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Explicador. O que acontece realmente quando um carro elétrico chega aos 0% de bateria?

Automonitor

O indicador desce para 10%, depois 5%, os quilómetros de autonomia começam a desaparecer e, finalmente, surge aquele número que nenhum condutor de um carro elétrico quer ver: 0%. O que acontece a seguir? O automóvel desliga-se imediatamente, como um telemóvel sem bateria, ou ainda é possível continuar?

O indicador desce para 10%, depois 5%, os quilómetros de autonomia começam a desaparecer e, finalmente, surge aquele número que nenhum condutor de um carro elétrico quer ver: 0%. O que acontece a seguir? O automóvel desliga-se imediatamente, como um telemóvel sem bateria, ou ainda é possível continuar?

A resposta é mais interessante do que parece: chegar aos 0% no painel não significa necessariamente que o carro vá parar naquele instante.

O ADAC, o automóvel clube alemão, decidiu testar exatamente isso. Levou seis carros elétricos — Volkswagen ID.3, Tesla Model Y, Kia EV6, Volvo EX40, BYD Seal e Nio EL6 — para uma pista de testes em Penzing, na Alemanha, e conduziu-os deliberadamente até ficarem sem energia.

O objetivo era perceber não apenas quando paravam, mas tudo aquilo que acontecia pelo caminho: quando surgiam os primeiros avisos, quando começava a desaparecer potência e, sobretudo, o que acontecia quando o painel finalmente chegava aos 0%.

E nenhum dos seis parou nesse momento.

Primeiro, o carro começa a avisar

Muito antes dos 0%, o automóvel já está a tentar convencer o condutor a encontrar um carregador.

Segundo o teste do ADAC, os primeiros avisos surgiram geralmente quando restavam entre 15% e 20% da bateria ou cerca de 40 a 80 quilómetros de autonomia, embora existam diferenças consideráveis entre modelos.

O Kia EV6 foi particularmente cauteloso: lançou o primeiro alerta ainda com 21% de carga e aproximadamente 70 quilómetros disponíveis. O Volvo EX40 esperou até aos 7%.

Nesta fase, porém, praticamente nada muda na condução. O carro continua a acelerar normalmente e os sistemas funcionam como habitualmente. O principal sinal está no painel, onde podem surgir mensagens para carregar a bateria ou alterações na cor do respetivo símbolo.

Depois começa a insistir

Continuar a conduzir faz subir o nível de urgência.

Os avisos tornam-se mais frequentes e podem passar de visuais a sonoros. Alguns modelos recomendam medidas para poupar energia, como selecionar o modo Eco ou reduzir a utilização do aquecimento ou do ar condicionado.

É também nesta fase que o condutor pode começar a notar uma mudança importante.

Quando a carga entra nos valores mais baixos, alguns automóveis deixam de disponibilizar toda a potência. Uma aceleração mais forte já não produz exatamente a mesma resposta e o carro começa progressivamente a proteger a pouca energia que lhe resta.

Quanto mais próximo fica dos 0%, mais evidente se torna essa transformação.

A autonomia chega a zero. Mas o carro continua

É aqui que o teste alemão se torna particularmente interessante.

A autonomia restante acaba por chegar a zero. O indicador da bateria mostra 0%. Em alguns modelos pode aparecer o conhecido símbolo da “tartaruga”, associado a uma forte limitação das prestações.

Seria natural esperar que o carro se desligasse. Nenhum dos seis o fez.

Depois dos 0% indicados, os automóveis testados pelo ADAC ainda percorreram aproximadamente 15 a 20 quilómetros antes de deixarem de conseguir manter os 50 km/h exigidos pelos responsáveis pelo ensaio.

Como é possível?

O 0% que aparece no painel não tem necessariamente de significar que desapareceu toda a energia disponível no sistema. Os fabricantes podem manter margens de segurança e, nos automóveis testados, existia uma reserva de emergência que permitiu prolongar a marcha.

É, de certa forma, o equivalente moderno à reserva de combustível. Mas com uma diferença fundamental: o condutor não deve assumir que tem sempre aqueles quilómetros disponíveis.

Então tenho 15 ou 20 quilómetros depois dos 0%?

Não.

E esta é provavelmente a conclusão mais importante de todo o teste.

Os seis automóveis conseguiram percorrer aproximadamente essa distância, mas o próprio ADAC alerta que não se deve transformar o resultado numa regra.

O ensaio decorreu em condições favoráveis: temperaturas amenas, piso praticamente plano e automóveis relativamente recentes.

Na estrada, tudo pode mudar.

Temperaturas baixas reduzem o desempenho disponível da bateria. Uma subida exige mais energia. A velocidade, o vento, a utilização do aquecimento e o estado de saúde da própria bateria também podem alterar aquilo que resta.

O ADAC alerta, por isso, que no inverno, com uma bateria envelhecida ou perante condições mais exigentes, essa margem pode ser bastante menor — ou o carro pode desligar-se mais cedo do que o condutor espera.

Ou seja: ver alguém percorrer 15, 20 ou mais quilómetros depois dos 0% não significa que outro elétrico consiga fazer o mesmo.

E o carro vai ficando cada vez mais lento

Há ainda outra diferença em relação a um depósito de combustível tradicional.

Um automóvel a gasolina pode continuar a disponibilizar praticamente as mesmas prestações até muito perto de consumir as últimas gotas. Num elétrico, o processo de aproximação ao limite pode ser muito mais percetível.

No teste do ADAC, a potência foi sendo progressivamente reduzida. A aceleração tornou-se mais lenta e, já dentro da reserva de emergência, a capacidade de manter velocidade foi diminuindo.

Portanto, aqueles últimos quilómetros não devem ser encarados como autonomia normal escondida.

São uma margem de emergência.

À medida que essa margem se esgota, o automóvel deixa progressivamente de conseguir responder às solicitações do condutor. Quando os veículos testados já não conseguiam manter os 50 km/h definidos no ensaio, o fim estava muito próximo.

E, segundo o ADAC, a partir desse ponto o desligamento pode acontecer rapidamente.

Então o que significa realmente ver 0%?

Não significa necessariamente “o carro vai parar agora”. Significa algo bastante mais importante: já não existe uma autonomia em que o condutor possa confiar.

Pode haver uma reserva que permita chegar ao carregador mais próximo. Pode durar alguns quilómetros. No teste do ADAC, chegou aos 15 a 20. Mas também pode desaparecer mais depressa perante frio, inclinação, maior consumo ou uma bateria em condições diferentes.

É por isso que a recomendação do automóvel clube alemão é clara: a reserva abaixo dos 0% deve ser encarada apenas como um recurso de emergência, e não como quilómetros adicionais que possam ser incluídos no planeamento de uma viagem.

Portanto, se alguma vez olhar para o painel do seu elétrico e vir a bateria chegar aos 0%, há duas coisas que já sabe. O carro pode não parar imediatamente. Mas, a partir desse momento, pode parar a qualquer instante.