão, filtros, velas ou correias de distribuição são exemplos em que instalar material usado dificilmente fará sentido. São componentes cujo desgaste faz parte do seu funcionamento normal e, em vários casos, o preço da própria peça representa apenas uma pequena parte da intervenção.

Uma correia de distribuição usada é um exemplo particularmente evidente: grande parte da fatura está na mão de obra necessária para chegar ao componente e substituí-lo. Poupar na correia para correr o risco de repetir toda a operação — ou provocar uma avaria grave no motor — não compensa.

Também os airbags exigem cuidados especiais devido à sua importância direta para a segurança, ao histórico do componente e à existência de elementos pirotécnicos.

A regra prática é relativamente simples: quanto maior for o desgaste natural da peça e mais crítica for para a segurança do automóvel, menos sentido fará procurar uma unidade usada.

Usada, reconstruída e reciclada: não é tudo a mesma coisa

Há ainda uma diferença importante que pode facilmente passar despercebida.

Uma peça usada ou reutilizada é um componente retirado de outro automóvel que continua em condições de desempenhar a sua função.

Uma peça reconstruída ou remanufaturada passa por um processo de desmontagem, inspeção e recuperação, podendo receber componentes novos antes de voltar ao mercado.

Já numa peça reciclada, o componente original deixa de ser utilizado enquanto peça: são os seus materiais que regressam ao processo produtivo.

Tudo cabe no conceito mais amplo de economia circular, mas são produtos diferentes e não devem ser confundidos.

Vai chegar a Portugal?

Não existe ainda razão para assumir que o modelo agora promovido noutros mercados europeus será replicado em Portugal exatamente da mesma forma ou no mesmo calendário.

Mas os sinais são relevantes. Quando grupos com a dimensão da Volkswagen e da Stellantis investem em redes de recuperação, certificação e distribuição de componentes usados, deixam de tratar esta atividade como um nicho. Estão a criar escala para aquilo que pode tornar-se uma parte cada vez mais normal do pós-venda automóvel europeu.

Para Portugal, essa evolução poderá significar maior oferta de componentes reutilizados através de redes profissionais e, potencialmente, das próprias marcas, sobretudo à medida que estas plataformas e cadeias de distribuição se expandem. E isso pode ajudar a mudar a própria imagem da peça usada.

Em vez da velha ideia de encontrar num “desmanche” uma peça de origem e estado incertos, o mercado está a caminhar para sistemas em que o componente é identificado, inspecionado, classificado e comercializado através de canais profissionais.

Para quem conduz um automóvel com alguns anos, pode abrir-se assim uma terceira opção entre pagar o preço elevado de uma peça nova e adiar uma reparação porque já não compensa gastar tanto naquele carro.

A tendência ainda está a ganhar escala na Europa. Mas, se chegar com força a Portugal, a pergunta na oficina poderá deixar de ser apenas “quanto custa a peça nova?” e passar a incluir outra: “há uma usada em condições — e quanto é que poupo?”