À primeira vista, há qualquer coisa de estranho nesta moto.
A carroçaria parece saída de uma ilustração futurista dos anos 1930, as duas rodas estão parcialmente escondidas e quase não há mecânica à vista. Onde esperaríamos encontrar um motor, entre as pernas do condutor, encontramos… praticamente nada.
Para perceber o que se passa é preciso olhar para a roda da frente.
Está lá o motor.
E não apenas o motor.
Na Killinger & Freund, uma das experiências mais extraordinárias da história do motociclismo, boa parte daquilo que normalmente ocupa o centro de uma moto foi concentrado no conjunto dianteiro.
Três cilindros, 600 cc, embraiagem e uma caixa de duas velocidades estavam associados à roda da frente. E era também ela que colocava a moto em movimento.
Tudo isto em 1938.
Cinco homens decidiram fazer uma moto ao contrário
A história começara cerca de três anos antes.
Cinco técnicos de Munique decidiram desenvolver uma moto que rompesse com algumas das convenções da época. Robert Killinger ficou particularmente associado ao desenvolvimento do motor, Walter Freund ao desenho do quadro e Fritz Cockerell também participou no trabalho mecânico.
A ideia de colocar um motor na roda dianteira não era inteiramente inédita.
Anos antes, outra extraordinária moto alemã, a Megola, já utilizara uma solução semelhante. Mas a equipa de Killinger e Freund queria ir mais longe e criar uma máquina mais simples, leve, aerodinâmica e adequada ao uso quotidiano.
O resultado ficou conhecido como Killinger & Freund e também pelo nome Friedenstaube — “Pomba da Paz”.
Por baixo daquela carroçaria quase futurista escondia-se uma solução mecânica difícil de imaginar mesmo hoje.
Aquela roda pesava 50 quilos por uma boa razão
O motor era um três cilindros de 600 cc a dois tempos.
Os cilindros estavam dispostos no interior da enorme roda dianteira e trabalhavam através das respetivas cambotas sobre uma engrenagem comum. Ao mesmo conjunto estavam associadas a embraiagem e uma transmissão de duas velocidades.
Só a roda dianteira, com toda esta maquinaria instalada, pesava cerca de 50 quilos.
A moto inteira ficava pelos 135.
Algumas pistas do que se escondia ali continuavam visíveis. Entre os raios da roda surgiam os tubos de escape e as cabeças dos cilindros com as respetivas aletas de refrigeração.
Até os raios tinham uma segunda função: a sua forma ajudava a movimentar ar para refrigerar o conjunto.
Era uma solução invulgar até para uma época em que os engenheiros ainda estavam a experimentar livremente diferentes formas de construir uma moto.
E havia outra inversão importante.
A Killinger & Freund tinha tração dianteira.
O motor não enviava a potência através de uma corrente para a roda traseira. A força estava precisamente onde era necessária: na roda da frente.
Parecia futurista porque esconder a mecânica fazia parte do plano
A aparência da moto não surgiu apenas da vontade de criar algo bonito.
A aerodinâmica era uma das prioridades do projeto.
A equipa procurou esconder os componentes móveis e proteger a mecânica da água, lama e sujidade. Quadro, depósito e grande parte das rodas desapareceram assim sob superfícies arredondadas.
O resultado é uma silhueta que, quase nove décadas depois, continua difícil de associar a 1938.
Mas os engenheiros não estavam apenas a desenhar um objeto para exposição.
A moto foi construída, o motor passou por testes em bancada e o protótipo chegou a circular.
Depois de cerca de três anos de desenvolvimento, a Killinger & Freund foi apresentada publicamente em 1938.
O passo seguinte seria transformar aquela experiência numa moto que pudesse efetivamente chegar às estradas.
Foi precisamente aí que a história mudou.
Chegou no pior momento possível
A equipa procurou apoio para avançar com a produção. Existem registos de contactos de Walter Freund com a Gustloff-Werke em 1940, numa tentativa de dar futuro industrial ao projeto.
Mas a Europa já estava em guerra. A II Guerra Mundial acabou por destruir qualquer perspetiva realista de transformar aquela estranha moto de tração dianteira num produto de série. E a própria Killinger & Freund acabaria envolvida na turbulência desses anos.
Em 1945, militares dos EUA encontraram um exemplar nas instalações da Gustloff-Werke, em Suhl, na Alemanha. Existem fotografias da moto nas mãos dos soldados. O que aconteceu depois é muito menos claro. Há relatos de que terá seguido para os Estados Unidos e diferentes histórias sobre o seu destino posterior. Também não existe certeza absoluta sobre quantos exemplares chegaram a ser construídos.
O que resta da máquina original e o seu paradeiro continuam envolvidos em dúvidas.
Uma moto que ainda parece estranha quase 90 anos depois
A Killinger & Freund nunca teve oportunidade de provar se aquela arquitetura poderia funcionar num veículo produzido em grande escala.
Talvez fosse demasiado complexa. Talvez a concentração de tanto peso na roda dianteira acabasse por criar outros problemas. Talvez uma versão de produção tivesse obrigado a equipa a abandonar algumas das soluções mais radicais.
Nunca chegámos a descobrir.
A guerra interrompeu a experiência antes de o mercado poder dar uma resposta.
Mas isso também ajudou a congelar a Killinger & Freund no tempo.
Não houve segunda geração, versão mais barata ou evolução que normalizasse aquela ideia. Ficaram algumas fotografias, documentação técnica e uma moto que continua a parecer construída segundo regras diferentes das restantes.
Porque quase tudo aquilo que esperamos encontrar no centro de uma moto estava noutro sítio.
Bastava olhar para a roda da frente.






