<br><br><div align="center"><!-- Revive Adserver Asynchronous JS Tag - Generated with Revive Adserver v5.5.0 -->
<ins data-revive-zoneid="25" data-revive-id="6815d0835407c893664ca86cfa7b90d8"></ins>
<script async src="//com.multipublicacoes.pt/ads/www/delivery/asyncjs.php"></script></div>
Partilhar

A Pollen quer mudar a forma como usamos as motas elétricas. Cofundador da empresa distinguida pela TIME explica como

A Pollen quer mudar a forma como usamos as motas elétricas. Cofundador da empresa distinguida pela TIME explica como
Pollen, Rui Bento, Miguel Morgado
Francisco Laranjeira

Em entrevista à Automonitor, Miguel Morgado, cofundador e diretor de tecnologia (CTO), explica como funciona a inovação, quanto custa utilizá-la e o que falta para transformar esta solução numa alternativa à gasolina

A Pollen não quer apenas desenvolver uma bateria melhor. Quer mudar a forma como utilizamos as motas elétricas, eliminando um dos principais obstáculos à sua adoção: as horas de espera pelo carregamento. A ideia nasceu em Portugal, já chegou às ruas de Lisboa e acaba de ser distinguida pela revista TIME entre as melhores invenções de 2026.

Em entrevista à Automonitor, Miguel Morgado, cofundador e diretor de tecnologia (CTO), explica como funciona a inovação, quanto custa utilizá-la e o que falta para transformar esta solução numa alternativa à gasolina.

Fundada em 2024, a empresa desenvolveu uma bateria compatível com motas de diferentes fabricantes, que pode ser substituída numa estação automatizada em segundos. Desde o início da operação em Lisboa, em março, já realizou mais de 25 mil trocas, sobretudo ao serviço de profissionais que dependem das duas rodas para trabalhar.

A Pollen angariou 3,2 milhões de euros e admite que poderão surgir novidades sobre financiamento em breve. Mas a expansão levanta desafios: construir uma rede suficientemente abrangente, chegar aos motociclistas particulares e demonstrar a sustentabilidade económica do modelo. É sobre essa ambição, e sobre os obstáculos que ainda enfrenta, que Miguel Morgado fala nesta entrevista.

Uma bateria para diferentes marcas: o que torna a Pollen diferente?

A revista TIME acaba de distinguir a Pollen entre as melhores invenções de 2026. O que pode mudar para a empresa com esse reconhecimento? Abrir portas a novos investidores, fabricantes ou parceiros internacionais?

A distinção da TIME é, antes de mais, um reconhecimento de uma tecnologia desenvolvida em Lisboa, por uma equipa portuguesa, para resolver um problema que vai muito além de Portugal.

Enquanto os automóveis estão a eletrificar-se, a grande maioria das motas continua a circular a gasolina. As alternativas elétricas são, muitas vezes, mais caras e exigem várias horas de carregamento. O reconhecimento da TIME mostra que este é um problema relevante à escala internacional e que a solução que estamos a desenvolver tem potencial para fazer a diferença.

Naturalmente, uma distinção destas dá-nos maior visibilidade junto de fabricantes, operadores de frotas, parceiros e investidores. Ajuda-nos a chegar a pessoas e organizações com quem, de outra forma, seria mais desafiante iniciar uma conversa.

Mas o que vai determinar o nosso crescimento continua a ser a qualidade do serviço que prestamos todos os dias. Sobre financiamento, esperamos poder partilhar novidades em breve.

A ideia da Pollen parece simples: substituir uma bateria descarregada por outra em segundos. Porque é que uma solução aparentemente tão evidente ainda não se tornou habitual nas cidades europeias?

Porque a ideia é simples, mas colocá-la em prática, à escala de uma cidade, é bastante mais complexo.

Para que a troca de baterias funcione, é necessária uma rede de estações suficientemente densa para que os utilizadores tenham sempre uma por perto. E, para que essa rede seja viável, tem de poder servir motas de diferentes marcas e modelos.

