Parece um argumento saído de “Gone in 60 Seconds”, o filme protagonizado por Nicolas Cage em que uma equipa de ladrões tem de roubar dezenas de automóveis numa operação cuidadosamente planeada. Mas, neste caso, a história é real e aconteceu em França: uma alegada rede especializada em automóveis clássicos e de luxo é suspeita de ter roubado 17 veículos avaliados num total de 3,5 milhões de euros.
O método tinha ainda uma particularidade: alguns dos carros poderiam já ter comprador antes sequer de desaparecerem.
Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, que cita detalhes da investigação revelados pelo ‘Le Parisien’, 14 homens, com idades entre os 25 e os 63 anos, foram constituídos arguidos no âmbito do caso.
Entre os automóveis visados estão modelos tão cobiçados por colecionadores como o Renault 5 Turbo e o Jaguar E-Type.
Primeiro encontravam comprador. Depois roubavam o carro
A investigação terá começado depois do desaparecimento de um Renault 5 Turbo, na noite de 27 de setembro de 2025, num parque de estacionamento do 7º arrondissement de Paris.
Não era um alvo qualquer. O desportivo francês tornou-se um automóvel de coleção particularmente valorizado, com exemplares frequentemente acima dos 100 mil euros e alguns a aproximarem-se dos 150 mil em leilão.
A Brigada de Repressão ao Banditismo (BRB) começou então a seguir o rasto de uma equipa que, segundo as autoridades, se especializara em clássicos e automóveis de luxo.
Ao longo de aproximadamente oito meses, o grupo terá desenvolvido um método bastante organizado.
Os veículos eram primeiro identificados, por vezes com a colaboração de cúmplices que recebiam dinheiro pela informação. Depois chegavam as fotografias e os vídeos.
Esse material era enviado através de serviços de mensagens seguras a potenciais compradores. Em determinados casos, segundo a investigação, o futuro recetador poderia inclusivamente deslocar-se ao local para observar o automóvel.
Ou seja: o negócio podia estar praticamente fechado antes de o proprietário saber que estava prestes a ficar sem o carro.
O roubo só avançava quando havia interesse
Encontrado o comprador, chegaria então o momento de levar o automóvel.
Os suspeitos dirigiam-se ao parque de estacionamento onde este se encontrava e, nos modelos mais antigos, terão chegado a substituir o canhão da ignição para conseguir colocar o motor a trabalhar.
Depois, o carro era retirado de Paris e encaminhado para quem o iria receber.
No total, a investigação atribui ao grupo o roubo de 17 veículos em Paris e nos departamentos de Hauts-de-Seine, Val-de-Marne e Val-d’Oise.
O prejuízo global é estimado em 3,5 milhões de euros.
Feitas as contas, são mais de 200 mil euros por automóvel, em média — um número que ajuda a perceber o tipo de veículos que estava na mira da rede.
Carros ficavam “à espera” para descobrir se tinham localizador
Nem depois do roubo os suspeitos entregariam imediatamente todos os automóveis.
Segundo os elementos da investigação citados pela imprensa francesa, alguns eram deixados durante um ou dois dias num parque de estacionamento público.
A razão terá sido uma medida de segurança: esperar para perceber se o veículo possuía algum dispositivo de localização que permitisse ao proprietário ou à polícia seguir os seus movimentos.
Só depois deste período o automóvel seguiria para o destino seguinte.
A investigação deu um passo importante a 14 de março, quando a polícia deteve um dos principais suspeitos na sequência do roubo de um Jaguar E-Type descapotável, retirado de um estacionamento público no 17.º arrondissement de Paris.
O clássico britânico estava avaliado em cerca de 200 mil euros.
Pouco depois, três alegados cúmplices foram igualmente detidos.
Porsches, Jaguars e Mercedes recuperados
A polícia virou então a atenção para os suspeitos de receber e comprar os veículos.
Entre abril e meados de julho, foram recuperados automóveis das marcas Porsche, Jaguar e Mercedes na região parisiense, mas também na Gironda e no norte de França.
Um dos veículos foi localizado numa garagem onde, segundo o ‘Le Parisien’, os investigadores encontraram equipamento que poderia ser utilizado para modificar a aparência dos automóveis.
As buscas permitiram ainda apreender armas, cerca de 30 mil euros em dinheiro e multas de estacionamento que poderão ajudar a reconstituir os movimentos dos suspeitos.
No total, 14 homens acabaram constituídos arguidos no processo.
Um verdadeiro “Gone in 60 Seconds”? Há uma diferença
A comparação com o filme protagonizado por Nicolas Cage é tentadora, mas o método atribuído à rede francesa tinha uma diferença importante.
Em “Gone in 60 Seconds”, os ladrões trabalham a partir de uma lista de automóveis que têm de fazer desaparecer. Neste caso, a investigação aponta para um processo quase inverso: os suspeitos identificariam primeiro um clássico valioso, recolheriam imagens, procurariam alguém interessado em comprá-lo e só depois avançariam para o roubo.
Era, portanto, uma espécie de mercado por encomenda — com o automóvel ainda na posse do legítimo proprietário enquanto o alegado negócio já começava a ser preparado.
Outro golpe levou 20 carros de luxo numa única noite
O caso surge poucos meses depois de outro roubo de grande dimensão em Paris.
Na noite de 16 para 17 de maio de 2026, cerca de 20 automóveis de luxo desapareceram de uma empresa privada de armazenamento e gestão de veículos no 15.º arrondissement.
Entre os carros roubados encontravam-se modelos da Porsche, Maserati e Ferrari, incluindo Ferrari 458 Italia.
Não há, nesta fase, qualquer indicação de que os dois casos estejam relacionados.
Os métodos também seriam diferentes. No roubo de maio, os autores aproveitaram a concentração de vários automóveis, juntamente com as respetivas chaves e documentação, para retirar muitos veículos numa única operação.
No caso agora revelado, o trabalho começaria muito antes: localizar o automóvel certo, estudá-lo, mostrá-lo a potenciais interessados e, em alguns casos, garantir-lhe destino antes de o fazer desaparecer.
Se “Gone in 60 Seconds” transformou o roubo de automóveis por encomenda numa história de Hollywood, esta investigação francesa mostra uma versão menos cinematográfica e potencialmente muito lucrativa do mesmo princípio: primeiro saber quem quer o carro, depois ir buscá-lo — mesmo que ainda pertença a outra pessoa.






