Está à frente do condutor desde praticamente o nascimento do automóvel. Hoje concentra ecrãs, velocímetro, conta-rotações, avisos, mapas, comandos e uma quantidade crescente de informação. Em inglês, todos lhe chamam dashboard.
O curioso é que a palavra é muito mais antiga do que o automóvel.
E para perceber de onde vem é preciso esquecer motores, estradas e ecrãs digitais e regressar a uma época em que os veículos tinham quatro patas à frente.
Segundo o Online Etymology Dictionary, a utilização da palavra dashboard remonta ao século XIX e começou nas carruagens puxadas por cavalos.
Antes do automóvel, havia lama
Viajar numa carruagem tinha um inconveniente bastante previsível.
Os cavalos corriam à frente, os cascos batiam no chão e lama, água, pedras e outros detritos podiam ser projetados para trás, precisamente na direção dos ocupantes.
A solução foi colocar uma espécie de painel ou anteparo na parte dianteira da carruagem para impedir que aquilo que era projetado pelos cavalos chegasse aos passageiros.
Era o dashboard.
O nome torna-se bastante mais lógico quando se percebe a construção da palavra. Dash podia descrever o ato de lançar ou projetar algo com força e board significava, literalmente, uma placa ou painel.
Ou seja, o dashboard era essencialmente uma barreira contra aquilo que era lançado na direção dos ocupantes.
Nada de velocímetros. Nada de conta-rotações. Nada de luzes de aviso.
Muito menos um enorme ecrã tátil.
Chegaram os carros, desapareceram os cavalos. O nome ficou
Quando apareceram os primeiros automóveis, muita da linguagem utilizada nas carruagens passou naturalmente para as novas máquinas.
E o dashboard foi uma dessas heranças.
Os primeiros automóveis mantiveram um painel dianteiro que ajudava a proteger os ocupantes de água, lama e detritos projetados pelas rodas e pela estrada.
Só que o automóvel começou rapidamente a evoluir.
Os motores ganharam complexidade, os condutores passaram a precisar de informação sobre aquilo que estava a acontecer na máquina e aquele espaço dianteiro revelou-se o lugar ideal para colocar instrumentos.
Pouco a pouco começaram a surgir mostradores e comandos.
O painel que anteriormente servia sobretudo de proteção transformou-se no centro de informação do automóvel.
Mas ninguém mudou o nome.
De barreira contra a lama a computador gigante
Mais de um século depois, dificilmente poderia existir uma diferença maior.
O dashboard de um automóvel moderno pode mostrar velocidade, consumo, autonomia, navegação, chamadas telefónicas, música, temperatura, pressão dos pneus e informação dos sistemas de assistência à condução.
Em alguns carros praticamente desapareceram os instrumentos físicos. O painel passou a ser dominado por um ou vários ecrãs e há modelos em que uma única superfície digital atravessa grande parte do habitáculo.
A função original desapareceu por completo.
A palavra, não.
É uma daquelas pequenas heranças de uma época anterior ao automóvel que sobreviveram escondidas no vocabulário que continuamos a utilizar todos os dias.
Tal como o porta-luvas continua a chamar-se porta-luvas apesar de quase ninguém lá guardar luvas, o dashboard continua a transportar no nome uma função que deixou de desempenhar há mais de um século.
Um pedaço das carruagens escondido nos carros modernos
Talvez seja precisamente isso que torna a história curiosa.
Podemos entrar num automóvel elétrico com centenas de cavalos de potência, ligar um enorme ecrã digital, pedir ao sistema que calcule a melhor rota e deixar que o carro mantenha sozinho a distância para o veículo da frente.
E, em inglês, continuamos a olhar para o dashboard.
Uma palavra criada quando o maior problema daquele painel não era mostrar a autonomia da bateria.
Era impedir que a lama levantada pelos cavalos chegasse aos passageiros.