Até hoje, o setor desenvolveu-se sobretudo em sistemas fechados, em que cada fabricante utiliza as suas próprias baterias, conectores e sistemas de carregamento. É como se os automóveis de uma determinada marca só pudessem abastecer em postos dessa mesma marca.

Foi esse o problema que decidimos resolver. Desenvolvemos uma bateria capaz de se adaptar a diferentes veículos, combinando três tecnologias: o Electronic Cell Switching, que ajusta a tensão de saída às necessidades de cada motor; um sistema de comunicação que permite à bateria interagir com a eletrónica de diferentes motas; e um conector modular, desenhado para garantir a compatibilidade física com vários modelos.

A Pollen já ultrapassou as 25 mil trocas de baterias em Lisboa. Quantas motas utilizam atualmente o sistema, quantas estações estão operacionais e que crescimento registaram?

Desde que começámos a operar em Lisboa, em março deste ano, já realizámos mais de 25 mil trocas de baterias. É um número que nos deixa particularmente satisfeitos, porque representa um serviço que está a ser utilizado diariamente por pessoas que dependem da mota para trabalhar.

Nesta fase, não divulgamos ainda o número de utilizadores nem indicadores detalhados de crescimento. Temos vindo a desenvolver a nossa rede em Lisboa, com estações instaladas em postos de abastecimento da Galp.

Mais do que aumentar rapidamente o número de estações, queremos construir uma rede densa, fiável e conveniente. O objetivo é que trocar uma bateria seja tão simples como abastecer uma mota a gasolina.

Quanto custa utilizar a Pollen e quando chega aos particulares?

Falemos de dinheiro. Quanto custa realmente utilizar uma mota elétrica com baterias da Pollen? Quanto pode poupar um estafeta que percorra 100 quilómetros por dia, comparativamente com uma mota a gasolina?

O nosso objetivo é simples: tornar a mobilidade elétrica mais económica e conveniente do que a gasolina, sobretudo para quem faz muitos quilómetros todos os dias.

Trabalhamos com parceiros locais que disponibilizam motas elétricas equipadas com baterias Pollen. Mais recentemente, começámos também a explorar o aluguer direto ao consumidor, procurando oferecer maior flexibilidade e diferentes opções de acesso a estes veículos.

Hoje, um estafeta pode alugar uma mota elétrica nova por cerca de 70 a 80 euros por semana, com energia ilimitada incluída. Existem também outras opções, com diferentes modelos de mota e planos de energia, adaptadas às necessidades de cada pessoa.

A poupança não está apenas no combustível. As motas elétricas têm, em geral, custos de manutenção mais reduzidos e, no nosso modelo, o utilizador não precisa de investir na compra da bateria, um dos componentes mais caros do veículo.

A poupança exata depende da mota e da utilização de cada pessoa, mas acreditamos que é precisamente para quem depende do veículo para trabalhar que a transição para o elétrico pode fazer maior diferença.

A bateria da Pollen é compatível com diferentes fabricantes. Qual é a principal dificuldade para convencer as marcas a adotar esta tecnologia? Existe resistência por parte da indústria?

A nossa abordagem não passa por convencer os fabricantes a adotar uma nova tecnologia ou a redesenhar as suas motas em torno da nossa bateria. É precisamente o contrário: desenvolvemos uma bateria que se adapta aos veículos que já existem.

Para que um modelo compatível possa utilizar a nossa rede, basta instalar um pequeno dispositivo. É um procedimento simples, que demora poucos minutos e não exige alterações à eletrónica original da mota.

Hoje, as baterias da Pollen já são utilizadas em motas de diferentes marcas, incluindo Horwin, Niu e Vmoto.

O maior desafio tem sido ultrapassar a fragmentação técnica que existe no setor. Cada fabricante desenvolveu os seus próprios sistemas e, durante muito tempo, isso dificultou a criação de uma infraestrutura comum.

A indústria automóvel cresceu com uma infraestrutura de abastecimento que serve veículos de diferentes fabricantes. Queremos trazer essa mesma lógica para as duas rodas elétricas.

