A indústria automóvel europeia está a mudar a uma velocidade difícil de acompanhar. A eletrificação deixou de ser apenas uma promessa, a inteligência artificial começa a entrar nos automóveis e as marcas chinesas estão a tentar conquistar num espaço de poucos anos a confiança que alguns fabricantes europeus demoraram décadas a construir.
É neste cenário que a OMODA procura ganhar espaço em Portugal e na Europa, com uma proposta que combina eletrificação, tecnologia e uma estratégia assumidamente agressiva de crescimento.
A Automonitor esteve à conversa com Dan Jian, responsável da OMODA, para perceber como a marca pretende afirmar-se num mercado onde ainda enfrenta a desconfiança de alguns consumidores, o que pode realmente distinguir o OMODA 9 dos rivais europeus e até que ponto a tecnologia chinesa está a alterar as regras da indústria automóvel.
Da engenharia necessária para conciliar 537 cv com até 145 quilómetros de autonomia elétrica à importância da rede de assistência em Portugal, Dan Jian reconhece que uma marca nova não pode exigir confiança aos consumidores: tem de a conquistar.
E deixa uma previsão particularmente interessante para os próximos cinco anos. A maior transformação da indústria poderá não ser a eletrificação, a inteligência artificial ou sequer a ascensão das marcas chinesas. Poderá ser algo muito mais simples: a velocidade a que tudo está a mudar.
Automonitor: O OMODA 9 combina 537 cv, até 145 km de autonomia elétrica e carregamento rápido DC. Qual foi o maior desafio de engenharia ao equilibrar o desempenho, a eficiência e a acessibilidade de custos num único veículo?
Dan Jian: O maior desafio é a integração. É relativamente fácil otimizar um único número de destaque. Podes adicionar mais potência, uma bateria maior ou carregamento mais rápido. O verdadeiro desafio de engenharia é fazer com que o motor térmico, os motores elétricos, a bateria, a transmissão híbrida, a gestão térmica e o chassis funcionem como um único sistema, sem comprometer a eficiência, o conforto, a segurança e o custo.
É aí que a tecnologia SHS da Chery se torna importante. Não se trata simplesmente de adicionar eletrificação a um grupo propulsor convencional. O sistema foi concebido para gerir diferentes condições de funcionamento de forma inteligente, recorrendo à condução elétrica, à operação híbrida e à faixa de funcionamento mais eficiente do motor, de acordo com as necessidades reais do veículo.
A Europa também desempenha um papel enormemente importante neste processo. Os clientes europeus têm expectativas muito específicas relativamente à estabilidade a alta velocidade, à resposta da direção, à sensação de travagem, ao controlo da suspensão e ao conforto em viagens longas. Recolhemos continuamente feedback de clientes, meios de comunicação e concessionários europeus, transmitindo-o às nossas equipas de engenharia para posterior calibração e otimização.
Portanto, para mim, a conquista não se resume a 537 cv ou 145 km de autonomia elétrica. É fazer com que tudo isso pareça natural num automóvel que é fácil de conduzir, confortável, eficiente e ainda assim competitivo em termos de preço. Repara; um número de destaque pode atrair atenções mas a integração é o que conquista os clientes.
Automonitor: Há décadas que os fabricantes europeus definem a referência no segmento dos SUV premium. O que acreditas que a OMODA faz melhor hoje em dia do que algumas das marcas automóveis tradicionais?
Dan Jian: Os fabricantes europeus construíram décadas de experiência em engenharia, valor de marca e confiança por parte dos clientes, e isso merece respeito.
Onde considero que as marcas mais recentes, como a OMODA, estão a alterar a equação reside na velocidade com que a tecnologia avançada se torna acessível a um grupo muito mais alargado de clientes.
Tecnologias que outrora estavam reservadas a veículos significativamente mais caros – desempenho eletrificado, assistência avançada à condução, sistemas de chassis sofisticados, conectividade de alto nível, equipamento interior premium – conseguem agora chegar ao mercado muito mais depressa e a um patamar de preço bem diferente.
Por conseguinte, eu não reduziria a comparação à afirmação de que uma marca é simplesmente “melhor” do que outra; a questão mais interessante é: quanta tecnologia, qualidade e experiência global deve um cliente razoavelmente esperar pelo seu dinheiro hoje em dia?
E essa expectativa está a mudar muito rapidamente pois o conceito de premium deixa de ser definido pela quantidade de tecnologia que consegue reservar para o topo de gama, passando a sê-lo pela eficácia com que consegue tornar a grande tecnologia acessível.
Automonitor: Muitos construtores automóveis falam de inteligência artificial, conectividade e experiências digitais. Quais são as tecnologias presentes no OMODA 9 que estão genuinamente a fazer a diferença no dia a dia dos clientes, e quais são aquelas que estão a moldar o futuro da mobilidade?
Dan Jian: O meu teste é muito simples: a tecnologia faz uma diferença percetível para o cliente no dia a dia. O cliente não precisa de compreender a complexidade do controlo híbrido, da gestão da bateria ou da otimização energética; aquilo que deve experienciar é uma condução diária em modo elétrico silencioso, potência imediata quando precisa dela, menor ansiedade de autonomia em viagens mais longas, sistemas de assistência à condução que reduzem a fadiga e funções digitais que tornam o veículo mais fácil de utilizar.
O SHS é um bom exemplo. Jorge, repara que o condutor não deve ter de pensar constantemente se o motor térmico ou o motor elétrico devem estar a funcionar mas sim que o sistema deve tomar essas decisões em segundo plano.
