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Está em todos os carros modernos, mas nasceu para proteger os passageiros da lama dos cavalos

Imagem gerada por IA
Francisco Laranjeira

E para perceber de onde vem é preciso esquecer motores, estradas e ecrãs digitais e regressar a uma época em que os veículos tinham quatro patas à frente

Está à frente do condutor desde praticamente o nascimento do automóvel. Hoje concentra ecrãs, velocímetro, conta-rotações, avisos, mapas, comandos e uma quantidade crescente de informação. Em inglês, todos lhe chamam dashboard.

O curioso é que a palavra é muito mais antiga do que o automóvel.

E para perceber de onde vem é preciso esquecer motores, estradas e ecrãs digitais e regressar a uma época em que os veículos tinham quatro patas à frente.

Segundo o Online Etymology Dictionary, a utilização da palavra dashboard remonta ao século XIX e começou nas carruagens puxadas por cavalos.

Antes do automóvel, havia lama

Viajar numa carruagem tinha um inconveniente bastante previsível.

Os cavalos corriam à frente, os cascos batiam no chão e lama, água, pedras e outros detritos podiam ser projetados para trás, precisamente na direção dos ocupantes.

A solução foi colocar uma espécie de painel ou anteparo na parte dianteira da carruagem para impedir que aquilo que era projetado pelos cavalos chegasse aos passageiros.

Era o dashboard.

O nome torna-se bastante mais lógico quando se percebe a construção da palavra. Dash podia descrever o ato de lançar ou projetar algo com força e board significava, literalmente, uma placa ou painel.

Ou seja, o dashboard era essencialmente uma barreira contra aquilo que era lançado na direção dos ocupantes.

Nada de velocímetros. Nada de conta-rotações. Nada de luzes de aviso.

Muito menos um enorme ecrã tátil.

Chegaram os carros, desapareceram os cavalos. O nome ficou

Quando apareceram os primeiros automóveis, muita da linguagem utilizada nas carruagens passou naturalmente para as novas máquinas.

E o dashboard foi uma dessas heranças.

Os primeiros automóveis mantiveram um painel dianteiro que ajudava a proteger os ocupantes de água, lama e detritos projetados pelas rodas e pela estrada.

Só que o automóvel começou rapidamente a evoluir.

Os motores ganharam complexidade, os condutores passaram a precisar de informação sobre aquilo que estava a acontecer na máquina e aquele espaço dianteiro revelou-se o lugar ideal para colocar instrumentos.

Pouco a pouco começaram a surgir mostradores e comandos.

O painel que anteriormente servia sobretudo de proteção transformou-se no centro de informação do automóvel.

Mas ninguém mudou o nome.

De barreira contra a lama a computador gigante

Mais de um século depois, dificilmente poderia existir uma diferença maior.

O dashboard de um automóvel moderno pode mostrar velocidade, consumo, autonomia, navegação, chamadas telefónicas, música, temperatura, pressão dos pneus e informação dos sistemas de assistência à condução.

Em alguns carros praticamente desapareceram os instrumentos físicos. O painel passou a ser dominado por um ou vários ecrãs e há modelos em que uma única superfície digital atravessa grande parte do habitáculo.

A função original desapareceu por completo.

A palavra, não.

É uma daquelas pequenas heranças de uma época anterior ao automóvel que sobreviveram escondidas no vocabulário que continuamos a utilizar todos os dias.

Tal como o porta-luvas continua a chamar-se porta-luvas apesar de quase ninguém lá guardar luvas, o dashboard continua a transportar no nome uma função que deixou de desempenhar há mais de um século.

Um pedaço das carruagens escondido nos carros modernos

Talvez seja precisamente isso que torna a história curiosa.

Podemos entrar num automóvel elétrico com centenas de cavalos de potência, ligar um enorme ecrã digital, pedir ao sistema que calcule a melhor rota e deixar que o carro mantenha sozinho a distância para o veículo da frente.

E, em inglês, continuamos a olhar para o dashboard.

Uma palavra criada quando o maior problema daquele painel não era mostrar a autonomia da bateria.

Era impedir que a lama levantada pelos cavalos chegasse aos passageiros.