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Conduzir em contramão por “likes”: a perigosa tendência do TikTok que já está a provocar mortes nas estradas

Automonitor

Conduzir em contramão, a alta velocidade e de noite, enquanto se filma tudo para publicar nas redes sociais. O que durante décadas foi associado ao chamado “joyriding” ganhou uma nova dimensão com o TikTok e outras plataformas, onde comportamentos extremamente perigosos podem transformar-se em conteúdos capazes de gerar visualizações, comentários e reconhecimento entre pares.

Conduzir em contramão, a alta velocidade e de noite, enquanto se filma tudo para publicar nas redes sociais. O que durante décadas foi associado ao chamado “joyriding” ganhou uma nova dimensão com o TikTok e outras plataformas, onde comportamentos extremamente perigosos podem transformar-se em conteúdos capazes de gerar visualizações, comentários e reconhecimento entre pares. Em apenas poucos dias, dois acidentes mortais no Reino Unido e na Irlanda voltaram a colocar o fenómeno no centro do debate, depois de cinco jovens terem morrido numa colisão numa autoestrada irlandesa e de outro acidente, no Reino Unido, ter provocado a morte de cinco jovens e dois agentes da polícia. Os vídeos associados a estas práticas mostram, habitualmente, condutores mascarados a circular em contramão, muitas vezes a velocidades elevadas, com a possibilidade de uma perseguição policial ou de um acidente a funcionar como parte do espetáculo.

Na Irlanda, o caso mais recente ocorreu na madrugada de 16 de agosto, quando um BMW circulava em contramão na autoestrada M9 e embateu frontalmente contra um Hyundai onde seguia uma família que se dirigia ao aeroporto de Dublin para viajar para um casamento no Reino Unido. Morreram cinco jovens — Joe Carthy, de 15 anos, Kamil Pustkowski, Jack Kennedy e Alex McCarthy, todos de 17 anos, e Jeremy O’Brien, de 18 — enquanto as três mulheres que seguiam no outro veículo, Ella Hendricken, Niamh Kinsella e Alma Kinsella, e o filho de sete anos desta última ficaram feridos, alguns em estado grave. Vários dos jovens eram conhecidos das autoridades e três tinham também histórico de acompanhamento pela agência de proteção de menores Tusla. O caso reacendeu as críticas à utilização das redes sociais para divulgar condução perigosa, sobretudo depois de terem surgido vídeos anteriores protagonizados por alguns dos jovens. O fenómeno e a reação ao acidente foram amplamente relatados pelo The Guardian e pelo Jornal de Notícias (JN), que destacou a ligação entre estes comportamentos, a procura de visualizações e o debate sobre a responsabilidade das plataformas.

Para Mary Aiken, professora de ciberpsicologia forense na University of East London, as redes sociais vieram amplificar uma procura de emoção e aprovação que já existia muito antes do TikTok. A especialista descreve este comportamento como uma espécie de atividade híbrida, na qual os jovens estão simultaneamente envolvidos na condução e na produção de conteúdos para o espaço digital. “Enquanto conduzem, eles estão simultaneamente a filmar e a capturar conteúdo para publicar mais tarde ou transmitir ao vivo. Têm um pé no mundo real e outro no ciberespaço”, explicou Aiken, acrescentando que a imersão psicológica proporcionada pelo ambiente digital pode potenciar a predisposição para assumir riscos e ignorar as consequências. “Eles estão a pensar nos ‘likes’, estão a pensar nos elogios”, afirmou. Graham Kavanagh, antigo agente da polícia irlandesa, considera que a origem do problema é anterior às redes sociais e recorda que já conhecia jovens “viciados” na combinação entre roubo de veículos, velocidade e perseguições policiais. “Conhecia pessoas que eram viciadas nisso: roubar e conduzir depressa, era essa a emoção, e se fossem perseguidas pela polícia, era a cereja no topo do bolo”, afirmou. Depois do acidente, Kavanagh questionou ainda como é que cinco jovens chegaram ao ponto de considerar aquele comportamento aceitável, perguntando: “Onde é que errámos enquanto sociedade?”

