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Estão a pintar círculos nas estradas para salvar motociclistas. E a ideia já foi testada na Europa

Estão a pintar círculos nas estradas para salvar motociclistas. E a ideia já foi testada na Europa
Francisco Laranjeira

No estado australiano de Victoria, está em curso um projeto que utiliza marcas rodoviárias especiais para influenciar a trajetória das motos em curvas consideradas perigosas

À primeira vista, parecem apenas marcas brancas desenhadas no asfalto. Mas aqueles círculos e elipses que começam a surgir em determinadas curvas têm uma missão muito concreta: impedir que os motociclistas se aproximem demasiado da faixa contrária e reduzir o risco de acidentes. A ideia já foi experimentada na Europa, com resultados que chamaram a atenção das autoridades australianas.

No estado australiano de Victoria, está em curso um projeto que utiliza marcas rodoviárias especiais para influenciar a trajetória das motos em curvas consideradas perigosas. A solução não exige sensores, radares ou qualquer tecnologia instalada nos veículos. Basta alterar a forma como o condutor vê a estrada.

E os antecedentes são promissores: numa experiência realizada na Áustria, o número de acidentes com motociclistas em 19 curvas intervencionadas diminuiu cerca de 80%.

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Porque é que uns círculos podem tornar uma curva mais segura?

O princípio é relativamente simples.

Quando um motociclista se aproxima de uma curva, escolhe uma trajetória que depende da velocidade, da visibilidade e da perceção do espaço disponível. Em algumas situações, sobretudo em curvas apertadas, pode aproximar-se demasiado da linha central da estrada.

O problema é que uma moto inclinada ocupa mais espaço do que parece. Mesmo que as rodas permaneçam dentro da faixa de rodagem, a cabeça e o tronco do motociclista podem aproximar-se perigosamente da faixa contrária.

Se surgir um automóvel em sentido oposto, a margem para corrigir a trajetória pode tornar-se muito reduzida.

É aqui que entram as marcas pintadas no asfalto.

Na experiência austríaca, pequenas elipses brancas foram colocadas em sequência junto à linha central, precisamente nas zonas onde se pretendia evitar a passagem das motos.

As marcas funcionam como uma orientação visual: levam os motociclistas a escolher uma trajetória mais afastada do trânsito em sentido contrário, sem necessidade de sinais adicionais ou instruções específicas.

Na Áustria, os acidentes caíram 80% nas curvas estudadas

A experiência europeia começou em 2019, na região austríaca do Tirol, numa iniciativa do organismo de segurança rodoviária KFV.

Foram selecionadas 19 curvas consideradas particularmente perigosas, onde outras medidas de prevenção não tinham produzido os resultados pretendidos.

As autoridades instalaram marcas elípticas brancas junto à linha central e acompanharam a evolução dos acidentes.

Segundo os resultados divulgados pelo KFV, entre julho de 2019 e o final de 2021 registaram-se apenas quatro acidentes com feridos nas 19 curvas abrangidas, correspondendo a uma redução de cerca de 80% face ao período de comparação.

Os investigadores observaram também alterações na forma como os motociclistas negociavam as curvas, com uma maior tendência para manter distância da linha central.

O projeto recebeu reconhecimento europeu na área da segurança dos motociclistas, reforçando o interesse por esta solução.

Importa, contudo, sublinhar que a redução de 80% corresponde às curvas estudadas e não significa que a mesma percentagem possa ser automaticamente reproduzida em qualquer estrada.

Austrália está a testar a solução em estradas perigosas

Inspiradas por experiências anteriores, as autoridades do estado australiano de Victoria estão a testar um sistema de marcas rodoviárias destinado a reduzir os acidentes em curvas.

O projeto integra uma iniciativa nacional de investigação sobre segurança dos motociclistas, coordenada pelo Centre for Automotive Safety Research.

Em Victoria, foram selecionados quatro locais na região de Gippsland, em estradas utilizadas frequentemente por motociclistas e com curvas associadas a maior risco de acidente.

Cada local de teste tem uma curva semelhante sem a intervenção, permitindo comparar o comportamento dos condutores.

As marcas australianas não são necessariamente idênticas às elipses austríacas, mas seguem o mesmo princípio: modificar a perceção visual da estrada para incentivar trajetórias mais seguras.

O projeto concentra-se em curvas para a direita, nas quais os motociclistas podem aproximar-se ou atravessar a linha central ao tentar encurtar a trajetória.

Os investigadores vão avaliar a posição das motos na estrada e a velocidade com que atravessam as curvas, procurando perceber se as alterações se mantêm ao longo do tempo.

A instalação das marcas começou em fevereiro de 2026 e o relatório final está previsto para o início de 2027.

E se a solução para alguns acidentes estiver na própria estrada?

A ideia de influenciar o comportamento dos condutores através de marcas no pavimento não é nova.

Em 2023, um estudo da organização australiana Austroads já tinha identificado alterações favoráveis na posição das motos e reduções de velocidade em curvas onde foram aplicadas marcações específicas.

Também na Escócia foram realizados ensaios com sinalização visual destinada a melhorar a forma como os motociclistas abordam curvas exigentes.

Estas experiências partem de uma conclusão importante: a segurança rodoviária não depende apenas dos veículos ou da capacidade de quem os conduz. O desenho da estrada também pode ajudar a prevenir erros.

Naturalmente, as marcas não substituem uma velocidade adequada, a atenção ao trânsito ou o respeito pelas regras de circulação. E a sua eficácia depende das características de cada estrada.

Mas há algo particularmente interessante nesta solução: numa época em que a segurança automóvel é frequentemente associada a sistemas eletrónicos cada vez mais sofisticados, uma simples sequência de marcas brancas no asfalto pode ajudar a tornar algumas curvas menos perigosas.