O que o cliente experiencia é suavidade, eficiência e desempenho. A inteligência artificial fará cada vez mais parte dessa camada invisível pois pode ajudar o veículo a compreender os hábitos de condução, a otimizar a gestão de energia, a melhorar a assistência ao condutor e a ligar o automóvel de forma mais natural à vida digital mais ampla do cliente.
Mas, no final do dia, a melhor tecnologia é aquela de que o cliente acaba por deixar de se lembrar: simplesmente torna o automóvel melhor.
E acrescentaria mais uma regra – se a tecnologia não tornar a vida mais fácil, segura ou agradável, é apenas mais uma linha numa folha de especificações.
Automonitor: Alguns consumidores europeus ainda abordam as novas marcas chinesas com cautela. O que diria a um cliente que esteja a comparar o OMODA 9 com um modelo europeu?
Dan Jian: Eu diria: não compre um OMODA por ser chinês, nem o rejeite por ser chinês: Conduza-o.
Compare por si próprio o comportamento dinâmico, a travagem, o conforto, os materiais, a tecnologia, o espaço e a experiência global e em simultâneo, penso que as novas marcas têm de reconhecer que a cautela por parte dos clientes é perfeitamente compreensível. Repara e tu sabes disso também por seres professor universitário que a confiança não se exige. Conquista-se.
E isso significa muito mais do que trazer um bom carro para a Europa. Significa cobertura de rede de concessionários, capacidade de pós-venda, formação técnica, disponibilidade de peças, apoio de garantia e um atendimento ao cliente consistente.
Em Portugal, levámos isso muito a sério desde o início. No nosso primeiro ano, o nosso objetivo é construir uma rede com mais de 20 locais de venda e assistência, cobrindo a maioria das principais cidades do país. E como trabalhamos com um distribuidor automóvel nacional experiente, também podemos tirar partido de capacidades estabelecidas ao nível do pós-venda, da assistência técnica e da logística para prestar apoio a nível nacional.
Um cliente não está a comprar um carro para o dia do lançamento. Está a comprar vários anos de posse e utilização.
Uma marca nova não herda a confiança. Conquista-a — oficina a oficina, concessionário a concessionário e cliente a cliente. E, em última análise, para mim o produto abre a porta mas é a confiança que constrói a marca.
Automonitor: Se nos voltarmos a encontrar daqui a cinco anos, qual terá sido a maior surpresa na indústria automóvel: a eletrificação, a inteligência artificial ou a ascensão das marcas chinesas a remodelar o mercado europeu?
Dan Jian: Suspeito que, daqui a cinco anos, talvez já não falemos destas três coisas em separado. A eletrificação passará a ser progressivamente uma parte normal da indústria, em vez de algo revolucionário; a inteligência artificial passará provavelmente de um argumento de venda visível a uma parte do sistema operativo subjacente do veículo – gestão de energia, assistência à condução, personalização e interação e, por fim, os fabricantes chineses deixarão de ser agrupados simplesmente como “marcas chinesas”, passando a ser avaliados individualmente como marcas globais.
Automonitor: Porque deve um cliente português escolher um OMODA 9 em vez de um outro automóvel? Qual é a principal vantagem que não consta na folha de especificações?
Dan Jian: Os clientes farão as mesmas perguntas que fariam a qualquer marca:
O produto é bom?
É fiável?
O design é atraente?
O serviço é bom?
A marca defende algum valor?
Mas penso que existe uma mudança ainda maior por baixo de tudo isto: a velocidade da concorrência. Os ciclos de produto estão a tornar-se mais curtos. As tecnologias propagam-se mais depressa. Os clientes têm mais opções. Mudanças que antigamente levavam dez anos podem agora acontecer em três ou cinco. A próxima disrupção poderá não ser elétrica, baseada em IA ou de origem chinesa. Poderá ser simplesmente a compressão do tempo. A indústria automóvel está a ser forçada a aprender, desenvolver-se e reinventar-se muito mais rapidamente do que antes.
Penso que os clientes devem escolher um veículo de acordo com a sua própria utilização. Esses automóveis representam tecnologias diferentes e filosofias de produto distintas.
A folha de especificações dir-lhe-á muito sobre o OMODA 9: 537 cv, autonomia elétrica, carregamento, equipamento, espaço e preço mas o que não consegue descrever na íntegra é a forma como todos esses elementos se conjugam. Para um cliente português, esta combinação é particularmente relevante. Uma grande proporção da condução diária pode ser efetuada em modo elétrico, enquanto uma viagem de Lisboa até ao Porto, ao Algarve ou mais além, não obriga o cliente a planear a viagem em função dos postos de carregamento.
Desta forma, obtém-se grande parte da experiência diária de um veículo elétrico, juntamente com a liberdade necessária para viagens de longa distância.
Mas há outra vantagem que não consta da folha de especificações: o ecossistema de propriedade em torno do automóvel. Desde o início que estamos a investir numa cobertura a nível nacional. O nosso objetivo é superar os 20 locais de venda e assistência no primeiro ano, cobrindo a maioria das principais cidades portuguesas. E, através do nosso distribuidor nacional, os clientes podem contar com capacidades estabelecidas de pós-venda, assistência técnica e apoio de peças em todo o país.
O valor de um automóvel não termina quando sai do stand e a folha de especificações termina na entrega mas a propriedade começa aí. E depois há a reação que ouvimos repetidamente quando as pessoas experimentam o OMODA 9: “Não esperava que fosse tão bom.”
Para uma nova marca, esta pode ser uma das vantagens mais poderosas que se pode ter pois 0 OMODA 9 não exige que o cliente acredite primeiro na promessa. Queremos que seja o produto a prová-lo.