A operação está atualmente concentrada nas frotas profissionais. Quando poderá um motociclista particular utilizar a rede da Pollen?

Queremos que a Pollen seja uma solução para todas as pessoas que utilizam uma mota ou scooter na cidade. Mas decidimos começar por quem tem uma necessidade mais urgente: os profissionais que dependem da mota para trabalhar.

Falamos de estafetas, operadores de frotas e empresas de logística urbana, que percorrem muitos quilómetros por dia e para quem o tempo parado representa uma perda direta de rendimento.

No caso dos particulares, existe outro problema que também queremos resolver. Em Lisboa, como em muitas cidades europeias, grande parte das pessoas vive em apartamentos sem garagem ou acesso fácil a carregamento. Mesmo quando as baterias são amovíveis, transportá-las diariamente até casa, por vezes por vários lanços de escadas, está longe de ser uma solução prática.

Para alargarmos o serviço a este público, precisamos sobretudo de continuar a aumentar a densidade da rede. Queremos que qualquer pessoa consiga encontrar uma estação perto de casa, do trabalho ou dos seus percursos habituais, sem ter de fazer grandes desvios.

Quando tivermos as condições necessárias para garantir essa experiência, poderemos avançar para um público mais alargado.

“Portugal é muito mais do que um mercado de teste”

Lisboa foi o primeiro mercado, mas a empresa quer crescer internacionalmente. Qual será a próxima cidade a receber a Pollen? Podemos esperar anúncios em 2027?

Lisboa é o nosso primeiro mercado e é aqui que continuamos a concentrar grande parte dos nossos esforços. Queremos aumentar a densidade da rede, chegar a mais utilizadores e garantir que a troca de baterias se torna uma parte natural do dia a dia de quem anda de mota elétrica.

Mas a Pollen nasceu com uma ambição internacional. O problema que estamos a resolver não é exclusivo de Portugal. Existem mais de 55 milhões de motas e scooters em circulação na Europa, na sua grande maioria movidas a gasolina.

Crescer não é apenas chegar a novas cidades. É construir uma presença sólida em cada mercado, com uma rede fiável, próxima dos utilizadores e capaz de responder às suas necessidades. Isso exige tempo, investimento e relações com parceiros locais.

Ainda é cedo para avançar com cidades ou datas concretas, mas queremos garantir que, quando dermos esse passo, estaremos preparados para construir uma operação com solidez e compromisso a longo prazo.

A Pollen angariou 3,2 milhões de euros. Quanto custa instalar uma estação de troca de baterias e o modelo já é rentável ou continua dependente de investimento?

Até à data, a Pollen levantou 3,2 milhões de euros, numa ronda pré-seed liderada pela Pale Blue Dot e pela Mustard Seed Maze, que contou também com a participação de outros fundos e investidores privados.

Não divulgamos, nesta fase, o custo de instalação das estações nem indicadores financeiros da operação.

Mas há dois aspetos importantes na forma como desenhámos o nosso modelo. O primeiro é o aproveitamento de infraestruturas existentes. As primeiras estações em Lisboa foram instaladas em postos de abastecimento da Galp, locais onde os condutores já estão habituados a parar.

O segundo é a utilização partilhada das baterias. Uma mesma bateria pode servir diferentes utilizadores ao longo do dia, permitindo uma utilização mais eficiente dos recursos. Para a mesma quantidade de energia fornecida, isto pode significar menos baterias em circulação e uma menor necessidade de matérias-primas.

Construir uma rede com estas características exige investimento e um trabalho contínuo de expansão e otimização da operação. Quanto a novos financiamentos, esperamos poder partilhar novidades em breve.

A troca rápida elimina a espera pelo carregamento, mas não resolve automaticamente todos os desafios das baterias. Como gerem a degradação, a reciclagem e os períodos de maior procura?

A gestão das baterias é uma das vantagens do nosso modelo. Na Pollen, cada bateria é diagnosticada automaticamente sempre que entra numa estação: verificamos o balanceamento entre as células, a temperatura e o estado de saúde. Só uma bateria que passe nestes testes é disponibilizada ao utilizador seguinte.

