À primeira vista, poderia ser um daqueles pequenos supercarros europeus que apareceram nos anos 1990 e desapareceram quase sem deixar rasto. É extremamente baixo, tem motor central, carroçaria em materiais compósitos e proporções que pouco têm a ver com um automóvel convencional.
Mas não nasceu em Itália, no Reino Unido ou na Alemanha. Nasceu no Brasil. E a empresa que o construiu tinha experiência na indústria aeronáutica.
Chamava-se Edra GT e, na versão mais radical GT-R, escondia um motor Volkswagen 2.0 turbo com 225 cv. O projeto começou no início dos anos 1990 e deveria estar pronto em poucos meses. Demorou cerca de uma década.
Quando finalmente apareceu, parecia que o Brasil tinha conseguido criar um pequeno desportivo verdadeiramente invulgar. Só que praticamente ninguém pôde comprá-lo.
O desportivo que deveria estar pronto em seis meses
A história é recuperada pela ‘Lexicar Brasil’, arquivo especializado na história da indústria automóvel brasileira.
A Edra tinha sido fundada em 1974 e acumulava experiência na utilização de fibra de vidro em veículos e embarcações. Mais tarde, o grupo expandiu a atividade e chegou também à aviação.
Em 1989 nasceu a Edra Veículos Especiais, com planos para produzir utilitários e automóveis desportivos.
Um dos primeiros projetos foi o Rancho TT, um pequeno todo-o-terreno. Mas, em paralelo, estava a nascer uma máquina bastante mais ambiciosa.
Em 1990, o chassis do futuro desportivo já estava definido e tinham sido produzidos os primeiros moldes da carroçaria.
O plano era apresentá-lo cerca de seis meses depois.
Os seis meses transformaram-se em anos.
O Edra GT só acabaria por surgir como protótipo por volta de 2000, depois de aproximadamente uma década de desenvolvimento.
E não era apenas um exercício de estilo.
Motor central e apenas 1,19 metros de altura
O GT media 3,90 metros de comprimento e apenas 1,19 metros de altura.
A arquitetura era a de um verdadeiro desportivo: chassis tubular revestido por chapa de aço, motor colocado entre os eixos, caixa traseira de cinco velocidades e suspensão independente nas quatro rodas.
Também a carroçaria fugia ao habitual.
A Edra aproveitou o conhecimento acumulado noutra área do grupo para construir o automóvel.
A aviação.
Fibra de carbono e tecnologia aeronáutica
A Edra Aeronáutica trabalhava na manutenção, comercialização e construção de aeronaves, incluindo hidroaviões.
Esse conhecimento de materiais compósitos foi aproveitado no GT.
A carroçaria combinava plástico reforçado com fibra de vidro, fibra de carbono e espuma de PVC. Segundo a Lexicar Brasil, o resultado apresentava um nível de acabamento particularmente cuidado, incluindo bons encaixes entre os diferentes painéis.
Por baixo daquela aparência exótica, porém, estava uma mecânica muito mais conhecida.
O coração vinha da Volkswagen.
225 cv para o GT-R
As versões iniciais utilizavam motores AP da Volkswagen.
O GT podia receber um 1.8 alimentado a álcool, com 99 cv, ou uma variante turbo que elevava a potência para 180 cv.
Depois apareceu o GT-R.
Pensada para competição, esta versão utilizava um motor AP 2.0 turbo, equipado com intercooler e injeção eletrónica multiponto.
Produzia 225 cv.
O GT-R recebia ainda travões de disco nas quatro rodas, ventilados à frente.
Para um automóvel com apenas 3,90 metros, motor central e uma carroçaria construída parcialmente em materiais leves, a receita era suficientemente séria para tornar ainda mais surpreendente aquilo que aconteceu a seguir.
Porque nunca foi vendido?
Depois de aproximadamente dez anos de desenvolvimento, a Edra tinha finalmente um automóvel.
Havia um protótipo construído, diferentes configurações mecânicas, uma versão destinada à competição e uma empresa com experiência suficiente em materiais compósitos para fabricar a própria carroçaria.
Mesmo assim, o GT nunca entrou em produção.
As fontes históricas disponíveis não apontam para um único acontecimento dramático que tenha condenado o projeto. A realidade parece ter sido menos cinematográfica e bastante comum entre pequenos fabricantes: transformar um protótipo artesanal num automóvel produzido comercialmente exige investimento, homologação, fornecedores e uma escala industrial completamente diferente daquela necessária para construir uma unidade experimental.
A Edra acabou por seguir outros caminhos.
E o que aconteceu ao protótipo?
É aqui que a história se torna ainda mais curiosa.
O GT não desapareceu imediatamente depois da apresentação.
Há registos e fotografias do automóvel em diferentes momentos, mas a documentação pública sobre o destino das unidades construídas é escassa. Nem sequer é simples determinar com segurança quantos exemplares completos chegaram a existir nas diferentes configurações apresentadas pela Edra.
O que se sabe é que o projeto não avançou para produção e que a empresa continuou ligada ao setor automóvel por outras vias.
A Edra passou a produzir componentes e carroçarias em materiais compósitos para competição, incluindo protótipos de corrida, aproveitando precisamente parte da experiência acumulada durante aqueles anos.
O pequeno desportivo ficou para trás.
Um supercarro brasileiro que quase ninguém conhece
Hoje, o Edra GT-R pertence a uma categoria particularmente fascinante da história automóvel: carros que chegaram suficientemente longe para existirem, funcionarem e serem apresentados ao público, mas nunca deram o último passo para se transformarem num modelo de produção.
E isso explica também porque é tão difícil encontrar um na estrada.
Não é um Ferrari desconhecido, um Lotus esquecido ou a criação de algum construtor britânico desaparecido. É brasileiro.
Tinha motor central, materiais provenientes do universo aeronáutico e um quatro cilindros Volkswagen levado aos 225 cv. Passaram cerca de dez anos a desenvolvê-lo.
E, precisamente quando parecia finalmente pronto para começar a sua história, a história acabou.