A dimensão do caso provocou também uma forte reação pública e política na Irlanda. Uma campanha de solidariedade destinada à família que seguia no Hyundai já tinha angariado mais de 660 mil euros, enquanto estava prevista uma vigília no condado de Carlow. Em sentido contrário, os familiares dos cinco jovens mortos foram alvo de comentários abusivos na Internet, levando-os a retirar os anúncios dos funerais. O primeiro funeral, de Alex McCarthy, realizou-se em Athy, com familiares vestidos com camisolas com a fotografia do jovem e o caixão transportado numa carruagem puxada por cavalos, enquanto a polícia acompanhava a cerimónia à distância. Denis Nulty, bispo de Kildare e Leighlin, reconheceu a revolta provocada pela tragédia, mas apelou à contenção e à compaixão, alertando que “as palavras podem ferir, mas as palavras também podem curar” e defendendo que não se procurasse “humilhar” os jovens, mas perceber como melhorar o comportamento da sociedade. Entretanto, novos vídeos de condução imprudente terão continuado a ser publicados no TikTok após o acidente, aumentando a pressão sobre a plataforma. A empresa recusou um convite para comparecer perante uma comissão parlamentar irlandesa, justificando a decisão com a investigação policial em curso, uma investigação do regulador dos meios de comunicação Coimisiún na Meán e o facto de nenhuma outra plataforma ter sido chamada a prestar esclarecimentos. Alan Kelly, presidente da comissão, considerou a recusa um “insulto” ao público irlandês. O TikTok afirmou, por seu lado, que está a colaborar com o regulador, a monitorizar conteúdos relacionados com o caso e a eliminar vídeos e contas que violem as suas regras, incluindo conteúdos que apresentem comportamentos suscetíveis de ser imitados e capazes de provocar danos físicos significativos, como a condução perigosa.

No Reino Unido, a preocupação aumentou depois de a polícia ter anunciado a detenção de 12 pessoas na sequência de outro acidente, ocorrido quando um veículo perseguido pelas autoridades circulava em contramão numa autoestrada. A colisão, registada no sábado, provocou a morte de cinco jovens, com idades entre os 17 e os 23 anos, e de dois agentes da polícia. O caso foi associado à tendência de utilização de condução perigosa para criar conteúdos destinados às redes sociais, levando o Governo britânico a pedir ao TikTok e a outras plataformas que eliminem vídeos que promovam estes comportamentos, embora as autoridades tenham sublinhado que “não há provas que indiquem que as filmagens (…) tenham sido realizadas para fins do TikTok”. O primeiro-ministro Andy Burnham classificou como “verdadeiramente repreensível e inaceitável” a glorificação da condução perigosa e confirmou que o Governo levantou o problema junto das empresas de redes sociais. A Ofcom, regulador britânico das comunicações, tinha iniciado no mês anterior uma investigação para avaliar se o TikTok estava a adotar medidas suficientes para proteger crianças de conteúdos nocivos. A plataforma proíbe, segundo as suas próprias regras, conteúdos que possam provocar danos físicos significativos, incluindo condução perigosa. Ao mesmo tempo, na Irlanda, aumentaram os apelos a penas mais duras para comportamentos deste tipo, incluindo a possibilidade de tratar a condução em contramão numa autoestrada como tentativa de homicídio, enquanto também surgiram críticas à preparação das forças policiais para perseguições automóveis e à responsabilidade individual dos agentes caso uma perseguição termine mal. A polícia irlandesa começou entretanto a reforçar a formação dos seus instrutores com apoio de especialistas britânicos. Para Kavanagh, porém, a resposta não pode limitar-se à polícia ou às redes sociais: pais, professores, assistentes sociais e outras estruturas da sociedade terão de intervir muito mais cedo para impedir que jovens com comportamentos problemáticos avancem por um caminho de risco. A tragédia volta, assim, a colocar uma questão que ultrapassa o próprio TikTok: até que ponto a procura de reconhecimento digital está a transformar comportamentos perigosos em espetáculos e a aumentar a disposição de alguns jovens para colocar em risco a própria vida e a de terceiros em troca de visualizações?