A Ford começou a produzir automóveis na Europa em 1911. A BYD entrou oficialmente no mercado europeu de automóveis de passageiros em 2022. Pouco mais de quatro anos depois, a fabricante chinesa acaba de ultrapassar a histórica marca dos EUA nas matrículas de automóveis novos na União Europeia.
A mudança no mapa automóvel europeu acaba de atingir mais um marco simbólico.
Entre janeiro e agosto de 2026, a BYD registou 177.752 automóveis na União Europeia, mais 163% do que no mesmo período do ano passado, segundo os dados da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) citados pelo El Economista.
A Ford ficou nas 171.670 unidades, uma quebra homóloga de 17,7%.
São apenas 6.082 automóveis de diferença, mas o significado vai muito além dos números.
A BYD chegou oficialmente ao mercado europeu de automóveis de passageiros em 2022. A Ford está no continente há mais de um século.
Mais de um século de Ford na Europa
A história europeia da Ford começou em 1911, quando abriu uma fábrica em Manchester, no Reino Unido.
Desde então, a marca tornou-se uma das presenças históricas da indústria automóvel europeia, construindo sucessivas gerações de modelos destinados especificamente aos condutores do continente.
Mas a sua dimensão europeia tem vindo a diminuir.
A fábrica de Saarlouis, na Alemanha, terminou a produção automóvel em 2025, depois de mais de cinco décadas de atividade, enquanto as matrículas da marca também recuaram significativamente.
Em 2016, a Ford vendia mais de um milhão de automóveis por ano na Europa. Em 2025, ficou por cerca de 426 mil, segundo os números citados pelo El Economista.
Agora, nos primeiros oito meses de 2026, perdeu também para a BYD no mercado da União Europeia.
Há, contudo, uma diferença importante: se às matrículas da UE forem acrescentados o Reino Unido e os países da Associação Europeia de Comércio Livre — Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça —, a Ford continua à frente da BYD por cerca de 10 mil veículos.
BYD já é o nono maior grupo na União Europeia
A velocidade da progressão chinesa ajuda a explicar o simbolismo da ultrapassagem.
Com as 177.752 unidades acumuladas até agosto, a BYD já ocupa a nona posição entre os grupos automóveis com mais matrículas na União Europeia.
E está a fazê-lo enquanto ainda importa os automóveis de passageiros que vende no bloco europeu.
A fabricante está a construir em Szeged, na Hungria, a sua primeira fábrica europeia de automóveis de passageiros. A unidade será fundamental para a estratégia da BYD no continente, permitindo aumentar a produção local e reduzir a exposição às tarifas adicionais impostas pela União Europeia aos elétricos fabricados na China.
A empresa já deixou clara uma ambição ainda maior: produzir localmente, a longo prazo, os veículos que comercializa na Europa.
Elétricos já representam mais de um em cada cinco carros novos
A ultrapassagem acontece num mercado que está simultaneamente a favorecer uma das principais especialidades da BYD.
Entre janeiro e agosto foram matriculados 1.641.333 automóveis 100% elétricos na União Europeia, mais 45% do que no mesmo período de 2025.
Os elétricos já representam 21,7% de todos os automóveis novos matriculados na UE, contra 15,8% um ano antes.
É já uma quota idêntica à dos automóveis exclusivamente a gasolina, também com 21,7%.
Os híbridos continuam, contudo, a ser a tecnologia dominante: representam 36,6% do mercado europeu.
No total, foram matriculados cerca de 7,5 milhões de automóveis novos na União Europeia nos primeiros oito meses do ano, mais 5,3% em termos homólogos.
Ford prepara contra-ataque europeu
A ultrapassagem da BYD surge precisamente quando a Ford está a tentar reconstruir a sua estratégia para a Europa.
A marca confirmou que lançará cinco novos automóveis de passageiros até ao final de 2029 e prepara uma nova fase industrial na fábrica de Almussafes, em Valência.
A partir de 2028, a unidade espanhola deverá produzir um novo membro compacto e multienergias da família Bronco e um segundo crossover Ford, também multienergias, desenvolvido em conjunto com a Geely.
A parceria entre as duas empresas prevê ainda que dois SUV elétricos da própria Geely sejam produzidos em Valência. A produção do atual Ford Kuga deverá continuar sem interrupções.
É uma resposta a um mercado europeu cada vez mais disputado e no qual os fabricantes chineses deixaram há muito de representar apenas uma ameaça futura.
A BYD fornece agora um dos exemplos mais claros.
Em apenas quatro anos, passou de recém-chegada ao mercado europeu a vender mais automóveis na União Europeia do que uma marca que começou a produzi-los no continente há 115 anos.






