Imagine uma moto com o conforto de um automóvel e a aparência de um pequeno avião. Acrescente-lhe um motor BMW, dois lugares em fila, uma carroçaria completamente fechada e um sistema capaz de fazer aparecer pequenas rodas laterais quando o veículo precisa de parar.
Parece uma invenção demasiado extravagante para ser verdadeira. Mas existiu mesmo. Chamava-se Peraves EcoMobile e começou a ganhar forma na Suíça, pelas mãos de Arnold Wagner, um engenheiro aeronáutico e piloto da Swissair que decidiu reinventar a forma como nos deslocamos sobre duas rodas.
A história desta máquina extraordinária foi recuperada esta semana pela ‘Supercar Blondie’, que recorda uma das mais invulgares tentativas de juntar as vantagens de uma moto, de um automóvel e até de um avião. O mais surpreendente é que tudo isto aconteceu nos anos 80, muito antes de algumas destas soluções começarem a ser associadas à mobilidade do futuro.
Uma moto que não precisava de pôr os pés no chão
A EcoMobile nasceu de uma ideia relativamente simples: juntar a agilidade e a eficiência de uma moto à proteção contra a chuva, o vento e o frio proporcionada por um automóvel.
O resultado foi uma máquina com uma silhueta comprida e aerodinâmica, semelhante à fuselagem de um pequeno avião, onde condutor e passageiro viajavam sentados um atrás do outro.
Ao contrário de um automóvel convencional, a EcoMobile tinha apenas duas rodas principais e inclinava-se nas curvas como qualquer motociclo.
Mas havia um problema: como manter uma moto tão pesada e completamente fechada em equilíbrio quando parava num semáforo?
Wagner encontrou uma solução engenhosa. Instalou duas pequenas rodas laterais retráteis que podiam ser acionadas através de um comando. Quando o veículo abrandava para parar, essas rodas desciam e garantiam a estabilidade. Assim que retomava a marcha, recolhiam novamente para permitir uma condução semelhante à de uma moto tradicional.
Tinha coração BMW e inspiração na aviação
A ligação de Wagner ao mundo da aviação não se ficou pelo desenho exterior. A construção da EcoMobile recorria a soluções inspiradas nos planadores, incluindo materiais compósitos e uma carroçaria cuidadosamente estudada para reduzir a resistência ao ar.
Os primeiros exemplares utilizaram motores da BMW R100, mas a evolução do projeto levou à adoção dos motores de quatro cilindros da família BMW K.
A EcoMobile procurava, assim, oferecer prestações de moto de estrada, mas com uma experiência de utilização muito diferente: ocupantes protegidos por uma cabine, cintos de segurança e espaço para transportar alguma bagagem.
E havia outra particularidade. Apesar da aparência de automóvel futurista, continuava a ser, na sua essência, um motociclo.
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O futuro chegou, mas quase ninguém o comprou
O projeto começou a ganhar forma em 1984 e a produção arrancou em 1987. Contudo, a complexidade da construção, o preço elevado e a necessidade de adaptação à condução impediram que se transformasse numa alternativa popular aos automóveis e motociclos convencionais.
Segundo a história oficial da Peraves CZ, foram produzidos cerca de 90 exemplares da família EcoMobile, incluindo diferentes versões e protótipos.
A ideia, porém, não desapareceu.
Em 2006, surgiu o MonoTracer, uma evolução do conceito original com mecânica BMW mais potente e uma carroçaria ainda mais aerodinâmica. Algumas versões conseguiam ultrapassar os 240 km/h, enquanto exemplares especiais com preparação turbo chegaram a ser associados a velocidades superiores a 300 km/h.
A Peraves continuou a desenvolver o conceito, incluindo variantes elétricas, demonstrando que a visão de Arnold Wagner não estava limitada aos motores de combustão.
Mais de 40 anos depois dos primeiros exemplares, a EcoMobile continua a levantar a mesma pergunta: e se o futuro da mobilidade não passar necessariamente por escolher entre um carro e uma moto?
Talvez a resposta já estivesse nas estradas suíças em 1984.






