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Do 300 SL a um Maybach quase impossível: coleção de mais de 100 veículos vai toda a leilão sem preço mínimo

Automonitor

Há pessoas que compram um automóvel e passam anos com ele. Outras trocam de carro de poucos em poucos anos. E depois há pessoas como Willy Michiels

Há pessoas que compram um automóvel e passam anos com ele. Outras trocam de carro de poucos em poucos anos. E depois há pessoas como Willy Michiels.

Durante décadas, o empresário belga reuniu automóveis, motos, tratores, carruagens e vinho. Gostava de colecionar. Muito.

Quando morreu, em 2020, deixou uma garagem capaz de contar quase um século de história automóvel: Mercedes-Benz, Rolls-Royce, Porsche, Citroën, Alfa Romeo, Volkswagen e dezenas de outras máquinas que dificilmente esperaríamos encontrar juntas no mesmo lugar.

Agora chegou a vez de a garagem desaparecer.

A RM Sotheby’s está a colocar à venda a Willy Michiels Collection, uma extraordinária coleção privada composta por 95 automóveis e sete motos. São 102 lotes, representando 28 marcas e praticamente 100 anos de história, numa venda exclusivamente online que decorre entre 8 e 15 de setembro.

E há um pormenor que torna tudo ainda mais interessante: todos são vendidos sem preço de reserva.

Ou seja, não existe um valor mínimo previamente estabelecido abaixo do qual o proprietário possa recusar a venda.

Quando o último martelo virtual cair, uma coleção construída ao longo de uma vida estará dispersa.

De apanhador de cerejas a multimilionário

A garagem é extraordinária, mas a história de quem a construiu também não é propriamente convencional.

Willy Michiels nasceu em 1937 e cresceu numa família ligada à agricultura na Bélgica. Começou por trabalhar na exploração agrícola dos pais e acabaria por construir a fortuna muito longe dos campos.

Primeiro interessou-se por jukeboxes, que começou a colocar em cafés. Depois percebeu o potencial das máquinas de bingo e de outros equipamentos de jogo.

O negócio cresceu até Michiels se tornar uma das figuras mais conhecidas da indústria do jogo belga, ganhando a alcunha de “rei do bingo”. Foi também fundador da Napoleon Games e construiu interesses no imobiliário, além de ter tido uma longa passagem pela política local.

Morreu em 2020, aos 82 anos.

Mas havia outro lado da sua vida.

Willy Michiels era um colecionador quase compulsivo.

E os automóveis eram apenas uma parte.

A sua extraordinária adega tinha mais de 29 mil garrafas. Havia ainda mais de uma centena de tratores Porsche e dezenas de carruagens históricas.

Aos poucos, esse universo está a ser disperso.

Agora chegaram os carros.

Uma garagem e 43 Mercedes

Basta olhar para o catálogo para perceber que Michiels tinha uma preferência particular.

Mercedes-Benz.

Segundo a RM Sotheby’s, nada menos do que 43 automóveis da marca fazem parte da coleção colocada à venda.

Mas chamar-lhes simplesmente “Mercedes” não faz justiça ao que está naquela garagem.

A estrela é um Mercedes-Benz 300 SL Roadster de 1962.

É um dos apenas 182 exemplares do Roadster produzidos naquele ano e combina duas características especialmente desejadas pelos colecionadores: motor com bloco de alumínio e travões de disco.

O automóvel passou grande parte da sua vida na Suíça e foi submetido a várias intervenções e restauros ao longo das décadas, incluindo um processo realizado pela reputada Kienle Automobiltechnik entre 2014 e 2018.

Michiels comprou-o em 2019.

A RM Sotheby’s estima agora o seu valor entre 900 mil e 1,2 milhões de euros.

É, literalmente, a joia da coleção.

Mas espere até ver o Maybach

Se o 300 SL representa elegância clássica, outro Mercedes da garagem representa praticamente o contrário.

Excesso.

É um Mercedes-Maybach G 650 Landaulet de 2018.

Pegue num Classe G, alongue-o, coloque um motor V12 biturbo de 6,0 litros com 621 cv, instale eixos pórtico, três diferenciais bloqueáveis, bancos traseiros dignos de um Classe S e permita que os ocupantes de trás retirem o teto.

O resultado foi tão absurdo que a Mercedes-Maybach fabricou apenas 99 exemplares.

O de Willy Michiels percorreu somente cerca de 200 quilómetros.

A estimativa?

Entre 600 mil e 700 mil euros.

E não é o único Mercedes invulgar.

Há também um Mercedes-Benz 600 Pullman de seis portas de 1970. Foram produzidas apenas 42 limusinas desta configuração e, segundo a RM Sotheby’s, somente 11 combinaram de fábrica as duas opções presentes neste exemplar: teto de abrir e ar condicionado.

Foi o tipo de automóvel utilizado por reis, chefes de Estado e algumas das figuras mais poderosas do século XX.

Agora está no mesmo catálogo de leilão que um pequeno Citroën 2CV.

Do SLR McLaren ao Peugeot 203

É precisamente essa mistura que torna a coleção especial.

Não foi construída apenas em torno dos automóveis mais caros.

Ao lado do 300 SL está um Mercedes-Benz SLR McLaren Roadster de 2009, com cerca de 16.350 quilómetros, um dos aproximadamente 520 Roadsters produzidos. A estimativa situa-se entre 250 mil e 300 mil euros.

Há ainda um Mercedes-Benz SLS AMG de 2010, Porsche, sete Rolls-Royce, vários Citroën e carros muito menos óbvios.

Um dos mais curiosos é um Peugeot 203 Découvrable de 1957.

O 203 foi o primeiro automóvel de produção da Peugeot no pós-guerra e apenas 2.567 exemplares desta versão descapotável foram construídos.

Não vale um milhão de euros.

A estimativa fica entre 40 mil e 50 mil.

Mas talvez seja precisamente isso que explica melhor a garagem de Michiels.

Não parece ter sido montada apenas através de uma folha Excel onde cada automóvel precisava de valorizar.

Havia espaço para aquilo de que o colecionador simplesmente gostava.

Há carros que podem nem conseguir sair dali pelos próprios meios

E existe ainda uma particularidade importante para qualquer pessoa tentada a fazer uma licitação.

Muitos destes automóveis passaram longos períodos em exposição estática.

A própria RM Sotheby’s alerta que alguns necessitarão de manutenção e intervenção mecânica antes de poderem regressar à estrada.

São vendidos no estado em que se encontram.

É quase uma ironia.

Uma coleção construída para preservar automóveis pode ter acabado por mantê-los demasiado tempo parados.

Neste sábado, 12 de setembro, e domingo, 13, os interessados podem visitar a coleção em Aalst, na Bélgica. Depois disso, resta pouco tempo.

As licitações terminam a 15 de setembro.

E quando terminarem, aquela garagem deixará de existir como Willy Michiels a conheceu.

O 300 SL poderá partir para um país. O enorme Pullman para outro. O pequeno Peugeot poderá acabar noutra coleção e o Maybach de 621 cv talvez finalmente acrescente alguns quilómetros aos 200 que percorreu.

É normalmente assim que olhamos para um leilão: carro a carro, lote a lote, preço a preço.

Neste caso talvez valha a pena olhar uma última vez para o conjunto.

Porque Willy Michiels demorou décadas a construí-lo. E serão necessários apenas oito dias para o desfazer.