Uma moto com um túnel a atravessar a carroçaria, um motor de apenas 449 cc com compressor e uma ambição invulgar: atingir 100 cv de potência com apenas 100 kg de peso. Chama-se WMC Mono RR e foi criada por uma empresa britânica que acredita ter encontrado uma nova forma de tornar as motos mais rápidas e eficientes. Os primeiros cálculos são promissores, mas a verdadeira prova ainda está por fazer.
À primeira vista, a WMC Mono RR parece uma moto de competição com uma carenagem particularmente elaborada. Mas a sua característica mais importante não está no motor nem nas suspensões.
Está num túnel aerodinâmico que atravessa praticamente toda a moto, desde a frente até à traseira, permitindo que uma parte do ar passe pelo seu interior.
A solução foi desenvolvida pela White Motorcycle Concepts (WMC), empresa britânica de engenharia fundada por Rob White, com experiência na Fórmula 1.
Segundo uma reportagem publicada esta quarta-feira pela ‘Australian Motorcycle News’ (AMCN), o projeto procura demonstrar que é possível melhorar significativamente a aerodinâmica sem obrigar o motociclista a adotar uma posição de condução desconfortável.
E os resultados das simulações já chamam a atenção.
Uma moto que deixa o ar passar pelo meio
Numa moto convencional, o ar encontra a frente do veículo e é desviado à volta da carenagem e do condutor.
A WMC decidiu experimentar outra abordagem: criar um canal central que permita ao ar atravessar a máquina, reduzindo a resistência aerodinâmica.
Para concretizar a ideia, os engenheiros utilizaram como base uma Krämer EVO2 690R, uma moto desportiva concebida para utilização em pista.
As simulações computacionais realizadas pela empresa apontam para uma redução de 16,4% na resistência aerodinâmica e de 77% na sustentação aerodinâmica, quando comparada com a moto original.
A distinção é importante: reduzir a sustentação não significa necessariamente aumentar a força descendente na mesma proporção.
Os cálculos indicam ainda uma melhoria de 16% na gestão térmica e um potencial de redução de aproximadamente 7% no consumo de combustível.
Contudo, estes valores resultam de simulações e cálculos de desenvolvimento. Ainda não devem ser interpretados como ganhos definitivamente comprovados em utilização real.
Um motor mais pequeno para abrir espaço a uma grande ideia
A criação do túnel obrigou a modificar profundamente a arquitetura da moto.
O motor original da Krämer, um monocilíndrico KTM de aproximadamente 690 cc, foi substituído por uma unidade Yamaha de 449 cc, mais compacta.
A WMC acrescentou-lhe um compressor Rotrex, desenvolvido para aumentar a potência disponível e compensar a redução da cilindrada.
O objetivo inicial é atingir uma potência semelhante à da moto original, na ordem dos 75 cv.
Numa fase posterior, a empresa pretende chegar aos 100 cv e reduzir o peso total para 100 kg.
São metas de desenvolvimento, não valores finais já demonstrados.
O espaço libertado pelo motor mais pequeno permitiu integrar o túnel aerodinâmico, redesenhar o depósito de combustível e criar novos componentes estruturais em materiais compósitos, incluindo fibra de carbono.
Apesar das alterações, a Mono RR mantém a posição de condução, a altura do banco e a geometria essencial do chassis da Krämer original.
A intenção é mostrar que esta tecnologia poderá ser adaptada a outras motos sem obrigar os fabricantes a começar cada projeto do zero.
Vai chegar às estradas?
Para já, não.
A WMC Mono RR é um demonstrador tecnológico, desenvolvido para testar soluções de engenharia e não para ser vendido ao público.
A empresa pretende validar os resultados das simulações através de ensaios físicos e de utilização em pista, comparando os valores previstos com o comportamento real da moto.
O objetivo a longo prazo é convencer fabricantes estabelecidos a incorporar estas soluções em futuros modelos de estrada ou de competição.
Segundo o ‘Visordown’, que também analisou o projeto esta terça-feira, a WMC acredita que a combinação de motores mais compactos com uma aerodinâmica melhorada poderá permitir motos mais leves, eficientes e com prestações superiores.
A empresa não está, portanto, a anunciar uma nova desportiva para os concessionários. Está a apresentar uma tecnologia que poderá interessar à indústria.
A Mono RR deverá também ser mostrada na EICMA, em Milão, entre 3 e 8 de novembro, onde a WMC pretende apresentar o projeto a fabricantes e especialistas.
Até lá, permanece uma pergunta: será que fazer o ar atravessar uma moto, em vez de o obrigar a contorná-la, poderá tornar-se uma solução habitual nas próximas gerações?
Os números das simulações são promissores. Falta perceber até que ponto resistem ao teste mais importante: a realidade.






