Há histórias de vencedores do Nobel que começam num laboratório, numa biblioteca ou numa universidade. A de Robert C. Merton também acabaria por passar por alguns desses lugares. Mas, muito antes disso, havia um rapaz obcecado por automóveis, um enorme Cadillac descapotável comprado por 75 dólares e carros construídos para serem mais rápidos do que os dos outros miúdos.
Merton viria a tornar-se um dos economistas mais influentes do século XX e a receber, em 1997, o Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel. Décadas antes, porém, estava convencido de que o seu futuro seria muito diferente: queria ser engenheiro automóvel.
A história é contada pelo próprio Merton na autobiografia publicada pelo Nobel e, com ainda mais pormenores, numa longa entrevista ao MIT. E começa quando tinha cerca de 11 anos.
Mais de 1.800 dias riscados na parede
Nessa altura, o basebol era uma das grandes paixões de Merton. Conhecia médias de jogadores e estatísticas de lançadores, mas os automóveis começaram progressivamente a ocupar esse espaço.
A obsessão chegou ao ponto de colocar na parede do quarto uma grande folha de papel com mais de 1.800 números. Todos os dias riscava um. Era uma contagem decrescente até chegar à idade em que poderia finalmente tirar a carta de condução.
Entretanto, fazia com os carros aquilo que anteriormente fizera com o basebol: memorizava números. Potências, cilindradas, dimensões dos motores e especificações de praticamente todos os automóveis do pós-guerra passaram a fazer parte do seu repertório.
Ia a salões automóveis, assistia a corridas de stock cars e ajudava entusiastas mais velhos, passando-lhes ferramentas enquanto estes trabalhavam nos carros.
Mas esperar pela carta não significava esperar para ter automóvel.
Um Cadillac descapotável por 75 dólares
Aos 15 anos, Merton comprou o primeiro carro.
Numa entrevista posteriormente realizada pelo MIT, recordou que se tratava de um Cadillac descapotável, com enormes barbatanas traseiras e interior em pele. O preço parece hoje tão extraordinário como a idade do comprador: 75 dólares.
Havia, naturalmente, uma explicação. O Cadillac estava num estado miserável.
Merton começou então a reconstruí-lo. Mexeu no motor, reparou a carroçaria, substituiu partes do piso e trabalhou praticamente em tudo o que havia para recuperar.
Havia apenas um problema: ainda não tinha idade para conduzi-lo legalmente. Acabaria por vender o Cadillac antes de poder usufruir plenamente do trabalho realizado.
Mas aquilo estava longe de ser o fim da aventura.
Hot rods, drag racing e um Chevrolet que humilhava Corvettes
Depois de obter a carta de condução, Merton começou a construir os seus próprios hot rods de estrada e a levá-los para pistas de drag racing no estado de Nova Iorque e em Long Island.
O orçamento era reduzido. Isso significava muitas horas de trabalho, visitas a sucatas e criatividade mecânica para conseguir retirar mais desempenho de carros que, à partida, pouco tinham de extraordinário.
Um deles ficou particularmente bem guardado na memória do futuro Nobel: um velho Chevrolet de 1948.
Merton contou ao MIT que sentia especial satisfação quando aparecia algum jovem ao volante do Corvette do pai, acompanhado por uma rapariga. O seu envelhecido Chevrolet podia não causar a mesma impressão à chegada, mas, segundo recordou, conseguia andar cerca de três vezes mais depressa do que aquele Corvette.
E Merton imaginava a pergunta que gostaria que a passageira fizesse ao proprietário derrotado: afinal, o que havia de errado com o Corvette?
O futuro parecia decidido: seria engenheiro automóvel
A paixão não era apenas um passatempo adolescente. Robert Merton acreditava realmente que iria fazer dos automóveis a sua profissão.
Já na universidade, passou dois verões a trabalhar na Ford, na sede da empresa em Dearborn, no Michigan.
Num deles trabalhou como engenheiro na área de desenvolvimento avançado de veículos. No outro esteve ligado à divisão Lincoln-Mercury, onde procurava determinar as melhores estratégias para a importação de modelos britânicos da Ford.
Foram experiências suficientemente importantes para Merton as recordar décadas mais tarde. Na realidade, além de alguns trabalhos durante a juventude e de uma passagem pela IBM, aqueles empregos ligados ao setor automóvel seriam praticamente as únicas experiências profissionais a tempo inteiro que teria fora do mundo académico.
Dos motores para a matemática
O percurso começou, entretanto, a mudar.
Merton entrou na Universidade de Columbia e mudou rapidamente para Engenharia, estudando matemática. Seguiu depois para o California Institute of Technology, onde iniciou estudos avançados em matemática aplicada, antes de tomar uma decisão que acabaria por transformar a sua vida: trocar a matemática pela economia.
Entrou no MIT e começou a aplicar ferramentas matemáticas extremamente sofisticadas ao estudo das finanças.
O antigo adolescente que construía carros para vencer corridas de aceleração acabaria por trabalhar com nomes como Paul Samuelson, Franco Modigliani, Myron Scholes e Fischer Black e tornar-se uma figura central da moderna teoria financeira.
Em 1997 chegou o telefonema.
Robert C. Merton e Myron Scholes receberam o Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel pelo desenvolvimento de um novo método para determinar o valor de derivados financeiros.
Tinha passado mais de três décadas desde os hot rods e das corridas em Long Island.
Mas há uma curiosa continuidade na história. Antes de passar a vida a tentar compreender matematicamente o risco, Merton já passara a adolescência a desmontar máquinas, modificar aquilo que tinha recebido e tentar fazê-las funcionar melhor e mais depressa.
Só o objeto de estudo mudou radicalmente.