Uma bateria com qualquer indicador fora do normal fica retida na estação e é recolhida pela nossa equipa para inspeção e manutenção.

Quando uma bateria atinge cerca de 80% do seu estado de saúde original, retiramo-la da rede, porque deixa de oferecer a melhor experiência ao utilizador. Continua, no entanto, apta para outras utilizações, em particular o armazenamento estacionário de energia. É nessa segunda vida que estamos também a trabalhar.

Quanto aos períodos de maior procura, as estações usam algoritmos de gestão de carregamento para assegurar que há baterias prontas quando os utilizadores chegam. A rede é construída com redundância, com várias estações próximas e várias baterias por estação. A aplicação mostra a disponibilidade antes de o utilizador se deslocar.

Portugal tem condições para se tornar um mercado de referência nesta tecnologia ou continuará a ser sobretudo um local de teste antes da expansão internacional?

Portugal é muito mais do que um mercado de teste para a Pollen. É onde desenvolvemos a nossa tecnologia, onde produzimos as nossas baterias e onde estamos a construir uma operação que já serve diariamente pessoas que dependem da mota para trabalhar.

Acreditamos que Portugal tem uma oportunidade importante nesta área. A eletrificação das duas rodas continua a ser um desafio em grande parte da Europa, e temos aqui tecnologia, talento e capacidade para contribuir para a sua solução.

Uma das condições que podem ajudar a acelerar esse processo é garantir que os incentivos à mobilidade elétrica acompanhem novos modelos de utilização, como a compra de veículos sem bateria, associada a uma subscrição de energia. Outra é tornar mais simples e previsível o licenciamento de infraestruturas de troca de baterias.

A colaboração com fabricantes e distribuidores também será importante para que cada vez mais modelos possam utilizar redes partilhadas.

Acredita que estamos a assistir ao princípio do fim das motas a gasolina nas cidades? Arrisca apontar um ano em que as elétricas serão mais práticas e económicas para a maioria dos utilizadores?

Acredito que, a prazo, as motas elétricas vão substituir grande parte das motas a gasolina nas cidades. A questão é perceber a que velocidade essa transição vai acontecer e o que falta fazer para a tornar possível.

Não arriscaria apontar um ano, até porque, para alguns utilizadores, essa mudança já faz sentido hoje. É o caso de muitos profissionais que percorrem dezenas ou centenas de quilómetros por dia e para quem os custos de combustível e o tempo de paragem têm um peso significativo.

Com um modelo como o da Pollen, em que a bateria não precisa de ser comprada juntamente com a mota e pode ser trocada em segundos, conseguimos eliminar algumas das principais desvantagens que têm dificultado a adoção dos veículos elétricos de duas rodas.

Para que esta solução faça sentido para a maioria das pessoas, será necessário continuar a expandir a rede de estações, garantindo uma cobertura cada vez maior, proximidade aos utilizadores e um serviço fiável.

Quando essa escolha deixar de exigir compromissos em termos de preço, autonomia ou conveniência, haverá cada vez menos razões para continuar a optar pela gasolina.

E, para terminar, uma curiosidade: quantas baterias foram trocadas pela Pollen durante o tempo que demorou a responder a esta entrevista?

Se fomos rápidos a responder, talvez ainda se consigam contar. Se demorámos um bocadinho mais, provavelmente já perdemos a conta!

E talvez essa seja a melhor forma de explicar o que estamos a construir: enquanto respondíamos a estas perguntas, houve estafetas em Lisboa que chegaram a uma estação, trocaram as suas baterias em segundos e continuaram a trabalhar.

É isso que queremos que a Pollen seja. Uma solução tão simples e prática que, para quem a utiliza, trocar uma bateria se torne tão natural como abastecer uma mota a gasolina.

Não desligue o motor por aqui! Acompanhe as entrevistas e as histórias da mobilidade portuguesa seguindo a Automonitor no LinkedIn e no Instagram.