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Como é que a Genesis está a agitar o mercado dos carros de empresa? Elétricos, luxo e carregamentos em 18 minutos

Francisco Laranjeira

É a marca premium do Hyundai Motor Group, chegou à Europa em 2021 e está a tentar construir o seu próprio espaço num mercado onde BMW, Mercedes-Benz e Audi são nomes estabelecidos há décadas

O carro de empresa está a viver uma pequena revolução. E os números ajudam a perceber porquê.

No Reino Unido, havia 920 mil utilizadores de carros de empresa no ano fiscal de 2024/25, mais 180 mil — ou 24% — do que em 2020/21, segundo os dados oficiais citados pela ‘Autocar’. E há outro número ainda mais revelador: metade já conduz automóveis elétricos.

A fiscalidade britânica ajuda a explicar a transformação, mas não conta toda a história. A rápida evolução das baterias, as autonomias cada vez maiores e a multiplicação da oferta abriram uma oportunidade para marcas que até há poucos anos dificilmente entrariam nas listas de escolha de muitas empresas.

Uma delas chama-se Genesis.

É a marca premium do Hyundai Motor Group, chegou à Europa em 2021 e está a tentar construir o seu próprio espaço num mercado onde BMW, Mercedes-Benz e Audi são nomes estabelecidos há décadas.

E os carros de empresa podem ser uma das portas de entrada.

Dois SUV elétricos no centro da estratégia

Um carro de empresa executivo tem uma missão particularmente exigente. Pode percorrer muitos quilómetros, tem de oferecer conforto, espaço e segurança, precisa de manter o condutor ligado durante longas viagens e, cada vez mais, é esperado que faça tudo isto sem consumir uma gota de combustível.

É precisamente aqui que entram o GV60 e o Electrified GV70, dois dos principais elétricos da Genesis.

O GV60 foi o primeiro modelo da marca desenvolvido desde o início como elétrico. Utiliza uma plataforma específica que coloca a bateria debaixo do habitáculo e permite libertar espaço no interior, incluindo um piso plano e uma bagageira com 432 litros.

A atualização mais recente trouxe uma bateria de 84 kWh e aumentou a autonomia até 561 quilómetros em ciclo WLTP nas versões mais eficientes.

Mas há outro número especialmente relevante para quem passa grande parte da semana na estrada.

Graças à arquitetura elétrica de 800 volts, o GV60 consegue carregar a bateria dos 10% aos 80% em cerca de 18 minutos quando ligado a um posto suficientemente potente.

O Electrified GV70 aplica uma receita semelhante a um SUV de formato mais tradicional. Também utiliza uma bateria de 84 kWh e anuncia até 479 quilómetros de autonomia WLTP, com uma carga dos 10% aos 80% a poder ser feita em cerca de 19 minutos.

Ou seja, a Genesis não está apenas a tentar vender luxo. Está a tentar reduzir um dos argumentos que ainda afastam alguns condutores profissionais dos elétricos: o tempo perdido a carregar.

Um escritório que também faz massagens

Passar várias horas por dia dentro de um automóvel muda igualmente aquilo que se valoriza no habitáculo.

No GV60, o painel de instrumentos e o sistema multimédia estão reunidos num ecrã panorâmico de 27 polegadas. Há comandos por voz, mas a Genesis resistiu à tentação de colocar absolutamente tudo dentro do ecrã e manteve botões físicos para algumas das funções utilizadas com maior frequência.

Com o pacote Convenience, os bancos dianteiros podem assumir uma posição de descanso quando o automóvel está estacionado.

O banco do condutor pode ainda receber a função Ergo Motion, que utiliza bolsas de ar integradas para ajustar o apoio corporal, reforçar o suporte quando se seleciona um modo de condução mais desportivo e disponibilizar diferentes tipos de massagem.

No Electrified GV70, a preocupação com o conforto vai mais longe. Uma câmara analisa a estrada à frente e permite à suspensão preparar-se para determinadas irregularidades, enquanto outros sistemas podem ajudar a compensar os efeitos de vento lateral.

São pormenores que podem parecer acessórios num automóvel utilizado apenas em pequenas deslocações. Depois de várias centenas de quilómetros numa autoestrada, deixam de parecer tão supérfluos.

E há um Genesis de 650 cv

A estratégia não termina nos automóveis destinados a tornar as viagens de trabalho mais confortáveis.

A Genesis criou também a Magma, divisão que representa a vertente de altas prestações da marca e que acompanha a entrada do construtor no desporto automóvel.

O primeiro modelo de produção é o GV60 Magma.

Partilha a bateria de 84 kWh com o restante GV60, mas pode entregar 478 kW — 650 cv — em modo Boost. A aceleração dos 0 aos 100 km/h demora 3,4 segundos.

É um número que dificilmente será necessário para chegar mais depressa à reunião seguinte, mas ajuda a explicar aquilo que a Genesis está a tentar fazer: deixar de ser apenas uma alternativa racional e construir também uma imagem própria no segmento premium.

Até criou um sistema que simula passagens de caixa num automóvel que, por ser elétrico, não precisa delas. O Virtual Gear Shift reproduz alterações de regime e mudanças de velocidade para tentar recuperar parte da interação de um automóvel de altas prestações com motor de combustão.

O luxo coreano quer fazer a diferença

Há ainda outra parte da estratégia que não está debaixo do capô nem dentro da bateria.

A Genesis chama-lhe “son-nim”, um conceito coreano de hospitalidade assente na ideia de tratar o cliente como um convidado de honra.

Nos mercados onde aplica este modelo, a marca aposta num acompanhamento individual do cliente, desde a escolha e configuração do automóvel até à entrega, assistência e manutenção.

É uma tentativa de encontrar uma identidade própria num segmento em que a qualidade do automóvel, por si só, pode não chegar.

A oportunidade dos carros de empresa

No Reino Unido, existe ainda um poderoso incentivo fiscal por trás desta transformação.

Os elétricos estão atualmente sujeitos a uma taxa de Benefit-in-Kind muito inferior à aplicada aos automóveis a gasolina ou gasóleo. Isso torna-os particularmente interessantes enquanto carros de empresa e ajuda a explicar por que razão a eletrificação está a avançar tão depressa neste mercado.

Segundo os dados citados pela Autocar, os associados da British Vehicle Rental and Leasing Association já registam uma proporção de elétricos superior a 80% nas encomendas de carros de empresa — um nível que corresponde ao objetivo definido para o conjunto do setor britânico apenas para 2030.

É neste mercado em transformação que marcas como a Genesis encontraram uma oportunidade que há alguns anos seria bastante mais difícil de explorar.

E Portugal está no mapa

Para os portugueses, a Genesis poderá deixar em breve de ser apenas aquela marca coreana que aparece nas notícias internacionais.

A empresa anunciou em junho a expansão para mais quatro mercados europeus: Portugal, Áustria, Dinamarca e Polónia. A estratégia aumenta para 11 o número de mercados europeus abrangidos pela marca e prevê uma rede superior a 50 pontos de venda no continente até 2027.

Portugal entra, portanto, na próxima fase da ofensiva europeia da Genesis.

O mercado britânico dos carros de empresa tem características fiscais muito próprias e não pode ser diretamente transposto para Portugal. Mas aquilo que está a acontecer por lá mostra uma mudança mais ampla na indústria.

Durante décadas, escolher um carro executivo significava muitas vezes escolher entre um conjunto relativamente previsível de marcas.

A eletrificação baralhou esse jogo.

E a Genesis quer aproveitar a oportunidade para garantir que, quando chegar a altura de escolher o próximo carro, o seu nome também está na lista.